O Homem das Cavernas – Quando o futebol encontra a Pré-História

Uma narrativa épica de futebol na pré-história e um exemplo grandioso de “a união faz a força”. Essa é, ao menos visualmente, a ideia central da mais nova produção da britânica Aardman Animations, O Homem das Cavernas (Early Man, 2018).

O filme marca a volta de Nick Park à cena cinematográfica, 13 anos após dirigir o aclamado vencedor do Oscar de Melhor Animação de 2006, Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais (Wallace & Gromit: The Curse of the Were-Rabbit, 2005). Antes disso, o diretor conhecido pelas animações em stop motion também esteve à frente do sucesso de bilheterias e, até então, revolucionário A Fuga das Galinhas (Chicken Run, 2000), além da série de TV infantil Shaun, o Carneiro (2007-2014).

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Tudo se inicia com a queda de um meteoro na Terra, nos primórdios da Era Pré-Histórica. Entre os escombros e a poeira, os homens primitivos descobrem uma pequena figura esférica de pedra, com formas hexagonais realçadas. Por pura curiosidade e instinto, de chutes em chutes, e não cientes da relevância que aquilo ganharia – sendo inclusive retratado nas pinturas de seus descendentes –, começam a desenvolver um futebol rudimentar.

Eras depois, o espectador se depara com uma pequena tribo da Idade da Pedra, onde habitam o jovem Dug e seu fiel amigo Porcão. Sob a liderança do Chefe Bobnar e sobrevivendo da caça de pequenos animais selvagens, a tribo convive harmonicamente e com constantes celebrações festivas. Nada parece perturbar sua existência. Até que, em uma noite tranquila, são surpreendidos numa invasão pelas gigantescas tropas da Idade do Bronze, chefiadas pelo Lorde Nooth.

Interessado na exploração das minas do vale, o soberbo líder inimigo despeja impiedosamente a tribo do local. O valente e audacioso Dug, por sua vez, inconformado com a situação, propõe um desafio: uma batalha de futebol para reconquistar o vale e desmoronar a vaidade da Idade do Bronze. Será a Idade da Pedra capaz de resgatar suas raízes futebolísticas e desbancar a evoluída equipe do Real Bronze?

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O longa, acima de tudo, é uma lição de moral pré-histórica. A Idade do Bronze, pujante com sua fortuna e soberania política e tecnológica, convive, ainda assim, com males sociais velados, tais como o sexismo, a exploração do povo sustentada no futebol – em estrutura muito similar ao pão-e-circo – e a corruptela do poder. A Idade da Pedra, afora seu atraso técnico, evidenciado pelo modo de vida nômade e caçador-coletor, convive com valores humanos mais nobres de coletividade, igualdade e fraternidade.

A inversão de papéis das duas civilizações contrastantes, no grande momento da batalha esportiva entre o Real Bronze e o Pedra Lascada United, é o notável desfecho do mote “a união faz a força” e da distância entre essas sociedades. Uma batalha da coletividade contra a individualidade, do altruísmo contra o egoísmo, do pequeno corajoso contra o soberbo acomodado. Mas, sobretudo, pelo papel determinante de Goona – “boleira” da Idade do Bronze – e Porcão no final, um duelo da igualdade contra o preconceito e o sexismo.

O simbolismo que permeia o conflito é bastante marcante. A história construída no futebol pelos antepassados da Idade da Pedra determina a eles, inconscientemente, uma missão de redenção e vingança histórica. Esse componente cria uma atmosfera diferente para a disputa, além de abalar emocionalmente o herói Dug, em um dos seus poucos momentos de grande fraqueza.

Do outro lado, há uma sociedade que centraliza seus esforços no desenvolvimento de um esporte milenar e de sua otimização tática e técnica. O futebol desempenha um papel, mais que central, superior na Idade do Bronze, sendo objeto de orgulho, honra e também de muito poder. O tratamento diferenciado que os dois grupos dão à atividade é sintomático e fundamental para se apreender uma grande lição do filme.

O grande destaque é o protagonista Dug, dublado excelentemente por Marco Luque. A trajetória do personagem é muito interessante e peculiar, uma vez que sua ainda incipiente coragem de menino é colocada à prova em vários momentos. A responsabilidade depositada em Dug pelos demais habitantes da tribo, combinada à valentia demonstrada pelo herói para assumir seus deveres, cria simpatia no espectador. Aliás, não só pelo jovem primitivo, como pelos outros heróis improváveis que surgem ao decorrer da narrativa.

O breve esboço da história parece beirar o absurdo. E sim, algumas cenas do filme causam um estranhamento inicial, além de certas referências que são comicamente forçadas. Em alguns momentos, o longa acaba pecando pela sua própria ousadia e por alguns exageros desnecessários. Não se engane, porém: o filme é altamente recomendável e é um prato cheio para amantes de animações infantis e do esporte.

O Homem das Cavernas pode não possuir o brilho das produções de extremo sucesso de Nick Park. No entanto, antes de julgar o filme, lembre-se de uma famosa máxima do futebol: o jogo só acaba quando termina.

 

O Homem das Cavernas chega aos cinemas em 5 de abril. Confira o trailer!

por Henrique Votto
henrique.votto@usp.br

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