O Touro Ferdinando – O fabuloso encontro da comédia com a fofura

Parando para pensar, você consegue encontrar fofura em um touro? Sempre fortes e imponentes, eles amedrontam muitos com sua pose de durão. Mas nunca é tarde para rever esses conceitos. Em sua nova animação, a Blue Sky Productions mostrou que sim, touros podem ser fofos! O brilhante resultado vemos em O Touro Ferdinando (Ferdinand, 2017), um filme emocionante, extremamente divertido e com um protagonista que não é só grande no tamanho, mas também no coração.

Baseado no livro infantil de mesmo nome, de Munro Leaf e Robert Lawson, o filme conta a história do touro Ferdinando, que foge ao padrão imposto à sua espécie pois não gosta de brigas. A história se passa na Espanha, um país que tem as touradas até como uma tradição. A Casa del Toro, onde Ferdinando é criado, treina touros para que estes participem das competições quando mais velhos. Assim, desde filhotes, os touros observam seus pais duelando entre si para que o melhor seja escolhido e enviado à arena. Seguindo o exemplo dos pais, eles vivem sempre brigando entre si, já na disputa para ver quem é o mais forte. Mas Ferdinando é diferente: ele não gosta de brigar e prefere que batam nele a ter que lutar com alguém.

Após alguns contratempos em sua vida, o tourinho resolve fugir da Casa del Toro ainda pequeno, pois não quer ser obrigado a brigar e crescer nesse ambiente com o único objetivo de ser escolhido pelo Matador – dono do local. E após uma cansativa fuga, ele vai parar na casa de Nina. A jovem, que mora com seu pai no campo, logo desenvolve um enorme afeto pelo animal. Consequentemente, Ferdinando cresce sendo muito bem tratado por sua nova família, até que o rumo da sua vida muda outra vez. Agora, muito maior e mais forte, ele é obrigado a retornar para a Casa del Toro e lidar novamente com seus problemas do passado.

Graças ao amor e carinho de Nina, Ferdinando cresce até se tornar um enorme touro. (Foto: Divulgação)

O filme traz uma narrativa forte e densa, porém, ainda assim, consegue tratar desses temas pesados de forma leve. O enredo flui muito bem, sendo extremamente fácil deixar-se levar pela história e viajar junto com a narrativa. Logo a princípio desenvolvemos uma compaixão pelo protagonista, sentimento que permanece até o final do filme. Somados os fatores, o que resulta é um belo produto final, tanto visualmente, com suas lindas imagens e cenários, quanto na forma em que o filme é conduzido, sendo um legítimo entretenimento.

Seu roteiro traz muitas palavras e expressões em espanhol, dando ainda mais peso a representação da Espanha, mostrando ao mundo as diversas faces de uma rica cultura que tem muito a oferecer. Tal como temos visto na música – com o estrondoso sucesso mundial de Despacito e a ascensão do reggaeton – pelo visto, os grandes estúdios de animações tem se mostrado muito dispostos a falar outra língua e levar o público a outras civilizações, como a de países hispanohablantes. Além de O Touro Ferdinando, que já mergulha massivamente na cultura espanhola mostrando seus vilarejos, tradicionais festividades e costumes, outra animação recente também apresenta isso. Viva: A vida é uma festa (Coco, 2017), da Disney Pixar, traz um enredo baseado na tradicional festividade mexicana do Dia de los muertos e é uma das apostas para o Oscar, após ter levado um Globo de Ouro de melhor animação.

A bela representação dos vilarejos, da paisagem e da cultura espanhola são um dos fatores que agradam na animação. (Foto: Divulgação)

Também, é impossível não comentar sobre a sonografia e a trilha sonora do filme, que dão um show a parte. Não só a música Home, de Nick Jonas, mas o longa como um todo se mostrou cheio de canções muito adequadas, que dão um upgrade em várias cenas (como resistir quando um filme toca a clássica Macarena?). Um excelente trabalho também foi feito com os efeitos sonoros, que foram essenciais para algumas sacadas de humor no filme.

Por falar em humor, é desta forma que O Touro Ferdinando consegue cativar o público. São tantos os momentos cômicos que é impossível listar. Muito bem dosado na sua carga sentimental, é como se o filme passasse por diversos gêneros muito bem executados. Ação e aventura marcam sua forte presença, contudo, dão espaço também ao drama, que emociona e sensibiliza o espectador. Mas é na comédia que a animação se destaca, proporcionando horas de muita diversão!

Uma cena especificamente consegue unir perfeitamente os dois tópicos mencionados acima, e torna bem evidentes a musicalidade do filme e seu tom bem humorado. Nela, acontece um duelo de dança entre os touros x cavalos. Dá pra imaginar algo assim? Aliás, essa cena é também uma das melhores do filme, pois não é apenas muito bonita visualmente, mas, também, extremamente engraçada.

Outro acerto do longa é a construção dos personagens. São muitas as vezes em que eles roubam a cena e são elemento fundamental para que o filme seja tão bom. Com destaque para a cabra Lupe, sempre atrás de Ferdinando após seu retorno. A cabrinha é muito esperta e é uma das personagens mais legais, senão, a melhor, com sua personalidade meio doidinha. É preciso falar também do astuto trio de ouriços Una, Dos, Quatro e dos belíssimos – porém, antipáticos – cavalos da Casa del Toro. Cada um a sua maneira tem uma forma de representar vários alívios cômicos à história, e é por isso que são personagens tão interessantes, que nos deixam com o gostinho de “quero mais”.

Os coadjuvantes do longa fazem toda a diferença e são protagonistas no quesito comédia. (Foto: Divulgação)

Uma das questões mais importantes que o longa promove é um convite à reflexão sobre as touradas. No filme, os animais crescem sonhando com esse dia, de ser um touro vitorioso, quando não sabem que, na realidade, uma tourada é o espetáculo de sua própria morte perante uma gigantesca plateia. A animação mostra que não precisa ser assim, os touros devem apenas ser livres para se tornarem o que quiserem. Vemos também que eles tem o direito de ser amados, mansos e carinhosos, sem aquela ideia de sua brutalidade. Levando mais a fundo essa discussão do cuidado com os animais, podemos chegar até mesmo a uma sutil mensagem no filme sobre o consumo de carne animal.

Tratando de questões importantes com um tom muito adequado e equilibrado, e acertando na dosagem emocional, o novo filme do renomado diretor brasileiro Carlos Saldanha – Rio (2015), A Era do Gelo 2 (Ice Age: The Meltdown, 2006) – mostrou que veio para ficar. Além de emocionar a todos com sua bela história, a produção têm total êxito ao fazer as pessoas rirem. São inúmeros os momentos divertidos em que cada detalhezinho é milimetricamente pensado para que seja engraçado, com muitas cenas de apenas um segundo provocando muitos risos. O Touro Ferdinando é, sem dúvida, uma das animações mais legais de todos os tempos. Daquelas que você guarda no coração para sempre e é grato por sua existência. Uma escolha certíssima para a família toda e sem dúvida alguma, digna de sua indicação ao Globo de Ouro – quem sabe até mesmo um Oscar?

O Touro Ferdinando estreia 11 de janeiro, nos cinemas. Confira o trailer:

por Gabriel Bastos
gabriel.bastos@usp.br

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