Quem não pula…

Patrícia Chemin 

O ano é 1973, às vésperas do fim do governo de Salvador Allende no Chile. O país dividia-se entre aqueles que apoiavam o presidente e aqueles que defendiam sua derrubada, os direitistas. É nesse contexto que se passa o filme Machuca (Machuca, 2004), de Andrés Wood. No entanto, esse período de plena revolução pelo qual o Chile passava é o cenário para a história de dois garotos de onze anos de idade.

O Padre McEnroe, diretor do Saint Patrick, um colégio inglês para garotos da elite de Santiago, decide democratizar o acesso a essa escola. Para isso, abre vagas gratuitas para meninos de classes baixas. Essa medida traz desavenças entre os alunos ricos e os alunos novos. Entre os alunos engravatados e os alunos de roupas velhas e rasgadas. Um dos principais alvos dos “valentões” do colégio é Pedro Machuca. Mesmo assim, ele e Gonzalo Infante, um menino rico que mora em um bairro de elite, dão início a uma amizade improvável naquele contexto.

Gonzalo acha nessa amizade uma forma de escapar da hipocrisia de sua família. É entre passeatas, gritos e vendas de bandeirinhas partidárias que Gonzalo se envolve cada vez mais com vidas tão diferentes da sua própria. O abismo entre as realidades dos dois garotos mostra-se cada vez maior. No país, há uma escassez de alimentos e apenas aqueles que têm dinheiro conseguem alguma coisa no mercado negro. Não só as origens diferentes de Pedro e Gonzalo são um obstáculo, mas também as posições políticas de suas famílias.

Quando a junta militar, que precede a ditadura de Augusto Pinochet, toma o poder, os abismos tornam-se ainda maiores. Começa uma nova realidade, na qual a cor do cabelo e a marca do tênis são uma forma de proteção contra a violência geral. O filme explora com sensibilidade como uma amizade tão inocente pode ser capaz de sobreviver a tanta brutalidade.

Machuca é uma ótima obra do cinema latino-americano. Ganhou prêmios em diversos festivais de cinema, como o Festival Internacional de Cine de Valdivia e o Vancouver International Film Festival, ambos em 2004.

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