O Reino da Beleza: A prova de que estética não é tudo

Mesmo diretores aclamados tem seus pontos baixos. E O Reino da Beleza (Le Règne de la Beauté, 2014) é um desses, fora do padrão de Denys Arcand. Tendo inclusive ganhado um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por As Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares, 2003), sendo dos mais aclamados diretores quebequenses da história recente, essa película do cineasta carece de seus traços mais autorais, diferindo dos enredos notadamente políticos e repletos de críticas sociais que lhe renderam fama.

Por meio de uma digressão, ao reencontrar uma senhora durante uma premiação à sua obra como arquiteto, Luc Sauvageau (um envelhecido Éric Bruneau) revisita sua vida de alguns anos antes, quando vivia em uma moderna casa próximo a Quebec, com sua esposa Stéphanie (Mélanie Thierry). A começar pela caracterização dos atores mais velhos, o filme já passa artificialidade. Bruneau recebe uma maquiagem que pouco agrega em anos à sua aparência, com uma escassez de marcas que talvez ajudassem nisso. Já a mulher que o aborda, Lindsay (Melanie Merkovsky), reúne todos os clichês de uma figura madura e refinada: as mechas brancas, óculos conservadores e um penteado austero, que resultam em um visual semelhante ao de uma fantasia.  

Um romance sustentado por esses dois personagens em sua vida pregressa seria central ao desenvolvimento do filme, segundo a sinopse. Mas se a expectativa é de um relacionamento tórrido e conturbado, a realidade é um caso extraconjugal bastante mal desenvolvido, e em certos momentos coadjuvante da outra face da vida dupla de Luc: um convívio conturbado com sua esposa. O arquiteto parece bastante interessado em Lindsay já a primeira vista. Secretária de um escritório de Toronto, o convidando a fazer parte de algumas bancas julgadoras de projetos, a moça aproveita para corresponder ao flerte. Só que a construção desse sentimento é esvaziada de elementos que captem a atenção do espectador e tornem o relacionamento interessante. A personagem de Merkovsky beira a infantilidade, agindo de maneira ingênua e bastante descabida levando em conta o quão recente era o envolvimento amoroso. Em um filme direcionado a um público mais maduro, a personagem parece enfadonha e pouco convincente, ainda mais levando em conta que não existe sensualidade ou profundidade nas cenas entre eles, elementos básicos de um filme  que propõe um romance a um público mais maduro.

Imagem: reprodução

Já Bruneau entrega uma performance inexpressiva, combinando com a persona do protagonista. Mesmo em passagens mais dramáticas, o filme carece de uma visão envolvente, que suscite empatia. A condução do roteiro parece criar um distanciamento entre as emoções vividas e as que são retratadas. E esse talvez seja o maior demérito de Arcand na criação da história. A sutileza e subjetividade pretendidas tornaram o filme oco, beirando a futilidade. O arco mais interessante nesse contexto é o de Stéphanie, esposa de Luc. Sua saúde mental fragilizada ofereceu à Mélanie Thierry boas oportunidades de mostrar seu talento e fez com que o filme não fosse apenas sobre um homem sedutor, ou sobre uma mulher como vítima em um casamento fracassado. O Reino Da Beleza é sobre diversos fracassos individuais que poderiam ter sido melhor explorados.

Em vez de aprofundá-los, o filme optou por incluir vários enredos secundários e muitas conversas a respeito de arquitetura. Em uma análise de conteúdo, esses diálogos parecem ter sido feitos com o único objetivo de tornar o roteiro mais complexo, sem levar em conta que complexidade não é sinônimo de utilidade, com a maior parte deles sendo descartáveis como elemento narrativo, não acrescentando nada à história central do filme – que, aliás, pode ficar um pouco nebulosa em meio à tantos conflitos que são inseridos.

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A arquitetura, como dito no filme, é considerada uma forma de analisar a história dos povos. Hoje, muitos projetos arquitetônicos são plásticos mas genéricos, não são reflexo de uma cultura em particular. Os atores de O Reino da Beleza poderiam ser outros. Seu cenário, qualquer país. Isso porque, assim como parte da arquitetura contemporânea, o filme é lindo porém vazio de identidade. Com uma direção de fotografia merecedora de elogios, repleta de tomadas estonteantes das paisagens canadenses e o uso de efeitos agradáveis de um ponto de vista estético, a ida ao cinema poderia valer a pena. Mas, em um reino de uma beleza que carece de substância, a monarquia não cativa por muito tempo.

O filme chega aos cinemas no dia 3 de agosto

Assista ao trailer legendado:

Por Pietra Carvalho
pietra.carpin@hotmail.com

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