A ficção científica e a crítica real de A Repartição do Tempo

A Repartição do Tempo (2016) é um filme que mistura viagem no tempo, comédia e crítica social. É um filme ousado por adentrar um campo pouco explorado pelo cinema nacional, o da ficção científica, e inteligente por abordar de forma satírica e muito crítica diversos problemas nacionais, que não poderiam fazer mais sentido em um momento de crise política institucionalizada.

Com direção de Santiago Dellape, a trama do filme se passa em Brasília. Lá existe uma das sedes do REPI (Registro de Patentes e Invenções), um órgão público fictício responsável por, como o próprio nome sugere, patentear novas invenções de qualquer brasileiro que assim deseje. Porém, a burocracia e a morosidade da instituição sediada na capital do país é tamanha que as patentes demoram de 8 a 15 anos para serem validadas.

A Repartição do Tempo

Dr. Brasil (Tonico Pereira) e sua poderosa invenção. Divulgação.

Em um certo dia, um senhor, o Dr. Brasil (Tonico Pereira), dirige-se até o local para patentear uma máquina do tempo. O funcionário, que o atende em tom de deboche, simplesmente leva a máquina para os fundos da repartição. Neste mesmo período, o REPI de Brasília torna-se capa de revista por ser líder em morosidade e tempo de espera dentre todas as cinco sedes, que se encontram em várias capitais do país. O psicopata chefe dessa repartição, Lisboa (Eucir de Souza), ataca os funcionários e hipocritamente exige maior produtividade (já que ele mesmo fica o dia trancafiado em seu escritório sem produzir). E é aí que a máquina do tempo entra na estória.

Ao observar as câmeras de segurança da repartição, Lisboa descobre, ao ver um funcionário examinando a máquina, que ela é capaz de duplicar qualquer pessoa, criando variações temporais dos indivíduos. Assim, ele tem uma ideia doentia: duplicar seus funcionários para duplicar a produtividade.

A Repartição do Tempo

Eucir de Souza interpreta Lisboa, chefe que ultrapassa os limites. Divulgação.

Em um fim de expediente, Lisboa inventa uma “licença premium” para todos os funcionários, e logo em seguida traz bebidas para que eles comemorem. Os trabalhadores estranham a princípio, mas participam da comemoração — e, ao final da noite, todos desmaiam devido a algo inserido nos comes e bebes por Lisboa. Neste momento, o chefe aproveita para duplicá-los.

Posteriormente, todos acordam em um lugar que descobrem ser um abrigo nuclear do REPI, no qual não acham saída e são obrigados a trabalhar em troca de água e comida. Porém, um dos funcionários, Jonas (Edu Moraes) consegue sair pela tubulação e descobre todo o plano de Lisboa pois vê cópias de todos seus amigos (e inclusive de si mesmo) fora do cárcere trabalhando normalmente, e a partir daí começa sua luta para tentar tirar seus colegas de trabalho desse cárcere e fazer com que as pessoas acreditem nele.

A Repartição do Tempo

Jonas (Edu Moraes) faz de tudo para desmascarar a trama de Lisboa. Divulgação.

A ficção científica de A Repartição do Tempo no sentido de criar variações temporais a partir de uma máquina do tempo é bem elaborada. Interessante notar, ainda, que essa trama serve de instrumento para as críticas sociais. São criticadas a burocracia e  a morosidade estatais, na demora excessiva pela liberação da patente. É pontuado também o trabalho escravo, já que Lisboa pensou apenas na produtividade a qualquer custo como se os fins justificassem os meios, a ponto de ter a ideia insana de trancafiar seus funcionários para que eles trabalhassem obrigatoriamente em troca de água e comida. É criticada a hipocrisia de um chefe que exige produtividade mas não é nada exemplar. E é claramente criticada, ainda, a corrupção e o nepotismo, já que a mãe de Lisboa nada mais é que senadora da República, o que sugere que esta certamente teve influência na nomeação do filho para o cargo (e ele também havia trabalhado em seu gabinete).

A Repartição do Tempo tem aquela pegada de anos 80 ao escolher a trama da viagem no tempo — entender quais são as variações temporais reais e quais são cópias pode parecer confuso como pode ser comum em filmes com viagens no tempo, como De Volta Para O Futuro (Back to the Future, 1985). Mas, ao mesmo tempo, é muito atual por tratar de problemas e questões tão presentes no cenário nacional.

O filme estreia em 25 de janeiro. Confira o trailer!

E, no mesmo embalo, se você curte filmes de viagem no tempo, não deixe de conferir o resultado dessa enquete realizada pelo Cinéfilos em 2015 com várias dicas de filmes com essa trama!

por Thais Navarro
thaisnavarro@usp.br

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