O terror tradicional, porém incompleto de A Noiva

A Noiva (Невеста, 2017), filme russo de Svyatoslav Podgayevskiy, é um típico filme de terror e suspense que se passa em uma casa supostamente assombrada, na qual a protagonista vê-se em um apuro aparentemente sem fim do qual precisa escapar. Ambientado na Rússia, o filme tem um roteiro que apresenta uma história muito boa a ser explorada — que é baseada em fatos reais — mas peca em diversos aspectos.

O filme inicia-se na Rússia do século XIX. Nesta época, começou a ser comum a prática de tirar fotografias dos entes queridos depois de mortos, com olhos desenhados em suas pálpebras, como forma de recordação dessas pessoas. Na realidade, isso já foi prática na Era Vitoriana Britânica (1837 – 1901). O daguerreótipo, um dos primeiros equipamentos fotográficos da História, surgiu em 1839 e facilitou deveras essas capturas. No entanto, para o fotógrafo Barin (Igor Khripunov), a fotografia foi muito além da simples recordação. Ela surgiu como meio sobrenatural e científico de tentar driblar a morte, e isto acarretou terríveis consequências.

Barin, interpretado por Igor Khripunov, desenvolve uma relação sobrenatural com a fotografia

A trama que envolve a trajetória da personagem principal, Nastya (Victoria Agalakova), começa no momento em que ela e seu noivo Ivan (Vyacheslav Chepurchenko) decidem visitar a família do rapaz, a fim de conhecê-la e realizar a cerimônia religiosa do casamento  — a visita  se passa na histórica vila de Stroganov Estate, próxima a Moscou. A princípio, ele mostra-se relutante em levar a noiva, mas mesmo assim o faz. Uma vez na casa da família de seu noivo, Nastya começa a passar por uma série de acontecimentos inusitados, sobrenaturais e assustadores. Ela percebe que aquela não é uma família comum e começa a desconfiar do que está se passando — porém, age com formalidade excessiva com os membros da família, e, no início, com uma naturalidade que parece excluir todos aqueles eventos sobrenaturais pelos quais passou.

A partir da constatação de que há algo errado envolvendo a família de seu noivo e a terrível tradição do século XIX, Nastya inicia uma jornada praticamente totalmente solitária dentro dessa casa a fim descobrir o que está por trás de tudo que ela está passando e, mais do que isso, de fugir daquele inferno em que se encontra. Sua fuga solitária num lar de estranhos relembra o filme Corra! (Get Out, 2017), no qual o protagonista Chris (Daniel Kaluuya) também descobre terríveis segredos relacionados à família de sua parceira e inicia uma fuga incessante.

Uma das fotografias póstumas

Ao longo dessa trajetória, surgem uma série de acontecimentos que nos fazem sair da sala de cinema com mais perguntas do que respostas — o que, a princípio, faz o espectador ter a impressão de que haverá uma continuação. O filme apresenta uma série de situações um tanto quanto ilógicas, e saídas aparentemente óbvias para a resolução do problema — porém, convenhamos que é muito comum nos estressarmos com personagens em filmes de terror que agem das maneiras mais estúpidas que poderíamos esperar.

A atuação de Victoria Agalakova também levanta algumas perguntas. Ela mostra-se, frequentemente, muito menos assustada do que qualquer pessoa ficaria em situações sobrenaturais extremamente sinistras. Seria tal posicionamento da personagem algo que deveria ter sido mais trabalhado, ou ela já estava tão em choque a ponto de simplesmente não conseguir ter nenhum tipo de reação?

Nastya e sua cunhada Liza (Aleksandra Rebenok) nas preparações para o casamento

Consideradas tais questões, no entanto, há um ponto que deve ser ressaltado que chama a atenção na produção. Em se tratando de assustar o espectador com uma série de jump scares e com uma produção muito trabalhada na caracterização e na movimentação das personagens sobrenaturais, o filme é muito eficiente. Além disso, apresenta uma trilha sonora que é envolvente e adequada às cenas.

A Noiva é um filme que pode cumprir o papel de ser terror em essência, já que faz uso dos clichês do gênero e pode conseguir assustar de verdade uma boa parte de seu público. Mas, ao mesmo tempo, é um longa que apresenta uma história muito interessante e curiosa que poderia ter sido melhor abordada.

por Thais Navarro
thaisnavarro@usp.br

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