O mundo de magia (e realidade) de Harry Potter

por Carolina Unzelte Victória Martins
carol.unzelte@gmail.com
victoria.rmartins19@gmail.com

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Uma escola de magia e um menino com uma cicatriz que o conecta ao seu arqui-inimigo, além de enfrentar trasgos, aranhas gigantes e voar em hipogrifos. No primeiro momento, o enredo dos livros e filmes de Harry Potter não parece ser o mais próximo da realidade. Entretanto, as intersecções entre a saga e o mundo contemporâneo são tantas que as ideias do mundo bruxo de Potter ultrapassam as barreiras da ficção, e, inclusive, se tornaram um método de ensino de ciência política na Faculdade de Babson, Massachussets.

De discriminação a ideologias excludentes, passando pelo papel da mídia e estereótipos sociais, são muitos os temas que encontram paralelos fora dos livros e filmes da série que acompanhou inúmeros jovens e adultos nas últimas décadas. Esses paralelos com o mundo real, inclusive, são citados como um dos motivos para o estrondoso sucesso da série de J. K. Rowling e dos filmes que geraram mais de 7 bilhões de dólares para a Warner Bros.

Ideologias das trevas

Tom Riddle, ou Lord Voldemort, é um dos maiores personagens da série. O antagonista é um dos mais brilhantes bruxos de todos os tempos, apesar de ter usado seu talento para as artes sombrias. Em sua busca pelo poder, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado prega a “limpeza” da população bruxa, ou seja, acredita que os “sangues ruins” (aqueles nascidos trouxas) não devem ter acesso à magia e devem ser condenados ao extermínio, assim como os mestiços também não merecem o mesmo respeito que os “sangues puros”, de famílias tradicionais bruxas.

Assim, há uma clara semelhança entre Voldemort e Adolf Hitler: ambos excepcionais em suas capacidades de liderança e na formulação de ideologias que buscavam excluir e segregar seres humanos em “melhores” e “piores” – o líder nazista afirmava que o crescimento humano só poderia acontecer com o fim dos judeus, homossexuais, ciganos e outras minorias. Mesmo semelhanças entre as origens de ambos podem ser traçadas: Hitler definia a raça ariana perfeita como o alemão puro, mas era austríaco; Voldemort, por sua vez, era nascido trouxa, mas pregava a inferioridade deste grupo. As ideias do Lorde das Trevas também se aproximam daquelas de grupos racistas, como a Ku Klux Klan.
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Relacionados a Voldemort se encontram os Comensais da Morte. Este grupo é composto por bruxos que praticam as artes das trevas e compactuam com o pensamento segregacionista de seu líder, procurando, de todas as maneiras, manter o poder dentro da comunidade bruxa. Estes comensais não se deixavam enquadrar nas regras que regiam o restante do mundo mágico, e não impunham limites ao uso de seu conhecimento, mesmo quando as consequências eram graves. Na saga, especialmente no filme Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, 2005), fica claro que o grupo de seguidores de Voldemort usava indiscriminadamente feitiços proibidos pelo Ministério da Magia, inclusive as três maldições imperdoáveis, que promoviam tortura, controle e morte.

Esses atos e a realidade encontram uma comparação na questão da ética na ciência. O debate sobre o uso indiscriminado do saber científico, sem considerações sobre o bem estar de uma sociedade, é a cada dia mais presente no mundo moderno, que tem na ciência também um meio de gerar lucro. Exemplo disso é a disseminação de alimentos transgênicos que só são possíveis graças aos avanços no conhecimento (apesar de não serem certas as consequências para a saúde humana) mas que são vendidos e consumidos livremente. Além disso, diversas questões de bioética, como a clonagem humana, giram ao redor das maneiras de se usar o conhecimento.

Pena de repetição rápida

Outro retrato da vida real em Harry Potter está na personagem de Rita Skeeter. Aparecendo pela primeira vez em Harry Potter e o Cálice de Fogo, Rita é uma jornalista que não tem escrúpulos em manipular as informações e abusar do tom sensacionalista para vender jornais. Dessa maneira, ao pintar o protagonista como um adolescente sedento por atenção no “Profeta Diário” (o maior jornal bruxo), Skeeter manobra a opinião pública contra o garoto e o resultado é que o mundo bruxo encara Harry como um mentiroso graças às matérias tendenciosas da jornalista. Além disso, divulga boatos, como fez falando do (inexistente) relacionamento romântico entre Harry e Hermione.
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A crítica à imprensa irresponsável é clara: não é incomum vermos, ainda mais com a maior flexibilidade da internet, muitas notícias que, se não são mentiras, são verdades deturpadas. Também é nítida a referência à mídia sensacionalista, que se utiliza de manchetes de forte apelo emocional e fofocas, como Skeeter, para vender mais – como os tabloides britânicos são famosos por fazer. Assim, em Harry Potter, há também a mostra do que supostamente é feito para informar e empoderar a população e, muitas vezes, apenas difama e manipula. Além disso, é possível notar, mais ao final da saga, os partidos que os veículos de comunicação, invariavelmente, tomam, como fica explícito com as divergências entre “O Pasquim” (jornal alternativo do mundo bruxo) e “O Profeta Diário”.

Discriminação bruxa, escravidão e movimentos sociais

Mais uma intersecção que podemos perceber na saga de Harry Potter são os modos em que a discriminação e o preconceito, muito presentes no mundo atual, são apresentados ao leitores e espectadores. De acordo com a série, a sociedade bruxa é composta por sangues-puros, meios-sangues e abortos, ou seja, bruxos nascidos em famílias exclusivamente mágicas, magos de famílias com bruxos e trouxas na árvore genealógica e aqueles que, apesar de nascidos em famílias bruxas, não desenvolveram poderes, respectivamente.

Nos livros e filmes da saga, percebe-se, tanto através da ideologia de Voldemort quanto pelos atos de demais personagens, como Draco Malfoy, que parte da comunidade bruxa crê na superioridade dos sangues-puros, que seriam melhores nas artes da magia do que os meios-sangues. Assim, a discriminação, tão forte na nossa sociedade, e imposta sobre grupos considerados “inferiores”, como negros e homossexuais, encontra um reflexo dentro do mundo bruxo de J. K. Rowling. É possível enxergar um paralelo, inclusive, entre esta situação e os grupos cujas culturas se organizam em castas, como ocorre há milênios na Índia, nas quais o preconceito não é velado e se apresenta através do discurso de que uma parcela da sociedade é melhor do que outra.

Esta discriminação não acontece apenas entre magos, mas também se apresenta na visão que a sociedade bruxa têm de outras criaturas que compõem este mundo. Um exemplo bastante gritante é a relação construída entre bruxos e elfos domésticos. Estes elfos, dentro da ficção de Harry Potter, são criados apenas para servir os bruxos, e só podem ser liberados se a família a qual servem lhes entregar, espontaneamente, alguma peça de roupa. Isto se expressa no filme Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets, 2002), em que o elfo Dobby é liberto de sua relação de servidão para com os Malfoy através de uma meia encontrada dentro de um livro que lhe é entregue por Lúcio.
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Assim, tendo os elfos domésticos a função exclusiva de servidão, para muitos bruxos estes são considerados como inferiores aos magos e mesmo sub-humanos (já que, apesar de esta comunidade se considerar superior aos trouxas, ainda os vê como seres humanos). Desta forma, vê-se a semelhança entre esta visão e a escravidão, uma vez que grande parte da explicação sobre este ato se baseou na ideia de inferioridade dos grupos escravizados, seja por inteligência, cor de pele, ou qualquer outro motivo infundado.

Cabe lembrar ainda que uma ligação entre a situação dos elfos e a existência de movimentos sociais dentro do mundo bruxo pode ser percebida, ao se considerar a ocasião em que Hermione cria o Fundo de Apoio à Libertação dos Elfos-Domésticos, em que luta pelo fim da escravidão destas criaturas mágicas (fato não citado nos filmes).

Estereótipos x verdade

As casas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts separam os alunos de acordo com suas características pessoais, logo no primeiro ano na escola. Grinfinória, por exemplo, tem fama de abrigar os bruxos corajosos e leais, enquanto a Corvinal é o lar dos inteligentes e astutos e a Lufa-Lufa dos estudantes pacientes e sinceros. E, como diz Rony Weasley no filme Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Philosopher’s Stone, 2001), “não existe bruxo mal que não veio da Sonserina”.

Assim, ao redor das casas, criam-se estereótipos sobre seus integrantes. No entanto, essas ideias são postas à prova em diversos momentos da história. Pedro Pettigrew, apesar de ser da Grifinória, era inclinado para a magia negra, notável por sua covardia e nem um pouco leal ou confiável. Severo Snape não se manteve no lado das trevas, mesmo sendo sonserino. Cedric Diggory, lufa-lufano, era valente como se espera de um grifinório. Hermione Granger é extremamente estudiosa e inteligente, mas não é da Corvinal. O próprio Dumbledore, feiticeiro famoso por sua habilidade e bondade, não era da Sonserina, mas teve tendências para as artes das trevas durante certo período de sua vida.
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Os estereótipos em relação às casas de Hogwarts espelham os ambientes sociais da vida real, em que essas ideias pré-definidas tornam-se atalhos para agrupar e classificar pessoas, sem contar com a multidimensionalidade de suas personalidades. Mulheres são competitivas entre si. Asiáticos são inteligentes. Homens não choram. Loiras são burras. Assim como na escola de bruxaria, essas frases feitas (que, muitas vezes, disfarçam preconceitos) são baseadas em apenas um fato e se mostram inverdades uma vez que conhecemos as pessoas por trás dos estereótipos.

Outras intersecções

Além dessas relações, alguns outros aspectos comuns ao universo de Potter e mundo real são perceptíveis. O papel feminino na saga é algo que, infelizmente, tem inspiração na realidade, através de personagens como Hermione, que nos primeiros filmes e livros, sofre por ser, simultaneamente, a melhor bruxa do ano e mulher (cabe aqui, inclusive, uma reflexão sobre a mudança física da atriz que interpreta a personagem no cinema, representado, por exemplo, por seu cabelo – alisado nas telas, enquanto a sua marca nos livros é justamente seu volume); Fleur Delacour, que no quarto filme é escolhida a melhor bruxa de sua escola, sendo esta exclusivamente feminina (enquanto, no livro, a Beauxbatons é mista); Molly Weasley, que se insere no estereótipo de mulher-mãe, mas é pouco reconhecida como a excelente bruxa que é; e Belatrix Lestrange, que, apesar de ser a melhor e mais fiel Comensal da Morte, não recebe a devida consideração.

Também, podemos citar o abuso e maus tratos infantis, explorados através da relação entre Harry Potter e os Dursley e o papel dos dementadores, que, tal como explicitado pela própria J. K. Rowling em entrevistas, representam a depressão e suas influências na vida cotidiana dos que sofrem desta doença psicológica.

Assim, são muitas as intersecções que se podem traçar entre o mundo mágico de Harry Potter e o mundo real, o que deixa claro que a ficção não é tão fantasiosa como muitos pensam. Os livros e filmes da saga abordam muitas situações que podem ser vividas pelos leitores e uma leitura atenta nos mostra o quão similar com a realidade a literatura (e o cinema) pode ser. Harry Potter fala de coisas próximas a nós sem uma complexidade que encontramos em outras obras, o que atrai cada vez mais leitores e telespectadores, e enfim, fãs, para esse mundo incrível e tão detalhado criado por J. K. Rowling.

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