O invisível e suas faces

O filme Mundo Invisível  (2011) é na verdade um conjunto de curtas produzidos por doze diretores renomados internacionalmente. A duração deles varia, mas o tema gira em torno da invisibilidade, abordada de diversas formas. A cidade de São Paulo, seus moradores e problemas também aparecem diversas vezes ao longo do filme.

Invisibilidade social

Os curtas que focam mais na invisibilidade de maneira social são cinco: Céu Inferior, Tekoha, Fábula – Pasolini em Heliopólis, Aventuras do Homem Invisível, Ver ou Não Ver e Yerevan – O Visível.

O curta Céu Inferior, do diretor ateniense Theo Angelopoulos, se passa em São Paulo. Nele, é mostrado um mundo não percebido, talvez, por muitos moradores da cidade: seus subterrâneos  –  locais e pessoas marginalizadas. Os grafites, que muitas vezes fazem parte do submundo de São Paulo, também fazem parte do curta, ajudando a completar o cenário de crítica social.

Tekoha, de Marco Bechis, mostra a visita de índios Guarani-Kaiowá ao Parque Trianon, em plena avenida Paulista. Nesse caso, eles não passam despercebidos, chamando atenção de diversas pessoas que perguntam se eles são índios. Mas qual o significado dessa suposta visibilidade deles ao circularem por São Paulo? Como o Parque Trianon, esses indígenas estão cercados (e sufocados, talvez?) pela civilização e despertam curiosidade por isso.

Já o Fábula – Pasolini em Heliopólis, dirigido por Gian Vittorio Baldi, mostra sua ida à maior favela de São Paulo: Heliopólis. As razões dessa visita são colocadas, além de se mostrar a realidade dos moradores.

O dia-a-dia de um garçom é explorado em Aventuras do Homem Invisível, dirigido por Maria de Medeiros. Ele é ignorado por muitas das pessoas que se hospedam no hotel onde trabalha e passa por situações inesperadas e, às vezes, constrangedoras. O curta conta com a participação especial da atriz Denise Fraga.

Wim Wenders abordou, no curta Ver ou não Ver, o projeto social desenvolvido no Departamento de Oftalmologia da Santa Casa de São Paulo. A doutora Silvia Veitsman, junto de sua equipe, ajuda crianças com visão residual a aprender a utilizá-la. A trajetória emocionante dessas crianças é apresentada, com o foco em três meninas: Yasmin, Ythamara e Dandara.

Por fim, o curta Yerevan- O Visível, de Atom Egoyan, trata da questão da invisibilidade dos movimentos sociais. Um homem , que busca saber a história de seu avô desaparecido durante uma rebelião na cidade de Yerevan, capital da Armênia, se senta em uma praça com a foto dele, além de outras da rebelião. Um transeunte para, olha as fotos, e reconhece um amigo seu, que morreu numa outra rebelião, nunca divulgada no Brasil.

A importância do invisível

De certa maneira, os curtas Gato Colorido, Do Visível ao Invisível, O Ser Transparente, Kreuko  e Tributo ao Público de Cinema falam sobre a importância do invisível.

Gato Colorido, dirigido por Guy Maddin, se passa no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Em cenas inusitadas de um dia de Finados, um gato preto, que vive no cemitério, convive com visitantes do local.

Manoel de Oliveira dirigiu o curta Do Visível ao Invisível. É uma cena de dois amigos, um brasileiro e um português, que se encontram na avenida Paulista e tentam conversar, mas sempre são interrompidos pelo toque do telefone. Para conseguirem se comunicar, os dois encontram uma solução incomum e engraçada.

O curta O Ser Transparente, da brasileira Laís Bodanzky, fala da questão do invisível na arte e na religião. Com depoimentos de Yoshi Oida, criador do conceito de “ator invisível”, do ator Lee Taylor e de Cássia Kiss, é explicada a importância da invisibilidade do ator em cena. A Monja Coen completa essa explicação, referindo-se à necessidade dos monges de serem invisíveis, entre outras questões.

Os diretores Beto Brant e Cisco Vasques são os responsáveis por Kreuko. Esse curta não é só um elogio à loucura, mas também trata da questão do belo e do feio, se utilizando por vezes da história de Romeu e Julieta. Conta com a participação de José Wilker e Sônia Braga.

Já o Tributo ao Público de Cinema, de Jerzy Stuhr, mostra a reação dos espectadores ao assistirem o filme O Tempo de Amanhã (2003), do mesmo diretor, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É interessante observar que poucas pessoas demonstram alguma reação, ficando sérias a maioria do tempo.

Esse conjunto de curtas muda a relação do espectador com a questão da invisibilidade, abordando-a de maneira ampla e por muitas vezes, emocionante.

Por Nina Turin
ninaturin48@gmail.com

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