Festival Varilux 2017 – O Reencontro

Este filme faz parte do 8º Festival Varilux de Cinema Francês. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Delicadeza é o que rege a mais nova produção do diretor Martin Provost. O Reencontro (Sage Femme, 2017) foi exibido no 67º Festival de Cinema de Berlim e está entre os vários filmes selecionados para o Festival Varilux de Cinema Francês deste ano.

O Reencontro 1

Imagem: reprodução

Sage Femme, título original destinado ao longa, traz consigo uma tradução muito mais cabível do que o nome que lhe foi atribuído no Brasil.  No francês, o termo pode significar tanto “parteira” como “sábia mulher”, e faz referência a Claire Breton (Catherine Frot), uma obstetriz quarentona que ocupa o posto de protagonista do filme. Recatada, focada e responsável, Claire é uma mulher que não foge da rotina, alimenta-se de forma saudável e não fuma nem bebe. Ela vive intensamente sua profissão, passando dias e noites dentro do hospital onde trabalha e convivendo pouquíssimo com seu já crescido filho, o qual criara sozinha. Sua rigorosa personalidade a transformou em uma excelente profissional, mas também em uma pessoa um tanto solitária na vida.

O cotidiano pacato de Claire sofre uma grande reviravolta quando Béatrice Sobolévski (Catherine Deneuve) entra em cena. Esta é uma senhora que beira os 70 anos que havia sido amante do falecido pai da parteira. Há mais de 30 anos ela o abandonara, ocasionando um estrago irreparável na trajetória dele e da família. Após décadas ausente e com a saúde gravemente debilitada, Béatrice busca Claire como companhia para a sua vida que quase finda. A idade e a doença avançadas, por sua vez, não privam Béatrice de ser uma pessoa extravagante, vaidosa, inconveniente e sem papas na língua. Ela leva uma vida desregrada em meio a jogatinas, álcool, cigarro e má alimentação, apesar das contra indicações de seu médico. Porém, entre tantas desavenças, há algo nela que ainda se equipara à realidade de Claire: as duas vivem em meio a uma igual solidão.

O Reencontro 2

Imagem: reprodução

O roteiro não engana e nem foge da obviedade: Claire e Béatrice não se dão bem de início e é clara a futura conciliação entre as duas; não deve haver surpresa alguma diante deste fato. Mas isso não chega a ser um transtorno para o espectador, afinal, a importância central não está no que ocorre, mas em como tal ocorrido é retratado. E, quanto a isso, Provost trabalhou de forma impecável. São cenas e cenas de uma simplicidade bela, verdadeira, de arrancar sorrisos do canto da boca de quem vê. Mulheres tão diferentes por fora e com ligações interiores tão fortes, elas acabam se unindo por uma mesma saudade do passado, por eventuais momentos de alegria e, também, de tristeza. Enquanto Béatrice ganha refúgio contra o pavor da morte iminente, Claire ganha aprendizado, desprendimento e a libertação de uma personalidade que há anos a prendia dentro de si.

A história contada é ainda mais enriquecida quando pequenos universos entremeiam e interrompem a linearidade da narrativa central. Os partos executados pela protagonista são inúmeros, e cada um deles contribui com a sua preciosidade própria. Prezando por um maior realismo, essas cenas foram gravadas na Bélgica, pois na França só é permitida a aparição de bebês acima de três meses de idade nos filmes. Cada nascimento é mágico, é sentimental, é arrepiante. São momentos pontuais e únicos, que estão lá colocados sem que haja necessidade de um porquê. A vida e a morte travam disputa por espaço a todo tempo: quando mais alguém nasce e decola para o mundo pelas mãos da talentosa parteira, mais um pouco da vida de Béatrice se vai. Claire sabe disso, e aprende a conviver com esses extremos que a rodeiam. Em certo momento, por exemplo, ela vem a afirmar que o corpo de um morto é como se fosse um objeto. Porém, quando encontra-se diante de um, não age como se concordasse com essa afirmação. Ela tenta esconder, mas possui fraquezas e sentimentos muito humanos.

O Reencontro 3

Imagem: reprodução

Com uma pitada de um humor que não extravasa, O Reencontro retrata a vida como de fato é: seja dentro dos hospitais, pelo subúrbio de Paris ou às margens do rio Sena; os altos e baixos ocorrem, se misturam e se confundem; as pessoas se desentendem, se entendem de novo, se amam. E é de forma tocante e muito bem executada que Martin Provost dedica essa homenagem à parteira que, tempos antes, salvou a sua própria vida.

O filme estará em cartaz em 55 cidades do Brasil até o dia 21 de junho. Confira o trailer oficial:

por Laura Teixeira Molinari
lauratmolinari@gmail.com

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