Os Invisíveis: Lembrar para não esquecer

(Imagem: Divulgação/Mares Filmes)

Os Invisíveis (2018, Die Unsichtbaren) é emocionante e, em épocas de intolerância, ele se torna imprescindível. A trama, baseada em fatos reais, apresenta uma outra visão da Segunda Guerra Mundial: a dos judeus que conseguiram se esconder. Segundo dados apresentados no início do filme, cerca de 7,5 mil judeus, em Berlim, lutavam por sobrevivência e tentavam passar despercebidos.

O longa mescla gravação cinematográfica e cenas de época com a narração documental de quatro sobreviventes ― Cioma Schönhaus (Max Mauff), Hanni Lévy (Alice Dwyer), Eugen Friede (Aaron Altaras) e Ruth Arndt (Ruby O. Fee). Cada qual com suas particularidades, ainda jovens ,se viram com responsabilidades que em outra época não teriam. Saíram da casa dos pais, se esconderam, cada qual a seu modo buscou proteção em uma Berlim dominada pelos nazistas.

Cioma Schönhaus, o único da família que não foi deportado, se arriscava ao falsificar passaportes para outros judeus; Hanni Lévy (nascida Hanni Weisserng) não só alterou o nome, como também a aparência: pintou os cabelos, passou a se assemelhar, e se misturar, às demais alemãs louras; já Eugen Friede, o mais novo entre os sobreviventes, com apenas 17 anos foi viver com conhecidos de seu padrasto que eram contrários à política de Hitler, e por isso, aceitaram esconder o rapaz; Ruth Arndt, por sua vez, passou por diversos esconderijos, se disfarçou de viúva, até encontrar um emprego como empregada doméstica de um oficial da Wehrmacht ― nome dado ao conjunto das forças armadas alemãs do terceiro Reich, entre 1935 e 1945.

É de maneira tocante que o filme/documentário traz essas histórias. A mistura dos fatos com cenas de atuação deram vivacidade especial aos acontecimentos, além de adicionar à narrativa da Segunda Guerra Mundial fatos ainda não tão explorados, pelo menos cinematograficamente falando, já que pouco se discute sobre os judeus que resistiram e permaneceram na Alemanha em pleno curso do nazismo. Outro tema pouco explorado, que no entanto, é abordado no longa, é o fato de muitos alemães, assim como praticamente todos os judeus escondidos, não saberem sobre o real destino daqueles que eram deportados, e as desumanas câmaras de gás. Eugen Friede, por exemplo, só toma conhecimento da situação após os relatos de Werner Scharff (Lutais Florianos), um dos poucos fugitivos do campo de concentração e um personagem marcante no que se refere à luta por sobrevivência, que conhece quando ainda está escondido.

Mas, se por um lado centenas de judeus se esconderam e lutaram contra a política absurda que havia se instaurado, outros, como Stella Goldschlag (Laila Maria Witt), contribuíram para com o regime. No caso de Goldschlag, a função era denunciar à Gestapo ― polícia secreta da Alemanha nazista ― os judeus escondidos em Berlim. Inclusive, uma das cenas de maior tensão no filme envolvem a personagem: há um momento em que ela encontra Cioma Schönhaus na rua e o reconhece.

“Cioma? Não nos conhecemos?” (Imagem: Divulgação/Mares Filmes)

Alguns aspectos técnicos, assim como a construção do enredo, merecem elogios. Principalmente nas cenas documentais, a sútil dança da câmera faz com que os personagens se tornem ainda mais próximos dos espectadores. Um misto de empatia e admiração pela força e coragem que tiveram é o resultado que a técnica causa. O cuidado com o cenário e figurino, aliados a pequenos trechos de vídeos da época também serviram para colocar o espectador no “olho do furacão”.

Com direção de Claus Räfle e distribuído pela Mares/A2 Filmes, é no dia 06 de outubro que chega ao Brasil Os Invisíveis (2018), definição de lembrar para não esquecer.

Por Crisley Santana e Tainah Ramos
crisley.ss@usp.br
tainahramos@usp.br

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