O falso empoderamento de Anastasia Steele em Cinquenta Tons Mais Escuros

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Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker, 2017), sequência que retrata a intensa relação entre Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan), tenta trazer uma grande novidade em relação ao seu antecessor Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey, 2015): a mudança de postura da personagem principal.

O primeiro filme da série (uma adaptação dos livros da autora Erika Leonard James, mais conhecida como E. L. James) foi dirigido por Sam Taylor-Wood, que também dirigiu Garoto de Liverpool (Nowhere Boy, 2009), mas abandonou as filmagens da sequência por conta de divergências acirradas com a autora. Quem a substituiu foi o cineasta James Foley, não tão conhecido no cinema, mas responsável por dirigir episódios de séries conhecidas e premiadas como Hannibal e House of Cards.Essa mudança na direção é perceptível em diversos aspectos, principalmente na construção do enredo. O filme, que começa com a resolução de um problema que Cinquenta Tons de Cinza deixou em aberto, nos apresenta desde o início à maneira como a narrativa vai se construir e como as intempéries serão resolvidas.

Tentando (mas não conseguindo) dar uma nova cara à personagem de Dakota Johnson, a narrativa é coberta de problemáticas e resoluções descabidas. Uma das maiores críticas ao primeiro filme da série foi a de que a personagem principal não possuía nenhum poder sobre si mesma no relacionamento com Christian Grey. Contudo, nessa sequência, ela parece, ao menos, questionar muitas das atitudes do namorado, mas sempre, devido a essa série de adversidades, acaba cedendo às suas vontades. Em diversos momentos pode-se notar o bilionário pronunciando frases como “Ele quer o que é meu” e  “Você é minha” sempre fazendo referência ao fato de ele achar que Ana é uma de suas propriedades (ela mesma afirma isso em uma cena). Em situações mais complexas, ele a segue, sabe senhas dela sem que ela as tenha dito, compra para ela um celular com o aparente intuito de monitorá-la, não a deixa ir em uma viagem de trabalho, dentre outras coisas. Ela, porém, relutante a isso, não aceita as imposições que ele a coloca, tentando argumentar sobre as coisas que ele faz, ameaçando, em alguns casos, até mesmo deixá-lo.

A personagem e a história se tornariam muito mais interessantes se esse fosse o rumo tomado pelo filme, mas não é o que ocorre. Como já foi dito, houve uma tentativa de mudança no paradigma de pensamento de Anastasia. Em cenas subsequentes as quais ela geralmente se posicionava contra Christian, no entanto, coisas extremas aconteciam e, colocada sempre em situação de vulnerabilidade, Ana sempre cedia às vontades do magnata.

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Outro problema dessa construção narrativa é que para a concepção dessas cenas alguns novos personagens foram introduzidos com o único intuito de provar que “sim, Anastasia Steele tem o controle da própria vida, mas ela precisa ficar com Christian Grey”, e, por conta disso, foram pouco ou nada desenvolvidos. Os dois maiores exemplos é o do chefe de Ana, Jack Hyde e da ex submissa de Grey, Leila Williams. Esta surgiu como uma personagem de filme de terror, no começo não se sabia ao certo qual seria sua função, houve poucas aparições, até que a explicação de quem realmente era foi apresentada. Seu desfecho, contudo, foi sem nexo, servindo apenas para mostrar ao público, mais uma vez, que Christian submete as mulheres e tem um poder absurdo sobre elas e, é claro, para fazer Anastasia ceder mais uma vez. Jack, diferentemente de Leila, possui funções um pouco mais amplas, o que não o tornou um personagem mais interessante e aprofundado na história. Chefe de Ana e interessado tanto em seu trabalho quanto em sua beleza, a sua função é simples: provar Christian Grey está certo em ser um namorado ciumento controlador. Esse tipo de abordagem gera uma reflexão acerca do que pode ser tanto o posicionamento da autora dos livros quanto dos diretores dos dois filmes. Para Sam Taylor-Wood, Anastasia Steele era, sim, a estudante desajeitada que por algum motivo desconhecido conquistou um bilionário mais que excêntrico capaz de submeter as mulheres e fazer delas mais uma de suas propriedades particulares. Já para James Foley,  Anastasia não deixou de ser essa mesma mulher resignada, porém, um véu extremamente transparente e fino de autonomia de si mesma cobriu a sua personalidade e pode ter feito muitas pessoas acharem que sim, ela realmente ficou com Christian Grey porque eles se amavam e não porque ele exercia algum tipo de controle sobre ela. Isso tudo, claro, dentro da ótica do enredo original dos livros da E. L. James.

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Mas o filme não foca apenas na abordagem à Anastasia, já que a história de Grey é parcialmente contada. Ele fala sobre sua mãe, como ela morreu e logo no início vemos como teve uma relação conturbada com o pai (tenta-se justificar aí suas práticas sadomasoquistas). Mas o mais importante nessa história é como tudo isso o aproxima de Ana, ou seja, suas histórias traumáticas na infância são usadas para justificar seu relacionamento abusivo com a namorada e fazer com que ela aceite o jeito como ele se porta com ela. Além disso, com relação à Cinquenta Tons de Cinza, o Christian é um homem menos rude, e muitas vezes se diz disposto a mudar para poder ficar com Anastasia, o que se prova desnecessário ao longo do filme.

Por conta de todas essas adversidades postas para que Anastasia e Christian fiquem juntos, o filme é exageradamente longo (1h58min). Sempre que uma história é resolvida, a narrativa nos impõe outra e assim sucessivamente, até que no final o enredo se perde e tudo termina no melhor estilo novela mexicana. As atuações de Jamie Dornan e Dakota Johnson, contudo, se igualam ao primeiro filme da série, sem nenhuma surpresa, agradável ou não, fazendo sempre jus às personagens que são apresentadas.

Além das personagens que muitas vezes não se justificam, há algumas cenas que também não são explicadas como uma em que o carro de Anastasia é destruído e nada se desenvolve a partir dali, não se fala quem foi, há apenas uma suposição, nem se tem ideia de como isso poderia ter ocorrido. Ou seja, trata-se de mais uma cena jogada que deixa o filme tão perdido quanto longo.

No geral, o filme começa bem (principalmente por conta da trilha sonora que é a única coisa que não decepciona), parece que vai ser uma grata surpresa dentro daquele universo em que ele está inserido, mas acaba se perdendo completamente, não se justificando, tornando-se cômico em muitos casos, com cortes grosseiros, edições bizarras e finais novelescos.

O filme estreia nos cinemas no dia 9 de fevereiro. Assista ao trailer:

por Camilla Freitas
camilla.freitasoares@gmail.com

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