Dilemas de quem mata por dinheiro são destaque em O Nome da Morte

Uma introdução tensa. Pessoas batendo na porta de uma casa e um homem que claramente está nervoso. Veste uma roupa de policial para atender a porta e logo a vizinhança percebe que ele, na verdade, não é da polícia. Em uma tentativa de fuga, toma um tiro. É dessa forma frenética que O Nome da Morte (2018) começa. O espectador é jogado repentinamente na trama sem saber muitos detalhes, detalhes esses que vão sendo desvendados e explicados ao longo da história.

Um filme nacional que explora muito bem questões que parecem surreais para os dias de hoje, mas que são mais comuns do que imaginamos. Julio Santana (Marco Pigossi) é um homem simples que vivia no interior do Brasil e que, a convite do seu tio Cícero (André Mattos), vai para a cidade trabalhar como policial. Chegando lá, Julio descobre da pior forma possível que seu tio, na verdade, o chamou para trabalhar como um assassino profissional.

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Julio recebendo uma arma de seu tio para fazer os serviços [Reprodução]

Um dos grandes trunfos do filme está na forma como o roteiro explora a dualidade na personalidade de Julio. O filme consegue mostrar dois lados do protagonista: amoroso, preocupado e atencioso com a sua família; e frio, calculista e indiferente na hora de matar qualquer pessoa que ele foi pago para dar um fim.

Dentro desse espectro de lados conflitantes, o longa também explora a relação de Julio com a religião. Mesmo sendo muito religioso, ele leva esse seu “trabalho” como algo completamente normal. Quando sua esposa Maria (Fabíula Nascimento) volta para casa, vai lavar a roupa do marido que está coberta de sangue e logo em seguida, após um corte seco, a família é mostrada na igreja cantando o hino religioso Como Zaqueu, como se fosse algo normal e parte da rotina, fica evidente a maneira como o casal lida com esses dilemas.

Todas essas características que constroem os personagens podem gerar no espectador sentimentos conflitantes. Isso acontece principalmente com Julio, devida a atuação espetacular de Marco Pigossi. Mesmo abominando o fato dele ser um pistoleiro e matar qualquer pessoa por dinheiro, quem assiste pode acabar torcendo por esse personagem, principalmente quando seu lado mais humanizado é mostrado. Quando está com a família é amoroso, atencioso, dedicado e preocupado. Julio surpreende ao ter uma conversa com o seu filho após a criança ter roubado um carrinho de brinquedo de um amigo. A mãe é quem acaba repreendendo e castigando o garoto por seu ato, diferente do pai que explica da forma mais calma possível que o que o garoto fez foi errado.

As dualidades de Maria também são exploradas de uma forma interessante. Quando ela descobre que Julio é um assassino profissional, decide se afastar do marido. Após se reconciliarem com a promessa de que este abandonaria esse seu passado, ambos passam a ter uma vida mais complicada em decorrência da falta de dinheiro. Então, na primeira oportunidade, o protagonista volta a ser um pistoleiro, porém dessa vez com o aval da esposa.

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Julio e Maria no bar em que se conheceram [Reprodução]

Falando dos aspectos mais técnicos, o filme não deixa a desejar em nenhum ponto. A fotografia é muito bonita, sempre com colorações condizentes com cada momento da história. Os cenários naturais também são de encher os olhos de quem assiste. Além disso, a trilha sonora é outro recurso muito bem trabalhado. Em alguns momentos, barulhos que passam a sensação de incômodo são utilizados. A montagem, com cortes secos na transição de algumas cenas, contribui juntamente com a trilha para gerar no espectador certo estranhamento. Quando Maria é mostrada apenas de costas tendo uma vida toda luxuosa, esses recursos são muito trabalhados.

Na coletiva de imprensa realizada no dia 25 de julho para a divulgação do filme, o ator Marco Pigossi, a atriz Fabiula Nascimento, o diretor Henrique Goldman e o jornalista Klester Cavalcanti (autor do livro que inspirou o filme) falaram um pouco sobre o longa-metragem. Marco comentou como foi a experiência de gravar seu primeiro filme. Para o ator foi um exercício novo, muito interessante e profundo. Em suas pesquisas para viver o personagem, ele ouviu um homem dizer que “o ser humano é um produto do meio onde ele vive”. Essa acaba sendo uma discussão que permeia a narrativa uma vez que mostra os dois lados da vida do protagonista.

Fabíula comentou que trabalhou junto com Marco para construir a relação da família do filme, e que fez um exercício de não julgamento da conduta de sua personagem. “Como ator a gente sempre tende a defender os personagens” comentou Pigossi. O ator disse que condenou as atitudes de Julio mas mesmo assim viu que ele, de certa maneira, é uma vítima de uma falta de consumo de cultura, de educação e de perspectiva. “O filme é muito sobre esse território: até onde vai a responsabilidade da sociedade e onde começa a responsabilidade do indivíduo” comentou o diretor Henrique Goldman.

O jornalista, autor do livro que inspirou o filme, falou um pouco do processo de escrita e de como teve acesso a Julio Santana. Klester entrevistava Julio por telefone e só depois de muito tempo conseguiu encontrá-lo pessoalmente. Em 2006, o autor conseguiu convencê-lo a publicar o livro com a sua identificação, bem como o nome real das vítimas e dos mandantes dos assassinatos. Julio falou para o jornalista: “Klester, você é pago para escrever e eu sou pago para matar”. O escritor também comentou a relação do pistoleiro com os assassinatos e sua fé. “Ele tem sua culpa, pede perdão, reza. Mas para ele, é um trabalho. Ele não tem prazer em matar, não é um serial killer”.

A questão da violência, ponto muito presente no filme, também foi discutida. “Esse filme é uma denúncia de uma coisa que acontece até hoje. Imagina ser o país que mais mata mulheres, membros da comunidade LGBTQ+. Tomara que esse filme traga esse diálogo. A gente precisa falar sobre isso”, ponderou Pigossi.

Outro aspecto muito relevante levantado por Klester durante o debate foi o fato de que a história retratada no filme não acontece apenas no interior do Brasil. Para ilustrar isso, ele citou o caso da vereadora Marielle Franco, que até agora está sem solução. “A gente cai muito no erro de achar que esse mundo do filme só acontece no interior do Brasil. Não é. Marielle é um caso clássico de pistolagem. Isso acontece todo dia no Brasil nas grandes cidades. Essa questão da pistolagem e da impunidade é muito atual. O filme também cumpre esse dever de trazer essas discussões à tona”, disse.

O Nome da Morte tem uma trama envolvente que traz discussões que parecem surreais, mas são pautas extremamente contemporâneas. Aparenta ser um enredo incomum, entretanto é algo que ainda acontece não só no interior do país como nas cidades grandes. Talvez uma das coisas mais chocantes é o fato de que o filme é baseado em uma história real.

O filme estreia dia 2 de agosto. Confira o trailer abaixo:

Por Marcelo Freitas
marcelofreitas@usp.br

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