Patti Cake$ – força e sensibilidade vêm em rimas

Dumbo. Patti Cakes. Killa P. Todas elas são Patricia Dombrowski (Danielle Macdonald), mas nenhuma realmente é. Dumbo é a jovem acima do peso alvo de piadas de seus vizinhos; Patti Cakes é a neta amorosa, companheira e responsável que compõe rimas para recitar à avó toda manhã; Killa P é a estrela do rap que ostenta sua riqueza e fama em suas músicas.

Patti Cake$

Imagem: divulgação

A protagonista de Patti Cake$ (2017), Patricia, é um pouco de cada uma, e muito além de todas elas. Morando com a avó e a mãe, vive do trabalho em um bar mal frequentado e alguns bicos, sem ganhar dinheiro o suficiente para pagar as dívidas acumuladas pela mãe, Barb (Bridget Everett) e o tratamento da avó. Em meio a sua casa eternamente bagunçada, ela alterna entre sua dura realidade e suas fantasias de fama.

Ela deseja ser rapper, embora sua determinação em seguir o sonho esteja diminuindo a cada dia. Quem faz o impossível para manter a chama de Patti acesa é seu melhor amigo, Jheri (Siddharth Dhananjay), rapaz franzino que, nas ruas, tem um estilo extremamente diferente daquele com o qual é apresentado, em seu uniforme de vendedor de farmácia. Ele motiva a amiga a rimar, formando com ela a dupla muito mais imaginária que real Thick’n’Thin – uma alusão à suas próprias formas corporais – e, embora não esteja no mesmo nível de talento da colega, compensa a desvantagem com um entusiasmo e proatividade extremos.

Patti Cake$

A dupla Patti e Jheri comemoram uma pequena vitória. Imagem: divulgação

Além dos problemas financeiros e o sonho que parece não ir para a frente, a relação entre Patti e a mãe, Barb, é uma das linhas principais do enredo. Barb parece nunca ter aceitado a gravidez precoce que interrompeu seu próprio sonho de ser cantora, e bebe para ignorar os problemas – que acabam amontoados nas costas da filha. Em uma tentativa desesperada de esquecer a própria idade e fugir das responsabilidades, ela chega até a se autonomear irmã de Patti, formando as disfuncionais “irmãs Dombrowski”. Sua voz, que em uma época áurea carregou força e jovialidade, hoje é apenas tragicamente bela – o timbre de Bridget Everett trazendo uma forte lembrança de álcool, nicotina e tristeza, um encaixe perfeito com a personagem.

Danielle Macdonald também faz um trabalho avassalador como Patti, sendo extremamente convincente em todas as facetas da personagem: sua persona Killa P, que exige uma atitude brincalhona, debochada; seus momentos de crise, seja raiva ou tristeza, e nas pitadas humorísticas que deixam o filme mais leve.

Patti Cake$

Patti relutantemente serve mais bebida à mãe, Barb, no bar de costume. Imagem: divulgação

O longa é, surpreendentemente, bem simples, tendo uma narrativa muito linear e, por vezes, até previsível – apesar de sua primeira metade constar de diversos rodeios que nos fazem pensar se Patti vai sair alguma hora do lugar emocional, financeiro e geográfico onde está. Tem-se um início e uma resolução sem muita elaboração, mas a simplicidade do enredo é mascarada por uma não-convencionalidade da estética, do contexto e dos personagens.

O longa tem basicamente quatro ambientes principais, dos quais a câmera pouco foge. Um deles é o bar, onde Patti trabalha e sua mãe frequenta mais do que deveria, que traz um visual caído, sujo e desmotivador, muito efetivo em nos fazer sentir tão desesperançosos quanto a própria Patricia. Outro, a casa, que só demonstra algum fragmento do acolhimento e calor humano que se esperaria de uma casa de família em cenas que Patti compartilha com a vovó – chamada por todo o longa carinhosamente de Nana. O terceiro é um cemitério, que primeiro aparece quando neta e avó visitam o túmulo do falecido avô, mas acaba ganhando um papel mais constante e significativo no decorrer da história. O último é onde o sonho de Patti começa finalmente a ser construído, após muita insistência – um estúdio que mais lembra um covil satanista, pertencente a “Basterd, the Antichrist” (Mamoudou Athie), um jovem músico nada convencional de um estilo que nem o próprio sabe definir.

No entanto, não é com facilidade que ela se encontra musicalmente. Após formar um grupo com Jheri, Basterd e um membro nunca esperado, ela tem letras que ainda estão presas na fantasia que criou com Killa P, onde ela vive uma vida incrível, cercada de luxo – muito diferente do que é quando abandona o microfone.

Quando ela consegue superar a fantasia é que sua música ganha alma e poder capazes de arrancar lágrimas e surpreender a todos – inclusive você.

Patti Cake$ estreia em 30 de novembro. Confira o trailer!

por Juliana Santos
jusantosgolcalves@gmail.com

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