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Quando Jesus e Marilyn dão as mãos
CINÉFILOS
25 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

Escrever sobre a religião nos filmes de Pedro Almodóvar não foi minha ideia. Foi uma sugestão bonita ─ um tema que soa tão intrigante e pertinente quanto é. Contudo, minha relação com o diretor espanhol era superficial: havia durado apenas dois, ou dois filmes e meio, ainda na fase do flerte, do olhar provocador. Decidi, então, mergulhar em sua produção. Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre, 1998), A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011), Volver (2005), Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, 2009), Má Educação (La Mala Educación, 2003), Julieta (2016) e Maus Hábitos (Entre Tinieblas, 1983), tudo ao longo de três semanas, nessa ordem. Penso que agora devemos ser pelo menos namorados.

Pedro Almodóvar

[Tesauro]

Talvez por não estar familiarizada com Almodóvar em primeiro lugar, talvez por não ser autora do tema, me perdi procurando a religião em seus filmes. Sabia das inclinações satíricas do diretor, assim como de seu reconhecido esforço em retratar o povo espanhol. Já que o país possui significativa tradição católica e a religião abre espaço para determinadas críticas sociais, imaginei que fosse estar escancarada, desnuda na tela. Almodóvar, porém, trabalha essa temática muito sutilmente, na maioria das vezes. Eu diria que a prática religiosa é quase subliminar em suas produções, se não fosse tão intencionalmente retratada, e de uma forma tão intrinsecamente específica.

Catolicismo como herança cultural

Os temas “fé” e “religião” aparecem recorrentemente nos filmes, mas quase nunca são os principais. Tudo Sobre Minha Mãe, por exemplo, trata principalmente da mulher emancipada e de sua solidão, mas a religião deita sobre o grávido ventre de uma freira burguesa, Rosa (Penélope Cruz). Volver foi criado, entre outros motivos, para que Almodóvar lidasse com a morte, mas o varrer ritualístico dos túmulos de familiares empoeirados pelo vento de La Mancha está ensopado de religião. A relativa ausência desse tema como central, contudo, reflete sua relevância para a sociedade espanhola: o catolicismo marcou a história da Espanha e ainda é um elemento cultural importante, mas não influencia o dia a dia e a filosofia de vida da população tão intensamente.

Em uma Espanha que se diz 70% católica, de acordo com pesquisa realizada pelo Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) em 2017, os personagens de Almodóvar, embora a abracem de outras formas, rejeitam o dogma da religião. “Eu tenho meu sistema moral autônomo”, afirmou o diretor em entrevista ao The Guardian, 2006. Seus filmes se passam em um mundo amoral, isento de julgamentos nessa esfera. José Arroyo, em The Oxford Guide to Film Studies (1998), organizado por John Hill e Pamela Gibson, escreveu que as transgressões sociais são narradas como perfeitamente morais dentro dos termos de cada filme de Almodóvar, e que a audiência é convidada a se identificar com o transgressor.

Pedro Almodóvar

[Warners/Sony]

Almodóvar começa a produzir seus filmes em uma Espanha recém saída da ditadura – regime militar liderado por Francisco Franco (1936-1975). Seus temas refletem o clima de irreverente vitalidade que surge na transição democrática: hedonismo, liberação e sexualidade selvagem. Contrastando com os ideais católicos tradicionais de abnegação, renúncia e obediência, o diretor ilustra uma busca constante por desejo. “Nós perdemos o medo do poder terreno (a polícia) e do poder celestial (a Igreja)”, declarou o espanhol no livro Pedro Almodóvar (Contemporary Film Directors), de Marvin D’Lugo. Desse modo, Almodóvar remove da religião as qualidades sufocantes e arrogantes, atribuindo a ela o absurdo e a brincadeira, que delineiam a versão revisitada de um Deus que serve aos personagens, em oposição a personagens que servem a Deus. Há uma reapropriação do catolicismo moralista e opressivo, cunhado pelo regime ditatorial de Franco, para servir as necessidades de seus personagens.

Essa brincadeira, essa zombaria, é constantemente estabelecida através de uma paródia iconoclasta. Maus Hábitos está repleto de misturas entre elementos religiosos e não religiosos, como um quadro de cortiça com uma estatueta de Jesus Cristo na cruz em meio a fotos de celebridades, o que provoca um questionamento sobre a real representatividade da religião através de figuras. Em A Pele que Habito, Marilia (Marisa Paredes) usa uma cruz no pescoço o tempo todo, mas não tem escrúpulos para apoiar o filho legítimo, mesmo que seja em relação ao assassinato de seu bastardo. Além disso, os altares de Almodóvar são invadidos por elementos kitsch, como fotos de Marilyn Monroe e objetos deliberadamente extravagantes. O diretor faz uso intenso de itens religiosos como decoração, no cenário e nos atores.

O espanhol e o kitsch

Kitsch nasceu como um termo pejorativo para designar o mau gosto artístico ou produções consideradas de qualidade inferior. Com a ascensão da arte pop após a Segunda Guerra Mundial, que recusava a separação entre vida e arte e buscou superar as fronteiras entre arte erudita e popular, o kitsch passou a ser mais aceito, tornando-se uma muito reproduzido. Almodóvar adotou esse exterior brega que subverte os padrões estéticos de modo irônico, e o misturou à religião, tratando-a de forma ambivalente: sagrado e profano. Valendo-se desse estilo, transmite ideias sérias de maneira divertida.

“A estética kitsch aparece em todos os meus filmes, e é inseparável da prática religiosa”, contou o diretor em Conversaciones con Pedro Almodóvar (2001), de Fréderic Strauss. “Eu usei a religião para falar de sentimentos tipicamente humanos. O que me interessa, o que me fascina, o que me move na prática religiosa é sua capacidade de criar uma comunidade entre as pessoas… Eu transformo linguagem religiosa em linguagem profundamente humana e amorosa. Para mim, o aspecto mais interessante da religião é sua teatralidade”.

Julieta é representante dessa humanidade e dessa teatralidade. A personagem que dá nome ao filme, interpretada por Emma Suárez e Adriana Ugarte, dá aulas a colegiais sobre Tragédia Grega, até que sua própria vida torna-se uma. Apesar de não ser explicitamente o Deus católico, Almodóvar brinca com forças que estão além do terreno, e que fazem do homem uma forma de entretenimento. Em Maus Hábitos, é nítido o senso de comunidade. As freiras pertencem a uma ordem renegada, conhecida como Redentoras humilhadas, e tomam nomes auto-depreciativos como Rat (Rata), Damned (Condenada) e Manure (Esterco). Embora os apelidos sejam uma forma de crítica e satirização, também demonstram afetividade entre as irmãs.

Pedro Almodóvar

[Warner]

De espada, sem escudo

Entre decoração, zombaria, transgressão, caracterização do povo espanhol e comunidade, um de seus filmes que mais se aproxima da discussão tangível de religião é Má Educação: o tema da pedofilia dentro da Igreja católica é abordado. Contudo, funcionando dentro da crítica, Almodóvar consegue fazer com que o padre abusivo produza empatia ─ uma empatia que incomoda, que obriga a ver a vítima nos olhos do vilão, que força a enxergar o patético no perverso.

Pedro Almodóvar

[Warner]

Assim como os personagens principais de Má Educação, Pedro Almodóvar estudou em um internato católico para meninos. Com nove anos, começou a fazer perguntas existenciais ─ de onde viemos, qual é nosso propósito ─, cujas respostas não conseguiu encontrar na religião. Perdeu a fé e, mesmo assim, fala de Deus como se existisse. Acredito que ele se decidiu sobre a Igreja, que repudia, mas não sobre Deus. Uma coisa é certa: o elemento satírico em seus filmes é mais sagrado que qualquer aspecto religioso, e Almodóvar vai continuar cutucando essa instituição, entre outras. Ao ser perguntado pela Newsweek, em 2004, se esperava uma reação do Vaticano em relação a Má Educação, respondeu que o mais inteligente seria manterem-se discretos: “caso contrário, vou precisar afiar minha espada”.

por Amanda Péchy
amandapechyduarte@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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