Pica-Pau: O filme –  Uma louca “bicada” de nostalgia

Se você viveu sua infância e adolescência no Brasil, certamente conheceu o pássaro azul de cabeça vermelha que dominava a programação de desenhos animados. E agora, Pica-Pau está de volta em Pica-Pau: O filme, (2017). Desta vez, o personagem vai para as telonas não mais em uma animação, mas em uma produção live-action. Algo considerado arriscado por muitos, mas com um resultado que não desagrada… não tanto.

Em Pica-Pau: O filme, inicialmente, vemos a tranquila rotina do querido pássaro morando em um parque e curtindo a vida, enquanto Lance Walters (Timothy Omundson), um milionário advogado de sucesso, leva sua vida regada a muito luxo e ostentação numa grande cidade. Em certo momento, Lance resolve afastar-se do trabalho, viajar para o campo e construir uma casa dos sonhos. Sua noiva, Brittany (Thaila Ayala), é anos mais jovem. A moça aproveita da fortuna do companheiro e vive gastando muito do seu dinheiro. Logo a princípio, vemos um casal muito arrogante e egocêntrico, utilizando de seu poder para tratar outros como inferiores.

Paralelamente, conhecemos dois caçadores de estilo bem grosseiro, que fazem seus trabalhos de caça ilegalmente no parque em que mora o Pica-Pau. Já no começo do filme, os dois descobrem o pássaro e não demora até desejarem matá-lo por conta de sua atitude malandra. Mas, obviamente, não conseguem e acabam sendo enrolados pelo bicho. Assim, os dois ficam muito irritados e loucos para capturá-lo – ainda mais quando descobrem o seu valor de venda no mercado negro, por ser o único de sua espécie.

Nesse meio tempo, Lance e Brittany se preparam para viajar rumo ao parque (que por acaso é uma propriedade dos Walters), até que a ex mulher de Lance surge para deixar o filho, Tommy, com o pai, por conta de uma viagem de última hora. Na hora, Brittany se manifesta contra isso e pede ao marido que não aceite a proposta. Mas não há escolha. Então, o garoto fica com o pai, e assim, segue viagem com ele. O problema é que ninguém se sente confortável. Nem o pai, nem o filho, muito menos a madrasta chata. Os problemas desse relacionamento familiar logo ficam evidentes.

Na viagem ao parque, os problemas de Brittany, Lance e Tommy triplicam e o que reina é a impaciência. Foto: Divulgação.

Por algum tempo, é possível que surja o pensamento: “Mas onde está o Pica-Pau?”. A resposta é dada quando todos os contextos do filme passam a se cruzar. O pássaro, muito esperto, não demora a perceber que a família não está lá para passear, e sim, com a intenção de derrubar parte da mata e construir uma mansão à beira-rio. Sabendo disso, Pica-Pau não deixa barato, e passa a atormentar a vida da família e a construção da casa.

A partir deste ponto, o roteiro flui explorando a tentativa de construir a casa mesmo com as “trapalhadas” do pássaro, o conturbado relacionamento de Tommy e seu pai, a amizade nascente entre Pica-Pau e o menino, o estresse e pavio curto de Brittany, a busca dos caçadores por Pica-Pau e o desejo do garoto de se enturmar na cidade para aproveitar seu tempo.

Considerando as questões técnicas, trazer um já aclamado personagem dos desenhos animados para o mundo real não é uma tarefa fácil. No entanto, é frequente ver isso acontecer, como no caso da franquia Os Smurfs (2011). Em Pica-Pau, o personagem construído através da tecnologia CGI (computer graphic imagery, ou imagens geradas por computador, em tradução livre) parece estranho aos olhos, por estar em 3D. Nos momentos em que voa, tudo ocorre de forma tão rápida que mal é possível acompanhar na tela. Um outro ponto, também negativo, é a atuação. Numa situação dessas, nesse tipo de filme, os atores trabalham com a “imaginação”, sem que as coisas estejam realmente presentes. Isto permite algumas cenas em que sua atuação soa exagerada, mas sabemos que é a única opção possível. Um exemplo é quando Pica-Pau bica a cabeça de Lance, e o ator fica balançando a cabeça para trás de forma exagerada – até mesmo cômica.

Outro fator que talvez possa assustar é a dublagem de Pica-Pau, por não ser a original com a qual estamos acostumados. Mesmo assim, é fácil se deixar levar pelo filme e simplesmente esquecer desse mero detalhe. O mais importante é a consistência do personagem, que aparenta ser uma mistura visual de todas suas épocas e com comportamentos típicos de várias das suas fases. Assim, em alguns momentos podemos compará-lo com sua primeira fase, dos anos 1940, em que ele aparece sendo doidinho, daquela forma bem Pica-Pau de ser, pulando para todo lado, olhos revirando rapidamente e uma cara bem maluca. Também é possível se sentir conversando com ele, nas várias vezes em que ele interage com o público, assim como era comum em seu seriado. Desta maneira, vemos que estamos frente ao mesmo Pica-Pau de sempre.

Seja na personalidade, ou na aparência, Pica-Pau continua o mesmo maluquinho de sempre. Foto: Divulgação.

Um dos pontos que vale – e muito – ser ressaltado é a presença da atriz brasileira Thaila Ayala. O filme que será exibido pelo mundo, mas com foco especial na América Latina (por conta de sua importância e audiência), tem a presença da atriz, o que pode ser considerado como uma forma de promover identificação nacional ainda maior com a história. Essa talvez seja uma das boas razões para colocar Thaila no filme, além de seu talento. E a  brasileira não decepciona. Na pele da antipática Brittany, Ayala nos convence da personalidade de sua personagem e consegue nos fazer não gostar dela, até mesmo a rir de suas desgraças, sendo um dos papéis responsáveis por várias das cenas mais divertidas.

Em suma, Pica-Pau: O filme é algo que vale a pena assistir. No entanto, é ingênuo pensar que será uma ultra produção, maravilhosa, impecável. Não é. É apenas um simples filme voltado para o público infantil e para os que pretendem matar a saudade do personagem que marcou diversas gerações. Algumas de suas cenas conseguem provocar sorrisos no rosto e serem engraçadas – mesmo que não sejam muitas. Mas acima de tudo, é saudável ter um “programa de família” como esse. Além do entretenimento, é um momento para revisitar o passado e alimentar a nostalgia daqueles bons velhos tempos de criança.

 

Pica-Pau: O filme estreia em 5 de Outubro nos cinemas:

por Gabriel Bastos
gabriel.bastos@usp.br

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