Quatro bons filmes sobre anarquismo

por Leticia Fuentes
lepagliarini11@gmail.com

A filosofia política anarquista é bem mais complexa do que parece e propõe um mundo muito diferente do que conhecemos atualmente. Talvez por isso ela esteja, até hoje, tão rodeada de pré-conceitos e mal entendidos, como a frequente associação entre a anarquia e a desordem, que não necessariamente andam acompanhadas. Pensando nisso, o Cinéfilos preparou esta pequena lista com 4 filmes imperdíveis que abordam direta ou indiretamente o tema do anarquismo e apresentam diferentes visões sobre ele.

A quebra do sistema

O Sistema (The East, 2013), apesar de parecer apenas um filme hollywoodiano qualquer, é um suspense de tirar o fôlego. O longa conta a história de Jane (Brit Marling), uma funcionária de uma empresa de inteligência norte-americana que recebe a tarefa de se infiltrar em um grupo de anarquistas chamado “The East”. O grupo ficou conhecido após uma série de ataques terroristas a grandes empresas que obtinham lucro prejudicando as pessoas, os animais e o meio ambiente.

No princípio, Jane realmente enxergava os integrantes da organização secreta como terroristas que feriam indivíduos aparentemente sem motivo. Mas, com o tempo, ela começa a desenvolver sentimentos pelos membros do grupo, principalmente pelo líder, Benji (Alexander Skarsgard), por quem se apaixona. Sua lealdade é testada quando começa a compreender os motivos por trás dos ataques e a realidade cruel que os jovens tentam combater.

Dentre todos os aspectos interessantes do longa, com certeza o que ganha maior destaque é a oposição entre forma com a qual o grupo é retratado e a expectativa de quem assiste. Apesar da violência que praticam, os membros da organização são acolhedores e respeitosos entre si, mostrando que não é necessário nada além do companheirismo para construir uma sociedade organizada – que, aliás, opõe-se fortemente ao caos representado por tudo que é externo a ela.

Trailer:

A vingança de V

Quando o assunto é anarquismo no mundo do cinema, V de Vingança (V for Vendetta, 2005) é um dos filmes mais famosos e aclamados. Não é à toa que a máscara usada por V, o justiceiro que já fazia sucesso nos quadrinhos, ficou consagrada como um símbolo da liberdade, sendo adotada, inclusive, por grupos anarquistas e outros contrários ao sistema de governo atual.

Situado em Londres, em uma sociedade distópica de um futuro não muito distante, o longa conta a história e Evey (Natalie Portman), uma jovem comum que tem sua vida salva pelo herói mascarado, V (Hugo Weaving). Depois do encontro, durante um ataque à emissora em que trabalhava, Evey ajuda o justiceiro a escapar e é obrigada a viver com ele durante algum tempo, fugindo das autoridades.

A Inglaterra da época vivia sob uma ditadura, comandada pelo alto chanceler Adam Sutler. Nessas circunstâncias, V encontra a oportunidade perfeita de materializar sua vingança contra o sistema que lhe fez mal no passado, um governo mentiroso e corrupto. Ele pretende, precisamente no dia 5 de novembro, concretizar a ideia cujos criadores não conseguiram realizar: explodir o Parlamento inglês. A data foi escolhida por coincidir com a “Conspiração da Pólvora”, uma revolta de católicos ocorrida na Inglaterra em 1605, em que Guy Fawkes – o homem cujo rosto deu origem à máscara usada por V – foi descoberto com 36 barris de pólvora e condenado à forca. Os rebeldes pretendiam assassinar o rei Jaime VI da Escócia e I da Inglaterra, explodindo a Câmara dos Lordes no dia da cerimônia de abertura do Parlamento.

V é um revolucionário carismático, embora use a violência para pregar suas ideais de liberdade. Apesar de nunca mostrar suas feições, deixa claro que possui um lado sensível em seu modo de agir com Evey.

O longa recebeu duras críticas por parte de alguns grupos, já que o diretor retirou da adaptação cinematográfica discursos declaradamente anarquistas que V fazia nos quadrinhos dos anos 80, os quais levavam o mesmo título do filme. Apesar disso, a essência da história é preservada, e o longa traz uma emocionante aventura de jutiça, liberdade e revolução.

Trailer:

Ataque um e eduque cem

Os Edukadores (Die Fetten Jahre sind vorbei, 2004) é um filme teuto-austríaco que conta a história de três jovens ativistas anticapitalistas que vivem em Berlim. Jan e Peter são amigos de infância e vivem juntos; demonstram sua indignação frente ao sistema de forma pacífica, invadindo mansões de grandes magnatas e mudando os móveis de lugar, sem roubar nada. Jule, namorada de Peter, trabalha como garçonete em um restaurante chique e vive uma situação financeira preocupante, depois de ter contraído uma enorme dívida ao bater no carro de um milionário.

Quando é despejada de sua casa por não conseguir pagar o aluguel, Jule é obrigada a se mudar e passa a viver com uma amiga. Como Peter viaja a Barcelona, Jan se encarrega de ajudar a namorada do amigo com a mudança, e os dois acabam se envolvendo emocionalmente. Um dia, Jan resolve contar a verdade a Jule sobre as atividades que ele e Peter realizavam durante a noite e sobre o grupo que fundaram, Os Edukadores.

Empolgada com a ideia, Jule convence Jan a invadir a casa do magnata a quem deve, mas ela acaba deixando o celular no local ao fugir da polícia. Na noite seguinte, quando os dois tentam voltar para buscar o aparelho, são surpreendidos pelo dono da casa, que reconhece Jule. A dupla não vê outra saída se não contar a verdade a Peter e sequestrar o magnata, que fica confinado sob a vigia do trio numa casa escondida no meio da floresta.

Apesar de o filme assumir diversas interpretações e nunca deixar explícito se os jovens são verdadeiramente anarquistas, a ideia de liberdade, igualdade e cooperativismo, além das críticas ao sistema atual, estão sempre presentes nas falas dos três companheiros. É realmente uma aventura emocionante.

Trailer:

Fora de controle

Provavelmente um dos filmes mais excêntrico desta lista, Febre do Rato (2012) é, ao mesmo tempo, belo e chocante. As imagens, em preto e branco, ora mostram cenas encantadoras de Recife, a capital pernambucana, ora conduzem o espectador através do mundo de Zizo (Irandhir Santos), um poeta anarquista inconformado com as injustiças ao seu redor. O protagonista mantém sozinho um pequeno jornal, chamado Febre do Rato, que distribui para a comunidade local. O próprio título do periódico remete a uma expressão típica do Nordeste, usada para indicar que algo está fora de controle – uma metáfora aparente para Zizo, mas que, no contexto do filme, significa exatamente o contrário.

Em um mundo onde fumar maconha e fazer sexo se tornam coisas tão banais, o poeta conhece Eneida (Nanda Costa), uma jovem estudante, por quem logo sente uma forte atração. Ela, apesar de estar também interessada, se recusa a manter relações sexuais com ele por provocação, brincando com seus sentimentos, fazendo de seu desespero sua maior fonte de prazer; enquanto ele fica completamente obcecado pelo desprezo afetivo da jovem.

O filme apresenta inúmeras referências ao anarquismo, seja nos próprios discursos do poeta, seja na liberdade em que vivem as pessoas da comunidade. Alguns espectadores, mais atentos, percebem também que o próprio cenário traz elementos relacionados ao tema, como, por exemplo, um cartaz do teórico Mikhail Bakunin, o pai da filosofia anarquista, que aparece em algumas cenas na oficina de Zizo.

Apesar de interessante, o longa traz várias cenas de nudez e de sexo explícito, o que pode não agradar a espectadores que ficam desconfortáveis frente a tais imagens. A intenção do diretor é justamente retratar o ser humano como um animal, e retirar do sexo qualquer tipo de nobreza ou idealização. Tanto a questão política descrita quanto a questão humana estão muito bem retratadas no filme, e, por isso, vale muito a pena conferir.

Trailer:

Comentários (1)