Outsiders e Rebeldes de Hollywood: a Tribo dos Sem-Tribo

Hugo Neto

O processo de construção da identidade de uma estrela cinematográfica envolve, invariavelmente, uma complexa projeção das qualidades próprias inerentes à personalidade do ator ou da atriz sobre os personagens que interpreta. Em outras palavras, personagem e intérprete formam um híbrido indissociável aos olhos da platéia. Corresponder às expectativas da audiência, portanto, consiste numa condição essencial para definição da imagem pública de um artista bem-sucedido nas telas de cinema.

Não obstante, houve um número considerável de astros e estrelas de primeira grandeza de Hollywood que desafiaram as convenções e, rebelando-se contra toda ordem de valores vigentes, tiveram a ousadia de não pertencer a nenhum grupo, de não fazer parte de nenhuma roda social, de seguirem solitários pelo caminho do próprio estrelato.

Apenas quero continuar sendo uma estrela

Katharine Hepburn: seu nome evoca independência, vitalidade, bravura, bom senso, uma personalidade incandescente e autêntica. O American Film Institute a considerou a maior estrela cinematográfica de todos os tempos. Porém, Kate Hepburn nem sempre foi a mais amada das atrizes.

Factualmente, a longevidade da sua carreira é, em larga medida, um prodígio que confundiu todos seus maiores detratores. Muitos teriam rido, na década de 30, se lhes fosse dito que Katharine Hepburn, um veneno de bilheteria, haveria de se tornar a mais duradoura de todas as estrelas cinematográficas. Na verdade, ao final dos anos 30, Kate já havia aborrecido profundamente produtores e platéias de cinema com seu comportamento excêntrico e com sua abordagem sui generis quanto ao gênero sexual e quanto ao estrelato.

Katharine era o contraposto de uma estrela cinematográfica. Descendente da alta classe da Filadélfia, desde cedo desafiou as normas sobre o casamento e sobre o papel de uma mulher na sociedade. Em Hollywood, vestia apenas roupas velhas, não usava nenhuma maquiagem e seu meio de locomoção habitual era um caminhão. Recusou-se sistematicamente a subordinar sua persona pública ao departamento de publicidade dos estúdios de cinema. Igualmente não permitiu que seu nome fosse associado romanticamente com o de homens. Muito ao contrário, passava seu tempo livre entre suas amigas prediletas. O público rapidamente começou a desapreciar sua subversão sexual. Mas Katharine Hepburn tinha a habilidade de se reinventar em cada época de sua vida. Assim, sua carreira desafiou o tempo e ela se tornou a primeira recordista de vitórias na Academia de Cinema de Hollywood, ganhando quatro Oscars pelas suas performances.

Efetivamente, remanesce impressionante a versatilidade de Kate para se transformar periodicamente frente às câmeras. Na década de 30, ela era usualmente a jovem ousada e petulante. Nos anos 40 foi a mulher que triunfara no mercado de trabalho e estava pronta para desafiar os homens. Na década de 50, tornou-se a senhora solitária e convicta de si mesma. Declinou os filmes de terror grotescos estrelados por Joan Crawford, Bette Davis e Tallulah Bankhead, suas contemporâneas, para, nos anos 60 e 70, alcançar seu supremo papel nas telas, o da velha e sábia senhora, capaz de fascinar o público com sua selvagem inteligência. Hepburn, desde sempre, foi uma sobrevivente e assim permaneceu firme na indústria cinematográfica.

Muito mais do que uma mulher precocemente liberada, Hepburn viveu de acordo com suas próprias regras e estava sempre além das normas ordinárias. Era uma mulher independente, generosa, franca, leal e comprometida com a excelência de seu ofício. Era também uma narcisista obcecada com a própria fama, a qual foi capaz de manter intacta em mais de 50 anos de estrelato ininterrupto. Com o ator Spencer Tracy viveu um longevo romance extra-conjugal que teria destruído a carreira de qualquer outra atriz na década de 50 e 60. Nada contudo a impediu de seguir adiante. “Apenas quero continuar sendo uma estrela – disse ela em 1969 – É tudo que sei ser”. Katharine Hepburn sempre foi aquilo que desejava ser.

Rebeldia trágica

Frances Farmer foi uma estrela hollywodiana considerada tão difícil e rebelde quanto Hepburn nas décadas de 30 e 40. Teve, contrariamente, uma trajetória profissional tragicamente curta. Era uma belíssima mulher vitimada pelo álcool e por sua necessidade de independência que sepultaram sua promissora carreira nas telas. Talentosa, inteligente, bonita e ousada, Farmer fez, paradoxalmente, poucos filmes, a maioria deles triviais, embora sua presença seja inesquecível em todos eles.

Frances se tornou uma sensação em Hollywood com o papel duplo em Meu filho É Meu Rival (Come and Get It, de Howard Hawks, 1936), no qual interpretava um duplo papel: o de uma abrasadora cantora de salão e o de sua filha ansiosa por ascender socialmente. A Paramount, o estúdio ao qual estava presa contratualmente, arranjou-lhe um casamento de conveniência com o ator Lief Erikson. Foi quando Frances se rebelou, rompendo com o estúdio e se refugiando nos palcos da Broadway.

Um traumático romance com o dramaturgo Clifford Odets, a luta constante contra uma mãe autoritária e opressora e uma série de filmes B que foi forçada a fazer aumentaram sua propensão para o álcool. Foi presa em 1943 por dirigir embriagada e, depois disso, terminou internada num sanatório. Sua vida subseqüente foi uma seqüência de crises nervosas e de internações em casas de repouso que se encerraram abruptamente com uma lobotomia.

Em 1957 foi reencontrada trabalhando como recepcionista num hotel. Sua trágica história foi contada em duas excelentes produções cinematográficas: Frances (Frances, de Graeme Clifford , 1982) estrelada por Jessica Lange e Committed (de Sheila McLaughlin e Lynne Tillman, 1983), com Sheila McLaughlin, ambas atrizes oferecendo interpretações supremas da maior outsider de toda colônia cinematográfica.

Simplesmente um ator

Os anos 50 foram pródigos em outsiders. Marlon Brando e Montogmery Clift foram os primeiros deles.

Montgomery Clift atraiu a atenção das platéias tanto porque era um excelente ator e porque possuía uma incrível beleza melancólica, quanto por se recusar a estar conforme com as regras do estrelato.

“Eu não sou nem um jovem rebelde, nem um velho rebelde, nem um rebelde cansado mas simplesmente um ator que tenta fazer seu trabalho com o máximo de convicção e de sinceridade”. Esse era Monty, um artista que rejeitava ostensivamente as convenções, que não se dispunha a trabalhar num filme exceto se apreciasse o que estava fazendo, que jamais comparecia às premières, que nunca encenou romances forjados para atrair colunistas sociais e nem acatou as indicações de estabelecer um matrimônio de aparências (como fizera Rock Hudson) para ocultar sua homossexualidade. Não obstante, remanesce uma aura de fracasso ao redor de Monty Clift. Antes de sua morte precoce, aos 45 anos, estava claro que sua carreira ficou abaixo das expectativas iniciais.

Os eventos de sua vida eram sempre tão ou mais dramáticos do que aqueles que ele vivia nas telas. Nas locações de A Árvore da Vida (Rainbow County, de Edward Dmytryk, 1957) foi visto em duas ocasiões vagando completamente nu a esmo na noite. Nesta mesma época sobreviveu a uma overdose de pílulas para dormir. Seu alcoolismo parecia derivar da culpa pela homossexualidade e daí adveio o acidente automobilístico que deixou seu belo rosto marcado por cicatrizes. A deformação facial teve efeitos duradouros e reduziu agudamente a mobilidade dos músculos faciais de Clift.

Depois do acidente, Monty transformou-se num ator extremamente difícil. Houve, certamente, momentos inspirados com performances comoventes como a sua participação especial em O Julgamento de Nuremberg (Judgement at Nuremberg, de Stanley Kramer, 1961), mas, paulatinamente, seu charme e sua versatilidade artística se esvaziaram. Ficava tão bêbado que não podia trabalhar à tarde, conforme recorda Edward Dmytryk que o dirigiu em Os Deuses Vencidos (The Young Lions, 1958), um excelente filme de guerra estrelado por Montgomery Clift e Marlon Brando.

Para todos os efeitos, ele e Marlon Brando foram os únicos astros verdadeiramente originais da década de 50, os protótipos perfeitos dos atuais atores outsiders.
O Anti-Astro

Marlon Brando foi um ator que redefiniu os paradigmas de interpretação nas telas. Combinava perfeitamente suas habilidades dramáticas invulgares com um inconfundível sex-appeal em interpretações virulentas e vitais. Seus primeiros grandes triunfos cinematográficos lançaram uma vasta sombra sobre a obra relativamente mediana que produziu na maturidade – foram eles, não obstante, tão notáveis que justificaram a imagem de virilidade e talento que Brando inspirou no auge de sua carreira e que o acompanhou desde então.

Alcançou um sucesso demolidor com sua composição visceral do inarticulado e violento Stanley Kowalski na montagem teatral da peça de Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1947). Em Hollywood repetiu o personagem com êxito mais evidente em Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, de Elia Kazan, 1951), a adaptação da peça para as telas, e essa composição marcou indelevelmente sua persona cinematográfica, confundindo-se com a personalidade do próprio ator de um modo pernicioso.

Desde o princípio, Marlon Brando foi um anti-astro. Tratava com rudeza indescritível os colunistas mais influentes de Hollywood e, nas raras ocasiões em que cumpria seus compromissos em festas formais, vinha vestido com calças jeans e camisetas. Não tinha meias palavras para expressar seu desprezo pela comunidade cinematográfica hollywoodiana. Aliás, jamais escondeu que estava em Hollywood pelo dinheiro. Era tratado como um exibicionista e tolerado apenas porque rapidamente estava claro que seria uma estrela de primeiro escalão.

Uma maré de sucessos acompanhou os primeiros anos de Marlon Brando em Hollywood e, com ela, vieram os fãs e os detratores. Não apenas as suas interpretações eram objeto de ataque, mas também sua própria personalidade. Suas atitudes anti-Establishment e seu mau relacionamento com os colegas de trabalho faziam dele um alvo fácil. Marlon Brando foi o astro em cuja imagem convergiu de modo integral o talento do ator e uma fortíssima personalidade individual, algo que foi sua glória e seu inferno. Justamente por isso, ao lado de Montgomery Clift, Brando foi a suprema inspiração de outro lendário outsider da Golden Age, James Dean.

Ele teve sorte de morrer jovem

“Eu o vi uma vez no corredor de um teatro. E me perguntei: ‘Aquele ali é James Dean?’ Era baixo, feio, encurvado, com barriguinha e pernas arqueadas. Parecia sujo e ficava enfiando o dedo no nariz. Que homenzinho horrível! Ele teve sorte de morrer jovem, e é só por isso que está por aí em todos esses pôsteres. Se tivesse sobrevivido, ficaria com uma barriga muito maior, estaria usando peruca e, a esta altura, teria morrido de AIDs.” Foram nesses termos que Marlene Dietrich definiu James Dean e muitos em Hollywood concordam que pouco haveria a dizer sobre ele, exceto que morreu muito precocemente.

Há relatos de sobra sobre o estilo selvagem de vida de Dean, o que incluía visitas regulares a clubes de sadomasoquismo, uso constante de maconha e ligações sexuais bizarras. Seu comportamento rude era bem conhecido em Hollywood. Não obstante, James Dean tinha a indefinível qualidade conhecida como starpower e isso lhe garantiu o estrelato.

Dean personificou o herói rebelde que enfrentava ostensivamente toda forma de autoridade. Seu apelo cinematográfico desafia o tempo e seu modo de interpretar, arrastando os pés, murmurando as frases com olhar baixo favoreciam as comparações com o estilo de Marlon Brando.

Dean era bem menos versátil, mas possuía uma intensidade própria frente às câmeras. Havia nas suas composições para as telas um elemento de vulnerabilidade e de inocência agressiva frente à autoridade patriarcal. Exatamente por isso, sua morte precoce, aos 24 anos, num acidente automobilístico, deu origem a um verdadeiro culto de larga escala, algo nunca visto desde os tempos da morte de Rudolph Valentino. Centenas de fãs-clubes dedicados a preservar sua memória surgiram da noite para o dia, biografias sobre ele são escritas até os dias atuais e seus filmes continuaram a dar lucro nas telas de cinema pelos 10 anos seguintes à sua morte. James Dean foi, eventualmente, a quintessência do outsider bem sucedido, mesmo entre tantos outsiders de primeira magnitude.

Comentários