Os Farofeiros – Uma farofa, mas levemente ousada

Os Farofeiros (2018) foi produzido pela Camisa Listrada LTDA em parceria, principalmente, com a Globo Filmes. No seu direito de produção independente, o filme captou 92 mil reais de acordo com o Art. 3º-A da Lei do Audiovisual  (que NÃO é a Lei Rouanet), isentando a investidora e distribuidora estrangeira, a Fox International Productions, de até 70% do imposto de renda para a Receita. Além, dentre outros detalhes, de render uma parcela dos lucros como co-produtora, ampliando ainda mais a remessa de dinheiro expatriado. O longa é estrelado por Maurício Manfrini (o Paulinho Gogó, como exalta o cartaz) e Cacau Protásio, dentre outros, com direção de Roberto Santucci e roteiro de Paulo Cursino.

A história começa na cidade do Rio de Janeiro. Por conta de um imprevisto, Alexandre (Antônio Fragoso) teve que submeter sua esposa, Renata (Danielle Winits), e seus três filhos a passar as férias de verão com as famílias de outros três de seus colegas de trabalho da empresa Samepal. A viagem já havia sido planejada pelo caricato e irresponsável Lima (Maurício Manfrini). O destino é a acessível e pouco ilustre praia da fictícia Maringuaba, no litoral fluminense. E como é de se esperar, “tudo dá errado”. Desde o trânsito na estrada até os problemas com o “rústico” barranco que abriga os personagens em sua estadia praiana. Em meio a essa situação, Alexandre acabara de ser promovido e, por conta de uma política de corte de gastos, obrigado a demitir um funcionário de uma lista composta só, e justamente, por seus três companheiros de férias: Lima, Rocha (Charles Paraventi) e Diguinho (Nilton Bicudo).

Os Farofeiros

[Divulgação]

Embora o filme se trate a começar pelo título de “farofeiros”, o cenário de praia é pouco utilizado. A maior parte do longa se passa dentro dos muros pichados da casa alugada por Lima. Isso serve para mostrar a intenção do roteirista. Acima de serem farofeiros, os personagens são brasileiros que passam por “férias frustradas”. Essa mesma expressão foi usada por Cursino, em coletiva de imprensa, para batizar um sub gênero de comédia que, como apontado por ele, quase não possui exemplos no cinema nacional.

De fato, a origem da ideia precursora de Os Farofeiros veio de uma cena de outro filme da dupla Santucci-Cursino, Até que a Sorte nos Separe 2 (2013), na qual os protagonistas passam uma noite em um quarto “compacto” de motel empoeirado. As férias, ou a viagem, frustradas é um fator de identificação. De “diálogo com o público”, como disse Cursino. Para abordar melhor a realidade brasileira, tenta-se espelhar, entre os personagens, as diferenças sociais e, até mesmo, étnicas (com Jussara e seu filho Enzo) — do Brasil. Da família de classe média alta (a de Alexandre), passando pelos Rochas até as camadas mais populares, com os Limas.

Mas a história é rasa. Os personagens não comovem. E os diálogos são abastecidos de pura farofa. Falta-se carisma tudo bem, nem todos podem ser Dona Hermínia —, mas a situação é ruim em Os Farofeiros. Isso deve-se principalmente ao fato de que quase todos os principais envolvidos na trama não passam de estereótipos. O “tiosão do rolê” (Lima), a mulher histérica (Renata), a criança travessa (Enzo) dentre outros. As poucas exceções são figuras tão complexas quanto um pedaço de isopor flutuando na água. Ao final da aventura, eles continuam sendo os mesmos, embora em uma cena bem forçada, por sinal — tente-se provar o contrário. Se a viagem não os tocou no fundo, dificilmente o faria ao espectador.

Os Farofeiros

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As atuações são bem fracas, contribuindo para a falta de carisma já comentada. Cacau Protásio é a única que escapa um pouco da regra. A performance unifacetada e quase monotônica de Fragoso e o overacting de Winits chamam a atenção. Outro ponto importante, ainda discutido em coletiva, é o pouco distanciamento entre Manfrini e seu personagem mais famoso, Paulinho Gogó. Talvez seja injusto cobrar da atuação do carioca quando ambos personagens, Gogó e Lima, tem personalidades muito semelhantes. O resultado: o sotaque é um pouco menos forte, mas Gogó está, de certa forma, em Os Farofeiros.

As piadas também são ruins. O longa tem uma coletânia de tiradas toscas. A “violência” física e besta, típica do pastelão, e nojentices, como vômito e uma piscina de lodo, são usadas como recurso “humorístico”. Piadas de corte e trocadilhos também estão presentes em sua superficialidade. Até mesmo efeitos digitais são empregados em um momento esdrúxulo numa tentativa desolada para arrancar risos, que não virão nesta cena particular pelo menos. E, obviamente, “humor” feito com a objetificação da mulher, na figura de Elen (Aline Riscado), também acontece. Na trama, tenta-se fazer uma média através da cena de Adonis (Felipe Roque) na qual alguns poderiam pateticamente apontar a “objetificação do homem”. Talvez, a única graça cativante se dá em uma das últimas cenas, envolvendo o grande suspense do filme: Quem vai ser demitido por Alexandre? A resposta é, entretanto, desanimadora e previsível.

Os Farofeiros

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Uma cena em especial do longa deve ser analisada à parte. Quando as famílias vão a um cinema para assistir a uma comédia nacional, Renata critica o gênero como um todo. Então, personagens de ambas os filmes, o fictício e Os Farofeiros, se voltam com olhares fuzilantes aos seus respectivos espectadores. Essa quebra da quarta parede através da metalinguagem foi uma forma curiosa e ousada de atacar a crítica, que se habitua em ser pessimista com as comédias nacionais. Cursino desabafou sobre uma certa arbitrariedade da crítica a qual não trata filmes do gênero brasileiros e estrangeiros da mesma forma. É difícil negar que há um complexo de vira-lata intrínseco no brasileiro e, consequentemente, um tratamento talvez um pouco injusto para com ALGUMAS comédias nacionais.

Mas esse não é o caso com Os Farofeiros. A essência pode ser nobre, em relação ao “diálogo com o público” e a questão das diferenças sociais. Mas sua construção, como uma obra cinematográfica e como uma comédia, possui muitas falhas recorrentes no gênero. Além de ser mais um caso em que uma produção nacional precisa se submeter a investimentos estrangeiros, os quais conservam o mercado cinematográfico brasileiro como dependente das distribuidoras internacionais. E que, por si, privilegiam as produções de seus respectivos países por motivos óbvios. O longa pode ter pretensões boas, mas é ruim.

O filme estreia dia 08 de março. Confira o trailer:

por Caio Mattos
caiomattcardoso@gmail.com

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