A fantasia infantil e a desoladora realidade se confundem em Projeto Flórida

Em um motel ironicamente chamado Magic Castle (ou Castelo Mágico) vivem semi-temporariamente famílias que não poderiam viver menos da magia que o nome promete. Em Projeto Flórida (The Florida Project, 2017), a inocência e a alegria da infância vivem tão proximamente da marginalização e da exclusão social que ambas começam a se confundir.

A pequena Moonee (Brooklynn Prince) é o principal símbolo desta confusão. Sendo por vezes os olhos pelos quais enxergamos a história, e por outras vítima do próprio enredo, ela corre e brinca por seu canto da cidade, uma área onde mesmo turistas não desejam estar. Habita um pequeno e caótico quarto de motel – do estilo americano, uma alternativa mais barata e menos luxuosa de um hotel – com sua mãe, Halley (Bria Vinaite).

Halley é uma jovem cujas ações muitas vezes inspiram, mas também parecem imitar a própria filha. Embora seu comportamento agressivo, desbocado e eternamente informal a torne uma personagem levemente difícil de simpatizar, não há dúvidas do seu amor por Moonee. Tirando longos momentos diários para fazer companhia à pequena e seus amigos, Halley genuinamente se diverte com as mesmas brincadeiras e travessuras das crianças, formando uma dinâmica na relação com a filha que é menos entre mãe-filha e mais entre duas amigas.

No entanto, o aluguel precisa ser pago, e Halley arranja métodos diversos e desesperados para fazê-lo. Inexperiente e com dificuldade em controlar sua intensa personalidade para manter um emprego, ela faz bicos como dançarina de strip, vende pulseiras mágicas para entrada na Disney – utilizando a filha para enganar turistas -, e finalmente recorre à meios mais degradantes para si própria e perigosos para a sua estadia no motel e sua guarda da filha.

Enquanto Moonee brinca na banheira, ao som ensurdecedor de músicas de hip hop, atrás da porta trancada do banheiro a mãe se prostitui para garantir a sobrevida da filha.Oscilando entre mostrar a vida dos personagens adultos, explicitando suas dificuldades em um meio em que não parece haver saída para o quadro de pobreza e marginalização, e entre ilustrar aquela mesma vivência pelos olhos inocentes e distraídos das crianças, o longa mantém um tom perpetuamente melancólico e desesperançoso, mesmo sendo repleto de cores vibrantes, cenas de alta dinamicidade, e constantes risos despreocupados de crianças.

Enquanto Moonee  preenche cada dia de seu verão com travessuras e brincadeiras crescentemente ousadas e não transparece incômodo ou mesmo conhecimento da situação em que vive, e Halley parece recusar ser uma adulta e mãe para permanecer livre, despreocupada e desafiante das regras sociais que a aprisionam, o espectador é um dos únicos que têm plena noção de ambos os lados da vida de ambas, e por boa parte do longa, é o único a se importar com isto.

No entanto, existe um símbolo de sobriedade e maturidade representado pelo gerente do motel, Bobby (Willem Dafoe). Um tanto quanto idealizado, Bobby é aquele que sabe dizer “não” às crianças, que constantemente dá choques de realidade a Halley e, mesmo sendo uma das figuras de maior autoridade e seriedade do enredo, ainda é mostrado como um homem de empatia que nutre um carinho quase paternal com ambas.

E quando vemos Halley retribuir este cuidado com comentários ácidos, palavrões e gestos rudes, quase é difícil entender com quem a direção realmente queria que o espectador simpatizasse.

Embora vivendo uma realidade sufocante, em que nenhum esforço parece ser o suficiente para enxergar uma vida ligeiramente melhor, são poucos os momentos em que a vulnerabilidade da jovem e de sua filha se torna explícita – e quando isso ocorre, embora sejam os momentos de maior dramaticidade e tristeza da obra, é também um alívio: finalmente, o espectador não se sente mais o único afetado por tudo aquilo.

Para quem espera um final feliz, não é o que encontramos em Projeto Flórida. Muito diferente de qualquer filme da Disney, as coisas não pioram para depois melhorar; apenas pioram, e piores permanecem. A ilusão do mundo mágico infantil que as brincadeiras e a despreocupação de Moonee possam ter criado é quebrada bruscamente, e é absurdamente desolador ver o momento em que ela abandona a sua pose de independência e ousadia – que vestia muito bem enquanto transitava pela cidade com os amigos, fazendo dos adultos e do cenário ao seu redor seus súditos e reino – para tornar-se uma criança, assustada, querendo a mãe.

A crítica pretendida no longa torna-se tão explícita que é quase impossível entender os seus últimos minutos. Numa reviravolta extremamente brusca, Moonee e sua melhor amiga novamente fogem da realidade em que se encontram para emergir em um mundo de fantasia e despreocupação – numa representação tão literal e preguiçosa que não parece ser digna do filme complexo e inteligente que a precedeu.

Projeto Flórida estreia no dia 1 de março nos cinemas. Veja o trailer:

 

Por Juliana Santos
jusantosgoncalves@gmail.com

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