Da glória ao luto: documentário traça a trajetória da Chape

No dia 29 de novembro de 2016 ocorria a maior tragédia da história do futebol brasileiro. O avião que transportava os jogadores da Chapecoense para a Colômbia caiu, matando 71 pessoas, entre jogadores, jornalistas e comissão técnica. O acidente lembra outras tragédias semelhantes, como a queda dos aviões que transportavam Torino e Manchester United, em 1949 e 1958, respectivamente. Mas nenhum destes times possuía o carisma que a Chape possui para os brasileiros e para parte dos sul-americanos. Amante do esporte e conhecedor da história do time de Santa Catarina, o diretor uruguaio Luis Ara se sensibilizou com o desastre e decidiu contar a trajetória da equipe no documentário Para Sempre Chape (2018).

Toda a trajetória do clube catarinense é contada no filme através de depoimentos dos sobreviventes, dentre eles os jogadores Alan Ruschel, Neto, Jackson Follman e o radialista Rafael Henzel, torcedores, jogadores e dirigentes da Chape e colombianos que estiveram diretamente envolvidos com a tragédia, como a controladora de voo Yaneht Molina. As transições entre os depoimentos foram feitas com capas de jornais e textos que vez ou outra cometem a gafe de tratar a equipe como “o” Chapecoense.

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Wellington Paulista, atacante da Chapecoense, deu seu depoimento para o documentário. Foto: Divulgação

O documentário Para Sempre Chape começa contando, ainda que superficialmente, a fundação do clube sediado em Chapecó, cidade que na época possuía pouco mais de 80 mil habitantes e que passou por graves problemas financeiros. Por estar localizada em uma cidade pequena, a Chapecoense virou uma família e rapidamente se tornou motivo de orgulho da população local. Passou a competir de igual para igual no campeonato catarinense, um dos mais disputados do Brasil.

Mesmo destacando-se em seu estado, o time só foi aparecer no cenário nacional em 2009, quando classificou-se para disputar a Série D do campeonato brasileiro após ser vice-campeã catarinense. Naquele ano, a Chape conseguiria o acesso para a Série C, e a partir daí teria uma ascensão meteórica, chegando a elite do futebol brasileiro em 2014 após ser vice-campeã no ano anterior da Série B.

O clube conseguiu se manter na primeira divisão, e passou a disputar a Copa Sul-Americana, primeiro torneio internacional disputado pelos catarinenses. Em sua primeira participação, a Chapecoense foi eliminada pelo poderoso River Plate nas quartas de final, chegando a ganhar dos argentinos na Arena Condá.

No ano seguinte, a equipe faria uma campanha histórica, passando por gigantes do continente como Independiente e San Lorenzo, chegando a final da competição. Prestes a disputar sua primeira final de campeonato intercontinental,  a Chape embarcava no voo 2933 da LaMia, destinado a Rionegro, sonhando com a sua maior glória. Até que, a poucos quilômetros de seu destino final, as luzes se apagaram e o avião caiu nos arredores do aeroporto por conta de uma pane seca.

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O diretor Luis Ara com os socorristas colombianos no local da queda do avião. Foto: Divulgação

Diferentemente do que foi visto nas coberturas televisivas da época, nas quais predominavam o choro e a tristeza daqueles que perderam amigos e parentes, Luis Ara trata a tragédia com menos drama e mais sobriedade. O próprio diretor afirmou que evitou utilizar trechos das entrevistas nas quais os convidados não conseguiram segurar suas lágrimas, já que essa não era a intenção principal do filme. Ainda assim, toda a solidariedade e emoção da homenagem feita pelos colombianos no dia da partida entre Atlético Nacional e a Chapecoense pôde ser transmitida de maneira bem eficaz, evidenciando a conexão que foi estabelecia entre Medellín e Chapecó.

Contudo, algumas entrevistas no decorrer do documentário acabam tangenciando um pouco o tema, trazendo perspectivas muito pessoais que às vezes não estão tão conectadas com a história do clube. Esses aspectos, porém, servem para enfatizar a ideia de superação e força de vontade, pilar central do filme, muito aparente quando se trata da reconstrução da equipe: logo no ano seguinte, com elenco e diretoria completamente reformulados, a Chape foi campeã catarinense. No documentário, a atual diretoria deixa claro o sentimento de que seria uma tragédia maior ainda se o clube acabasse de vez, e que tiveram de deixar o luto de lado para reerguer o clube.

A obra perde muito por não ter as filmagens dos jogos da Chapecoense, narrando-os através de áudios das rádios ou dos depoimentos dos jogadores que sobreviveram ao acidente. A grande ascensão do clube nas divisões de acesso do campeonato brasileiro ficaria melhor ilustrada, e momentos como a defesa heróica do goleiro Danilo nos acréscimos da semifinal contra o San Lorenzo, garantindo a vaga na final, acabaram perdendo boa parte de sua emoção natural.

Quase dois anos depois, a Chapecoense ainda se mantém na elite do futebol brasileiro, graças à força de vontade daqueles que não quiseram perder tudo aquilo que havia sido conquistado nas últimas décadas. Diretoria, jogadores e torcedores decidiram seguir em frente e se uniram para garantir que a Arena Condá continuasse recebendo o verdão mais carismático do Brasil.

Para Sempre Chape estreia hoje, 9 de agosto, nos cinemas. Assista o trailer:

por André Netto
andrenetto82005@gmail.com

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