A presidência sob as lentes das câmeras

Por Amanda Oliveira,
foliveirafamanda@gmail.com

Olhar para a história da política brasileira é como observar um enredo, que se constrói de forma tão peculiar que muitas vezes nos dá a sensação de estarmos diante de uma emocionante narrativa cinematográfica. Os palácios do Catete e da Alvorada foram palco dos acontecimentos mais marcantes e imprevisíveis do Brasil. Neles acompanhamos o suicídio de Getúlio Vargas, a misteriosa renúncia de Jânio Quadros, a conturbada deposição de Jango e a culminação do golpe militar. Ironicamente, com o tempo, vimos aqueles, que foram duramente perseguidos pela ditadura, serem nomeados Presidentes da Republica.

Esses episódios tão singulares não podiam apenas ser relatados pelos livros de história. Deste modo, muitos roteiristas se apropriaram dessa narrativa naturalmente desenhada pelo tempo para levá-la ao universo do cinema. Um dos exemplos é o documentário Jango, produzido por Sílvio Tendler, em 1984. que conta a trajetória política do ex-presidente João Goulart. O diretor constrói um filme que não se limita a mostrar apenas as contendas políticas referentes ao governo, mas também retrata a efervescência dos anos 60 que via o crescimento de uma população urbana insatisfeita com sua situação social.

O documentário se apoia em depoimentos de diversas personalidades importantes que marcaram esse período. Umas delas é o ex-governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola. Em seu relato, conta como foi a sua reunião com oito Generais do Exército e o presidente João Goulart. Esse era um momento de grande tensão no país, pois os militares já estavam prontos para assumir o poder. Diante dessa situação, Brizola sugere a Jango a resistência. No entanto, o presidente opta por não resistir e assim caminha para o exílio no Uruguai.

O diretor constrói em muitos momentos do filme uma figura heróica de Jango. Um deles é quando relata o Comício do presidente, ocorrido no dia 13 de março de 1964 na Central do Brasil. Nele é enfatizado a implantação da reforma agrária, fantasma que assombrava os militares brasileiros. Tendler narra esse episódio quase que de forma literária. Aos poucos nos insere em uma narrativa cheia de elementos simbólicos e visuais, que nos permitem imergir nesse momento de grande tensão.

Cita, assim, o palanque de madeira ocupado por Goulart, como sendo aquele em que Getúlio Vargas fazia seus discursos. Também associa a presença da mulher de Jango, Maria Tereza, como uma forma de quebrar a angustiante atmosfera de incertezas e instabilidades que aquele momento representava.

Juscelino Kubitschek também teve sua história contada nas telas do cinema e foi novamente Sílvio Tendler que a construiu. O documentário Os Anos JK- Uma trajetória Política, lançado em 1980, é desafiador, pois mostra um governo eleito democraticamente, para um público que ainda vivia a sombra da ditadura militar. O filme é embalado pela música Peixe Vivo, uma canção folclórica que se tornou símbolo do governo JK.

O documentário relata um pouco do período Vargas, quando Juscelino ainda era governador de Minas Gerais. Mostra, assim, a crise no palácio do Catete que culminou com o suicídio do presidente. A chegada de JK a cadeira presidencial se transformou em uma aventura épica, que teve como personagem principal o General Henrique Teixeira Lott, responsável por conter as ambições dos militares e garantir a posse democrática do novo governo.

Quando JK chega ao governo ele tem a dura missão de conciliar todas as camadas da sociedade. Uma tarefa árdua, mas que em alguns momentos cumpriu seus objetivos, como mostra o depoimento de Carlos Veloso de Oliveira, líder da UNE, que foi convencido pelo presidente a finalizar os protestos dos estudantes contra o aumento da tarifa do bonde.

Tendler também relata as viagens que JK fez para os Estados Unidos como forma de tranqüilizar o capital estrangeiro quanto aos investimentos feitos no Brasil. Dessa maneira Inicia-se o seu plano de abrir o país para o mercado externo. O presidente ainda menciona que a maior arma contra o avanço do comunismo é a prosperidade.

Fugindo um pouco do universo do documentário, o Brasil também produziu longas, que construíram uma trama em torno da vida política e pessoal de alguns presidentes. Um deles é o filme Lula, o Filho do Brasil. Dirigido por Fábio Barreto em 2009, ele narra a trajetória política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Fazendo uma alusão ao nome, a trama se inicia com o nascimento de Lula em um ano de grandes transformações no Brasil e no mundo. Em 1945, acompanhamos o fim da Segunda Guerra Mundial, a contestação do governo repressor de Getúlio Vargas, a formação das primeiras barreiras ideológicas da Guerra Fria. No entanto, longe de toda essa atmosfera de agitação política, o filme nos transporta para Garanhuns, uma pequena cidade do interior de Pernambuco.

O enredo se estrutura de maneira a construir uma figura heróica e sonhadora de Lula, desde que era apenas o menino Luiz (Felipe Falanga). Mesmo passando por dificuldades, ele frequentava a escola e como maioria dos personagens idealizados e românticos, possuía qualidades que exaltavam a sua personalidade, como o bom desempenho nos estudos e a coragem para defender a mãe Dona Lindu (Glória Pires) de Aristides (Milhem Cortaz), que era seu pai e vivia o tempo todo alcoolizado.

A interpretação de Dona Lindu por Glória Pires nos passa a sensação de uma mulher forte que enfrenta todas as adversidades da vida, para cuidar dos oito filhos. O papel dela como pilar da família é muito presente no filme. O seu sofrimento acrescenta um caráter mais dramático a trama.

As constituições das relações amorosas na vida do futuro presidente do país também são abordadas por Barreto. O diretor nos envolve no sentimentalismo apaixonado dos personagens. Primeiramente na relação de Lula (Rui Ricardo Dias) com Lurdes (Cléo Pires) sua primeira esposa. Essa esteve ao seu lado, quando ele deu os seus primeiros passos no sindicato, mas infelizmente acaba tendo um fim trágico morrendo durante o parto do seu filho. Depois no seu casamento com Marisa Letícia (Juliana Baroni), sua segunda mulher, que o acompanhou em momentos muito difíceis, como a sua prisão pelo DOPS e a morte da sua mãe, Dona Lindu.

Apesar do filme focar em diversas situações nas relações amorosas e familiares de Lula, algumas cenas se mostraram muito interessantes por abordar o contexto político da época. Em um episódio em particular, se expõe o confronto das tropas polícias com os metalúrgicos grevistas no Estádio de Vila Euclides. Nessa cena, ficção e realidade se combinam e o diretor nos mostra imagens reais recuperadas de arquivos, que atribui uma carga emocional maior aquele momento de tensão.

Recentemente, o último presidente retratado em um filme foi Getúlio Vargas. O longa, Getúlio, produzido por João Jardim, narra os momentos mais difíceis que Vargas (Tony Ramos) passou no palácio do Catete. O enredo se apoia no atentado sofrido por Carlos Lacerda (Alexandre Borges) que acaba culminando com a morte do Major da aeronáutica Rubens Vaz.

getulio

Apesar de abordar um fato histórico que já é de nosso conhecimento o filme tenta agregar um pouco de mistério em torno daquele que seria o mandante do crime. O principal acusado Gregório Fortunato (Thiago Justino), chefe da guarda pessoal do presidente aparece na trama, em alguns momentos, tendo conversas secretas com pessoas relacionadas a Getúlio.

O filme constrói uma imagem muito vulnerável do presidente, mostrando-o como uma pessoa silenciosa e frágil diante de seus opositores. Desse modo falta um pouco de perspicácia atrelada a figura do personagem, característica muito presente na figura de Vargas. Jardim retoma em diversos momentos da trama temas relacionados a morte, uma alternativa talvez forçada de ambientalizar os acontecimentos futuros como o suicídio do presidente.

No entanto, é importante destacar a atuação de Drica Moraes como Alzira Vargas, filha de Getúlio. Seu personagem foi muito bem construído, encarnando uma personalidade forte e intensa para enfrentar os problemas vividos pelo pai.

Nos últimos 60 anos, ser presidente no Brasil era fazer parte de uma história com um enredo imprevisível. Se olharmos para trás vemos uma dura realidade, que deixou feridas que ainda não foram cicatrizadas e que jamais serão esquecidas pelos brasileiros. Transformar a história da política brasileira em uma produção cinematográfica é contribuir criticamente para o fortalecimento da memória do nosso país.

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