Onde nenhum homem jamais esteve

Devo admitir que fui quase emocionada assistir ao novo filme da franquia “Star Trek”, Além da Escuridão (Star Trek Into Darkness, 2013). Criada por Gene Roddenberry, a saga tem um espaço especial garantido nas prateleiras daqueles que, como eu, são amantes de ficção cientifica, desde 1966 quando surgiu como série de TV (The Original Series). Ganhando agora sua décima segunda edição cinematográfica, com a direção de JJ Abrams, Kirk, Spock e a USS Enterprise estão de volta e, com o poder do 3D somado ao Imax, você vai entrar de cabeça no universo trekkie.

De primeira, é bom avisar que os fãs mais conservadores talvez tenham dificuldade em se identificar com o filme. O mundo cuja franquia antiga se baseava mudou, logo o foco também. Com muito mais ação do que a série original, ganhou um caráter mais hollywoodiano – porém traz de volta um vilão o  qual nenhum fã poderá esconder a excitação em rever. Ao mesmo tempo, aqueles que desconhecem a saga não devem temer ficar perdidos – o filme exige pouco, ou quase nenhum, conhecimento prévio para ser compreendido. Talvez não percebam certos detalhes ou referências, porém nada que altere o curso da história.

Descumprindo ordens da Frota Estrelar, o capitão da nave Enterprise, Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto) e tripulação, tentam alterar o destino de uma civilização prestes a ser extinta Assim é a primeira cena, que coloca as características dos personagens citados em foco, sendo essencial para o desenrolar da trama. Spock e seu comportamento quase obsessivo em seguir ordens e agir de acordo com a lógica, enquanto no extremo oposto há Kirk, passando por cima de qualquer regra se seu instinto assim o diz – algo que acontece quase o tempo inteiro. Tendo feito essa ressalva na importância da cena nesse sentido, devo dizer que é, porém, bastante dispensável o fato de colocar em perigo de morte um personagem qual todos sabemos que não vai morrer na primeira cena.

Logo após é feito o retorno da nave à Frota Estrelar, acompanhado da notícia de um atentado terrorista na Terra, sendo seguido de um ataque diretamente à Frota, pelo misterioso John Harrison. As consequências dessa afronta desperta em Kirk e no Almirante Marcus (Peter Weller) um desejo intenso de vingança: a partir daí, as reviravoltas do filme não têm fim. Quando um problema parece estar prestes a ser resolvido, um novo fator altera totalmente o curso da trama, fazendo os personagens tomarem decisões perigosas, colocando em risco a vida de toda a tripulação. Vale a pena dizer que, em meio a tudo isso, temos uma participação especial bastante agradável aos fãs, mas não vou estragar a surpresa.

Se a primeira cena possui fatores dispensáveis, a cena protagonizada pela deslumbrante Alice Eve, novo membro da tripulação da Enterprise, seminua gerou até mesmo pedido de desculpa aos fãs por parte do roteirista Damon Lindelof. A própria personagem de Eve, Carol, é bastante deslocada da trama, oferecendo como acréscimo para a história nada além de um rostinho bonito.

Apesar do ritmo mais acelerado, uma marca fundamental da franquia se encontra bastante presente: a dinâmica entre os personagens, com cenas e falas que deixam claro a noção de tripulação como família de um capitão. Figuras clássicas como Uhura, McCoy, Sulu, Chekov e Scotty também não podiam deixar de aparecer. Apesar de serem interpretados por atores diferentes da série original, a relação entre personagens se mantém de forma a cativar não somente fãs já familiarizados, mas qualquer espectador cinéfilo.

Um fator notável e destacável nessa resenha é a atuação fantástica de Benedict Cumberbatch, o misterioso John Harrison, o qual acabamos por descobrir que é o já conhecido vilão Khan. O superhumano melhorado geneticamente possui momentos no qual conflitam nenhuma expressão emocional, com o exacerbamento da mesma. Cumberbatch conseguiu manter a força do personagem que, enquanto interpretado pelo ator Ricardo Montalbán no original (1966, 1982), foi votado como um dos maiores vilões de todos os tempos pela Online Film Critics Society.

Em vários aspectos melhor que o anterior, Star Trek (2009) também dirigido por J.J. Abrams, o filme tende a agradar aos fãs abertos a certas alterações, principalmente quanto a mistura de acontecimentos de diferentes ordens cronológicas. Há também ganchos deixados na trama, principalmente em seu final, tornando impossível não especular um próximo filme. E peço perdão pelo clichê, mas não podia encerrar a resenha de forma diferente: vida longa e próspera a Star Trek (e que venha, sim, um terceiro filme).

Por Ana Luísa Abdalla
anita.abdalla.usp@gmail.com

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