O papel humanitário do Cinema e a conquista dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Você com certeza já ouviu falar da Organização das Nações Unidas (ONU), mas talvez não saiba que parte de seu papel é determinar quais são os maiores problemas enfrentados pela humanidade no momento e apontar caminhos para a superação desses males. Visando cumprir com essa responsabilidade, foram traçados, em 2015, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que buscam dar fim à realidades como a fome, a escassez de fontes energéticas sustentáveis e a desigualdade de gênero, e deveriam ser alcançados em escala global até 2030.

Pode ser difícil visualizar como o cinema seria capaz de impactar problemas tão grandiosos, mas, segundo Jennifer Nedbalsky, Diretora Associada do Human Rights Watch Film Festival, filmes com a temática dos direitos humanos, como os exibidos no Festival, abrem caminhos de diálogo e levam o público a exercitar sua empatia, o que pode acarretar em outras ações, como o apoio de petições ou o levantamento de fundos para a causa envolvida. Dessa forma, o cinema abre caminho para a conscientização e o engajamento do público, essenciais no processo de conquista dos ODS.

Um tema que ganhou muita atenção nos últimos anos e, por isso, está presente em peso tanto nos ODS quanto na produção cinematográfica atual, foi a questão ambiental. A preocupação com sustentabilidade e conservação dos recursos naturais só começou a figurar nos discursos políticos internacionais entre as décadas de 1960 e 1970, mas a compreensão popular sobre quais são, de fato, os problemas relacionados ao meio ambiente é bem mais recente, e deve muito à produção de conteúdos alertando e denunciando didaticamente os riscos ambientais. Um bom exemplo do papel educativo que o cinema assumiu dentro desse assunto é o documentário Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth, 2006), que retrata as palestras realizadas por Al Gore, ex-candidato à presidência dos EUA, sobre o aquecimento global e suas prováveis consequências. Muito atual mesmo depois de mais de dez anos, o longa foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, chegando a ganhar o Oscar de melhor documentário de longa-metragem e a ser exibido em instituições de ensino ao redor do mundo. Seu maior impacto talvez possa ser percebido, entretanto, em uma pesquisa de 2007 realizada pela Nielsen Company em conjunto com a Universidade de Oxford: 89% dos entrevistados que haviam visto o filme afirmaram sentirem-se mais informados em relação ao problema do aquecimento global por conta do documentário e 74% afirmaram terem mudado determinados hábitos após assistirem ao longa. Fica evidente neste exemplo o quanto determinados filmes podem elucidar e mobilizar seu público, principalmente quando em relação a assuntos que podem ser considerados de difícil compreensão e envolvem muito conhecimento de uma determinada área, como é o caso de grande parte dos problemas ambientais.

Outro aspecto muito presente nos ODS são as questões de ordem econômica, passando por tópicos como pobreza, acessibilidade de tecnologias sustentáveis e crescimento econômico. A maneira como a ONU lida com essas questões, em especial com a pobreza, entretanto, é bastante criticada por certos grupos ativistas: uma das mais sensatas objeções vem contra o sistema de auxílio a países em desenvolvimento perpetuado desde o final da Segunda Guerra Mundial e é explicado em detalhes no documentário Poverty, Inc. (Poverty, Inc., 2014) que contrapõe o atual modelo, baseado nas doações, com um considerado mais adequado, baseado na tentativa de estimular o crescimento econômico das comunidades que se deseje ajudar. Muito explicativo e recheado de exemplos práticos e declarações comoventes, Poverty, Inc. alerta para o fato de que nem sempre o caminho escolhido pela ONU para alcançar os ODS tem as melhores consequências e, ocasionalmente, é necessário rever o plano de ação a ser adotado para que este não acabe por agravar a situação que tenta-se combater.

Uma última faceta dos ODS está nas questões sociais e, aqui, o papel dos longa-metragens é indiscutivelmente muito forte. Um item que se destaca entre os Objetivos mais socialmente orientados é o de número 5, que busca a igualdade de gênero. Muitos filmes com essa temática têm surgido nos últimos anos, mas um, especialmente sensível e historicamente importante é The Apology (The Apology, 2016), da diretora Tiffany Hsiung, que retrata a vida de três senhoras de idade sequestradas e sexualmente escravizadas pelo Exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial, dando uma perspectiva temporal à desigualdade de gênero. Uma obra como esta traz a importância de não somente resolver estes problemas, mas também reconhecer o impacto que têm e tiveram durante muito tempo na vida de milhares de pessoas.

Todas estas obras carregam lições em si um grande valor humanitário que pode ser direcionado para alcançar os ODS ao conscientizar e engajar as audiências. A partir delas, cabe a nós, público e crítica, nos mobilizarmos para criar um mundo melhor.  

por Rebecca Gompertz
rebecca.gompertz@usp.br

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