Por “Bom Comportamento”, Edward Cullen está morto

A música ainda evocava o amor em busca da cura: “Love, make me clean”. Enquanto isso, uma jornalista deixava a sessão com um bloco de notas debaixo do braço e uma cabeça um tanto confusa. “Caos”, “aflição” e “que?” foram algumas das palavras totalmente passionais rabiscadas durante a exibição de Bom Comportamento (Good Time, 2017). É isso que o filme faz, ele provoca no espectador algum tipo de paixão. Não importa se a reação é positiva ou negativa, se é amor ou ódio o que desperta, só não é possível ficar indiferente.

Atravesse a sala se você já foi condenado injustamente. Atravesse a sala se você tem alguém que o ama. Pessoas para um lado, pessoas para o outro. E a sombria “the pure and the damned” (o puro e o condenado), perfeita ilustração sonora da premissa central, ecoa. Quando as câmeras cortam para a última cena, quem assiste já se encontra dormente. A angústia está quase desmanchada e o desfecho nada surpreendente, dado. Mesmo assim, existe algo de muito perturbador no fim que sintetiza a atmosfera do filme. É tudo sobre conflitos — necessariamente os familiares e os de índole.

A história gira em torno de dois irmãos, com foco na jornada questionável e incessante de Connie para, em sua cabeça, salvar ambos de um erro dele. Antes do gatilho, o objetivo de Constantine “Connie” Nikas (Robert Pattinson) era simples: assaltar um banco e fugir com o dinheiro ao lado de seu irmão mais novo, Nick (Benny Safdie, um dos diretores). Mas no meio do caminho tinha um carro de polícia. O plano fracassa e acaba colocando Nick atrás das grades. A partir daí, a tensão, que já era presente desde a primeira cena, só se multiplica até preencher toda a tela. O que se origina é uma corrida irracional pela sobrevivência.

Apesar de se tratar de uma relação familiar, os canhões de luz apontam para Connie, o condenado (ou seria o puro?). Ele é manipulador, perigoso, instável e seu autodeclarado altruísmo é duvidoso. É evidente que ele arrisca tudo o que tem, incluindo a própria vida, para tentar tirar o irmão da prisão. Entretanto, quando tudo que ele tem a perder é quase nada e quando suas ações incluem usar pessoas inocentes para alcançar seu propósito, o embate entre sentir ou não empatia por Connie se torna acirrado. Ele definitivamente não está pensando em si mesmo, mas também não parece estar pensando no irmão. O ponto é que ele não parece pensar e sim, estar no modo automático. É puro impulso e selvageria.

O êxito na construção de um personagem instigante e multifacetado pertence ao ator Robert Pattinson, que parece ter finalmente se livrado do estigma de galã adolescente. Talvez sua atuação não seja o maior destaque pelo fato dos elementos narrativos e estéticos se complementarem harmoniosamente, mas sua presença é, sem dúvidas, o maior atrativo do filme. Em Cannes, sua performance foi uma grande surpresa e rendeu ao ator 6 minutos de aplausos.

Legenda: Taliah Webster vive Crystal, adolescente manipulada por Connie.

Considerados a verdadeira face de Nova Iorque por alguns veículos, os irmãos Safdie, responsáveis pela direção do longa, ofereceram um thriller urbano genuíno. O cenário violento e marginalizado representaria facilmente qualquer lugar do mundo. O espaço criado é muito mais psicológico do que físico e te envolve, te puxa para dentro da tela. É a Nova Iorque menos vista, longe da Broadway e dos subúrbios, e poderia muito bem ser a São Paulo longe da Paulista e de todos os lugares que ingenuamente acreditamos serem pacíficos e seguros.

Os componentes relevantes na criação desse thriller vão muito além dos personagens frenéticos que se comunicam repetidamente por meio de gritos (ou pelo silêncio, tão desconfortável quanto). Foi escolhida uma estética de cores neon, quentes e imersivas, e a trilha sonora eletrônica quase não para. Você se sente frequentemente dentro de um videogame cheio de personagens desequilibrados, no qual o protagonista, o maior dos desequilibrados, está fadado a perder desde o princípio. Mesmo o levíssimo toque de comicidade proporcionado pelo ex-presidiário Ray (Buddt Duress), que surge aleatoriamente, não diminui a ambientação pesada e incômoda de Bom Comportamento. Usando o título original, podemos dizer que o tempo assistindo essa jornada é um bom tempo. É um suspense que te prende, que cumpre seu papel de maneira irreverente e que definitivamente assassinou Edward Cullen.

 

O filme estreia no Brasil dia 19 de outubro. Confira o trailer oficial:

por Anny Oliveira
acoliveiramartins@usp.br

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