O Paciente: A verdadeira história por trás da morte de Tancredo Neves

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21 de abril de 1985, data da morte de Tancredo Neves, o primeiro presidente do Brasil após o fim da ditadura. Esse, infelizmente, nunca chegou à sua cerimônia de posse. Há quem invente diversas teorias da conspiração para justificar sua morte, mas o filme O Paciente – O caso Tancredo Neves (2018) deixa o laudo claro, erros médicos e vaidade dos próprios.

O longa dirigido por Sergio Rezende é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Luís Mir. Logo no ínicio, é feita uma contextualização histórica com gravações da época e gritos pedindo “Diretas Já”. Depois, vê-se o protagonista (Othon Bastos) junto a sua família e seu assessor, Antonio Britto (Emílio Dantas), dias antes da posse, preparando-se para uma coletiva. No entanto, a conversa com os jornalistas não chega a acontecer devido a uma indisposição do político. Daí em diante, começa realmente a jornada de Tancredo até seu triste fim.

Ele foi internado às pressas no hospital de Brasília com suspeita de apendicite, um caso grave com necessidade de intervenção cirúrgica. Sua esposa, Risoleta Neves (Esther Góes), e seus filhos gostariam que o paciente fosse conduzido para o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor) em São Paulo, porém, o médico cirurgião Dr. Pinheiro Rocha (Leonardo Medeiros) acreditava que o homem não aguentaria e teria que fazer o procedimento imediatamente. Assim foi executada a primeira cirurgia de Tancredo, e com ela, o ínicio de seus últimos dias.

Fica claro o despreparo do hospital de base de Brasília para lidar com o caso. O diagnóstico estava errado, os médicos continuaram procurando problemas para justificar as cirurgias, o doutor responsável cometeu erros durante a cirurgia e a ansiedade para acabar o procedimento prejudicou a saúde do presidente, levando-o a mais dois procedimentos no futuro, o último já em São Paulo.

Há uma grande guerra de egos entre os profissionais da saúde. Ao mesmo tempo que todos cometem erros, nenhum os assume. Além disso, passam o tempo todo para a população a visão de que tudo corre bem, de que o paciente está estável e se recuperando, o que era o total oposto.

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A equipe médica com Tancredo Neves (Othon Bastos) e a esposa Risoleta Neves (Esther Góes). Reprodução da foto tirada ainda no hospital para mostrar o estado positivo do político para a população.

A obra traz comoção e toca, principalmente, aqueles que viveram na época e também estavam confusos com o que realmente se passava dentro daquele ambulatório. Como foi dito por Sérgio Rezende durante a coletiva de imprensa, a história mostra o Brasil na esperança e no desespero (devido à morte de Tancredo e posse de Sarney).

Além do ótimo enredo, o filme também encanta em sua produção. O diretor teve como objetivo fazer algo mais documental do que cinematográfico. A história é contada em um ritmo de thriller para não deixar o espectador piscar. Também foi feito com apenas uma câmera e uma única lente de zoom. Sobre a trilha sonora, teve a preferência de usar instrumentos para realizar apenas ruídos, como a respiração de Tancredo feita por um acordeon tocado apenas no fole e os sons das máquinas do hospital. Barulhos sutis que funcionam como criadores de tensão.

O ator Emílio Dantas faz também uma relação com a contemporaneidade. Ele é o assessor do político e principal responsável por transmitir as notícias. Com isso, ele brinca com o fenômeno das fake news e com a velocidade da informação. Talvez, nos dias de hoje, os segredos da família não teriam sido acobertados como foram na época.

Os atores também se entregaram ao script. “Deixei a minha alma falar pelo Tancredo”, comenta Othon ao ser questionado sobre sua inspiração para criar o personagem. Ele ainda comenta sobre a união do elenco para a realização da obra e cita Fernando Pessoa: “Somos todos anjos de uma asa só, precisamos abraçar o outro para poder voar”.

O filme estará em cartaz a partir do dia 13 de setembro. Confira o trailer:

por Carolina Fioratti
carolinafioratti@usp.br

 

 

 

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