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Os desconhecidos originais e os famosos remakes
CINÉFILOS
18 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

Remakes

[Lígia de Castro/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

Podem ser de peças de teatro, telenovelas, composições musicais, de filmes. Remakes são na verdade recriações de antigas (ou mesmo recentes) produções artísticas. Geralmente, no entanto, a palavra inglesa é popularmente associada apenas a refilmagens, muito pelo sucesso que essas alcançaram e ainda alcançam mundialmente – sucesso esse tão grande que muitos remakes se tornaram mais famosos do que suas primeiras versões.

“Onze Homens e um Segredo” (1960 – 2001), “A Lagoa Azul” (1949 – 1980), “Bravura Indômita” (1969 – 2010), “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (1971 – 2005), “It: a Coisa” (1990 – 2017) são alguns exemplos. Refilmagens não são, no entanto, cópias perfeitas de seus originais – nem pretendem ser. Não só os atores, a trilha sonora e a ambientação são diferentes, como o roteiro pode trazer diversos elementos novos. Mas todos os remakes trazem consigo a mesma essência dos filmes que os inspiraram.

O Grande Amor de Nossas Vidas (1961) – Operação Cupido (1998)

Nasceu em 1961 pelas mãos do diretor David Swift nos estúdios Walt Disney. Baseado no livro “Lottie and Lisa”, de Erich Kästner, The Parent Trap traz a história de duas irmãs gêmeas (interpretadas por Hayley Mills) que foram separadas quando pequenas por causa do divórcio dos pais. A mãe (Maureen O’Hara) foi morar em Boston, o pai (Brian Keith) na Califórnia. Nunca sabendo da existência uma da outra, elas ficam surpresas quando se encontram em um acampamento de verão e notam suas semelhanças. Surge então a ideia: se elas trocassem de lugar, teriam a chance de conhecer melhor seus pais e fazê-los ficar juntos novamente.

Remakes

[Buena Vista]

Tal história ganhou três continuações: The Parent Trap II (1986), The Parent Trap III (1989), e The Parent Trap IV: Hawaiian Honeymoon (1989). O seu maior sucesso, contudo, veio quando a Disney fez uma refilmagem do primeiro filme, 37 anos depois (1998), com Lindsay Lohan como protagonista – refilmagem também chamada The Parent Trap.

Esse remake é um exemplo de um roteiro que se manteve muito parecido ao seu original, não só pela sequência dos acontecimentos e pela construção de vários dos personagens, mas até mesmo pelas falas. Desde as primeiras cenas, a semelhança é notável: está no cenário do acampamento, em uma das meninas chegando em um carro com o mordomo, nas conversas que se tem entre cada um dos personagens. O início, o desenvolvimento e o desfecho se constroem para serem muito parecidos aos originais.

Remakes

[Buena Vista]

As diferenças residem, principalmente, em um clima mais amigável que se tentou trazer ao segundo filme. Sharon, que vive em Boston junto com a mãe na primeira versão, tem que conviver com uma avó que a reprime o tempo inteiro. Quando os pais enfim se encontram, na casa do pai na Califórnia, ambos não param de brigar e se provocar. No remake, a avó de Annie sequer está presente, e, quando há o encontro dos pais, eles se tratam com muito respeito. Além disso, existem muito mais cenas de alívio cômico na segunda versão, além de uma conexão maior entre os personagens.

Com trilhas sonoras igualmente lindas, ambos os filmes deixaram sua marca dentro do universo da Disney. As ligeiras mudanças entre os dois (que estão na atuação, na qualidade da imagem, na música, nos personagens), no entanto, trouxeram uma luz maior à refilmagem – que se tornou um clássico infantil.

Dança Comigo? (1996) – Dança Comigo? (2004)

Em 1996, um filme chamado “Shall we ダンス?” foi lançado no Japão, dirigido por Masayuki Suo e produzido por Yasuyoshi Tokuma, Yasushi Urushido, Shigeru Ono, e Kazuhiro Igarashi. É feito como um retrato da sociedade japonesa, seus valores e censuras. Um homem viaja de metrô de seu trabalho à sua casa todos os dias. Bem-sucedido, ele não gosta do emprego e não tem uma relação próxima com a mulher (Hideko Hara) nem com a filha (Ayano Nakamura). Um dia, olhando pelo vidro do metrô, enxerga uma escola de dança em que há uma mulher (Tamiyo Kusakari) olhando triste pela janela. Volta os olhos para ela todas as vezes que passa lá a partir de então. Com uma ponta de coragem, certa vez, decide ir até a escola para entrar em contato com aquela visão. É assim que esse homem comum descobre os prazeres da dança e da vida e tenta escondê-lo daqueles que conhece – por medo do julgamento e da censura deles.

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[Toho]

Uma versão nova (também chamada Shall We Dance?) foi gravada em 2004. Com poucos anos de diferença, as duas possuem, no entanto, muitas mudanças. Não nos acontecimentos e nas falas, mas no contexto em que o filme se encontra, e no que ele pretende trazer ao público. Enquanto o primeiro é mais reflexivo, o segundo é mais entretenimento.

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[Toho/Miramax]

A história parece a mesma, mas o plano de fundo é muito diferente. Um homem estadunidense (Richard Gere) viaja de metrô de seu trabalho à sua casa todos os dias. Ele ama sua mulher (Susan Sarandon), seus filhos, e é feliz com o seu emprego. Quando está voltando para casa, no entanto, sempre sente que alguma coisa está faltando em sua vida. Vê uma mulher (Jennifer Lopez) olhando triste pela janela de uma escola de dança. Vai até lá, também escondido, e conhece dançarinos muito carismáticos (amadores e profissionais) dos quais vira amigo. Descobre então aquilo que estava faltando: uma forma diferente de se expressar e amizades mais próximas.

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[Miramax]

A dança de que os dois filmes falam é o que traz os personagens de volta à vida, mas ela é vista de formas diferentes pelas duas sociedades retratadas. No início do filme japonês, há uma explicação sobre o quanto os japoneses aceitam muito pouco demonstrações públicas de afeto, e como, por causa disso, dançar com outro ou mesmo com o próprio parceiro é um ato vergonhoso. É por isso que, somente por estar muito frustrado, Shohei Sugiyama (Kōji Yakusho) decide entrar naquela escola e escondê-lo dos outros – de outra forma, seria visto como um pecador por quem estava à sua volta (inclusive sua mulher). Na versão americana, não é um ato de rebeldia nem fruto de tanta desesperança, ir até a escola é uma vontade de se descobrir na dança, e também de conhecer a mulher que o homem via olhar pela janela.

Com cenas parecidas, ambos os filmes fizeram sucesso – trazendo questões diferentes.

Perfume de Mulher (1974) – Perfume de Mulher (1992)

O nome é Fausto, seus modos brutais e impulsivos. Sofre de uma cegueira causada no tempo em que fora capitão do exército italiano – cegueira que o afastara de seu posto militar e o obrigara a sentar em casa amargurado. O jovem Giovanni (Alessandro Momo), cadete do exército, é enviado então para acompanhá-lo em uma viagem de Turim até Nápoles, onde encontraria um tenente cego e uma mulher que o amava desde muitos anos atrás. Apaixonado por mulheres, reconhece perfumes femininos por todo o lado durante o percurso, motivo que leva o filme a ter esse nome. O filme italiano, “Profumo di Donna”, lançado em 1974 e dirigido por Dino Risi, foi indicado ao Oscar pelas categorias de Filme Estrangeiro e de Roteiro Adaptado, e foi ganhador do Festival de Cannes pela atuação de Vittorio Gassman como Fausto.

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[20th Century Fox]

Uma história muito diferente se desenhou na refilmagem feita em 1992. O nome agora era Frank (Al Pacino), também irascível e grosseiro, e seu acompanhante era Charles (Chris O’Donnell). A vida dos dois vai mudando aos poucos conforme Charles acompanha Frank (inesperadamente) em uma viagem até Nova Iorque. Deparam-se os dois com questões sobre a vida e a morte, e constroem juntos um laço muito forte. Dirigido por Martin Brest e roteirizado por Bo Goldman, Scent of a Woman é uma versão tão diferente quanto bonita do filme italiano.

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[Universal]

Enquanto o primeiro é a jornada de um homem que sente medo e não consegue admiti-lo, o segundo é a jornada tanto de um homem quanto de um adolescente, ambos perdidos, que procuram solucionar suas angústias. As questões são outras, e os afetos também. Na primeira versão, Fausto viaja com uma arma e uma foto dentro da mala: quer ir para Nápoles por causa de Sara (Agostina Belli), uma mulher que o ama, e porque planeja se matar já que não admite ser alguém dependente (por causa de seus olhos cegos).

Na segunda versão, Frank quer ir a Nova Iorque para ter seus últimos momentos de vida cheios de seus prazeres favoritos, também planejando se matar depois disso. Não vê saída à desilusão que tem sobre a vida. Charles, com toda a sua inexperiência, mostra a ele alguma luz. Diferente do filme italiano, a interação entre os dois é muito forte: sabe-se muito mais sobre a vida de Charles, sobre suas angústias e seu passado. Ambos se ajudam durante o percurso. Além disso, não há nenhuma mulher especial do passado de Frank que o leve a fazer a viagem.

Cheios de reflexões, os dois filmes são poesias diferentes. Embora ambos tenham ficado famosos, a versão estadunidense é mais reconhecida do que a italiana (talvez pelo Oscar que Al Pacino ganhou na categoria Melhor Ator, talvez simplesmente por ser americana). Com tantas diferenças, cada um traz seu próprio encanto.

Scarface (1931) – Scarface (1983)

Baseado no livro “Scarface”, de Armitage Trail, um filme de mesmo nome foi lançado pela primeira vez em 1931. Produzido por Howard Hughes e Howard Hawks, e dirigido por Hawks, a história é uma referência à vida do mafioso Al Capone, cujo apelido era Scarface. Com nomes alterados, o filme narra a ascensão de Antonio Camonte (Paul Muni) dentro da máfia americana. Começa trabalhando para o chefão Johnny Lovo (Osgood Perkins) e rapidamente torna-se ele mesmo um nome importante dentre os mafiosos. Conquista tanto poder quanto inimigos, parecendo cada vez mais perto de dominar seu império, e cada vez mais perto da própria morte.

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[United Artists]

Uma história razoavelmente parecida foi traçada no remake de 1983. Um homem que começou obedecendo à máfia e pouco tempo depois já era um de seus maiores nomes. Existem milhões de detalhes que afastam essas duas versões, no entanto – começando pela origem de Tony Montana, interpretado por Al Pacino. Ao invés de inspirado no gangster Al Capone, Tony é um dos muitos cubanos que migraram para os Estados Unidos no chamado Êxodo de Mariel. Nesse episódio real, de 1980, o presidente de Cuba Fidel Castro não só permitiu que vários cubanos pudessem se deslocar para o outro país, como também enviou muitos de seus prisioneiros para lá – sendo Tony um deles. No filme, o personagem passa desde cedo a se envolver com o tráfico para ganhar dinheiro, e sua ambição faz com que ele mate várias pessoas no caminho, tornando-se um dos chefes da região.

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[Universal]

Extremamente violentos, ambos tiveram questões com a censura e com a classificação indicativa. Ao primeiro foram adicionados um subtítulo (“The Shame of the Nation” – “A vergonha de uma nação”) e um prólogo no qual havia legendas dizendo que o filme era uma denúncia contra as ações de gangsters nos Estados Unidos. Além disso, o filme também foi proibido em várias cidades e estados do país. O segundo teve problemas com a classificação indicativa, que o enquadrou na categoria X de filmes americanos (ou seja, aqueles que só podem ser vistos por maiores de 18 ou 21 anos, dependendo do lugar).

A diferença dessa violência é que o segundo reflete mais sobre ela enquanto o primeiro apenas a usa como plano de fundo. Antonio Camonte mata muitas pessoas durante a primeira versão, para no final estar tão cheio de inimigos que sua morte é inevitável – mas, durante o desenvolvimento do filme, o personagem se mostra satisfeito com suas condições no meio da máfia (com raras exceções). Tony Montana, ao contrário, fica tão rico quanto vazio ao longo do tempo. A consciência de que o seu envolvimento com as armas e as drogas não lhe trouxe felicidade é muito explorada, sendo que em vários momentos Tony chega a se perguntar de que valeu tudo aquilo. É como se o primeiro filme, de certa forma, glorificasse um mafioso, e o outro refletisse sobre o quanto uma vida levada assim pode ser vazia ou mesmo angustiante.

Ambos estadunidenses, eles falam sobre o mesmo assunto, mas o abordam de maneiras muito diferentes.

por Lígia de Castro
ligiaadecastro@gmail.com

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