The Rocky Horror Picture Show: Trash é o Novo Cult

No mundo cinematográfico, as paródias parecem estar fadadas ao gênero trash – vide a franquia de gosto duvidoso Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2000). Um longa que se propõe a parodiar os filmes B de terror e ficção científica dos anos 1950 é, portanto, trash por excelência. Mas, algumas vezes, o roteiro e produção propositalmente ruins e escrachados, fazem um filme assim cair na graça do público. É o caso do musical The Rocky Horror Picture Show (1975), que com seus figurinos exuberantes, atuações brilhantemente despretensiosas, efeitos especiais baratos, músicas chiclete, um alinhamento excepcional de cosmos e a ajuda de uma dobra no tempo, transcendeu o universo de filmes meramente ruins e se tornou um clássico cult.

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Janet Weiss (Susan Sarandon) e Brad Majors (Barry Bostwick) são um casal típico da família tradicional americana. Após participarem da cerimônia do casamento de amigos, Brad declara seu amor e pede a mão da moça em casamento, que ela, alegremente, aceita. Eles decidem, então, ir até a casa do professor que ministrou o curso no qual eles se conheceram para contar a boa notícia. No caminho, em meio a uma chuva torrencial, os dois se veem  numa rua sem saída com um pneu furado e vão até um castelo macabro pelo qual haviam passado para usar o telefone e pedir ajuda. Eles são recebidos por Riff Raff (Richard O’Brien), um estranho mordomo, que os conduz até o salão de festas onde excêntricos convidados comemoram algo com uma dança que Brad e Janet nunca haviam visto – a Time Warp, ou dobra do tempo, em português.

Quando o casal entra no castelo, seu mundo organizado e em cores pastéis é confrontado por um universo totalmente diferente. O choque é intensificado pela chegada do dono da casa e anfitrião da festa, Dr. Frank N. Furter (Tim Curry), um cientista que se autointitula “doce travesti de Transexual, na galáxia de Transilvânia”. Frank convida o casal a ir até seu laboratório, onde ele revelaria seu novo experimento. Antes, no entanto, ordena que seus empregados tirem dos visitantes suas roupas molhadas – que não são substituídas.

No laboratório, o cientista anuncia que descobriu o segredo da vida e havia criado um homem para seu próprio entretenimento, o musculoso, porém ingênuo, Rocky. A partir daí, Brad e Janet, seduzidos por Frank, acabam sendo cada vez mais envolvidos nos acontecimentos do castelo, como assassinatos, fugas, disputas amorosas, embates entre cientistas e até em um revelação de invasão alienígena, em meio a cenas nonsense, números musicais e referências históricas e a campanhas publicitárias da época.

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The Rocky Horror Picture Show, que foi baseado na peça de teatro The Rocky Horror Show, escrita por Richard O’Brien (que interpreta Riff Raff) em 1974, um fiasco de bilheteria. Ele chegou a ser banido em vários países devido a cenas fortes, como a da morte de um interesse amoroso de Frank, cujo corpo depois é servido por Frank em um jantar. Quando o filme entrou em cartaz nas sessões da meia-noite em grandes cidades, ele começou a atrair um público maior e adquiriu um séquito de fãs dedicados, que passaram a participar do filme, encenando algumas partes enquanto eram exibidas. O longa continua em cartaz em alguns cinemas até hoje, nos quais a audiência é encorajada a participar do filme e recebem kits com itens que auxiliam na caracterização para que possam reproduzir cenas icônicas.

Sobretudo, o filme se consagrou como referência de cultura pop. É muito comum encontrar pessoas fantasiadas como as personagens durante o Halloween no hemisfério norte. Além disso, vários programas de TV, como Glee e That 70’s Show citaram e reproduziram partes de The Rocky Horror em seus episódios. Também, no filme As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012), baseado no livro homônimo de Stephen Chbosky, os protagonistas fazem parte de um grupo que participa das encenações do filme no cinema. Algo semelhante ocorre no musical Fama (Fame, 1980), quando é apresentada uma das músicas originais do longa.

Em outubro de 2016, o canal FOX lançou um remake para a televisão do filme, que conta com Laverne Cox como Frank N. Furter e Tim Curry como o narrador criminologista que apresenta a história. Ainda que o anúncio da nova versão, intitulada The Rocky Horror Picture Show: Let’s Do The Time Warp Again (2016), tenha animado os fãs, a execução dividiu opiniões, mesmo que tenha pontos positivos e negativos. Os pontos positivos da nova produção incluem as versões das músicas, que têm com as mesmas letras, mas que foram modernizadas, talvez para agradar os ouvidos dos millennials. Há, também, momentos do filme em que ele aparece em exibição em um cinema, enquanto a plateia interage com ele, assim como acontece até hoje nas exibições do original ao redor do mundo. Isso evidencia uma preocupação dos produtores em reconhecer e trazer para essa versão um pouco da cultura que cerca The Rocky Horror.

O novo elenco também faz, no geral, um bom trabalho. Ainda que os mocinhos Brad e Janet estejam ainda mais enfadonhos nessa versão, o maior destaque entre os atores é Reeve Carney, que interpreta um Riff Raff com ares de rockstar e – pasmem – charmoso. Laverne Cox também não desaponta, mas seu Dr. Furter só pode ser devidamente apreciado se conseguirmos separá-lo do de Tim Curry, ao invés de conpará-los. No entanto, o filme, no geral, acaba pendendo mais para o trash e menos para o cult, e perde um pouco da magia que cerca o original de 1975. Tal aspecto fica claro principalmente nos números musicais, coreografados de maneira que lembram episódios da série Glee ou dos filmes High School Musical (2006-2008), da Disney. Além disso, algumas das referências mais icônicas do longa, como a cena da dança de Time Warp, foram, infelizmente, muito alteradas

The Rocky Horror Picture Sow: Let's Do The Time Warp Again

Cena do remake ‘The Rocky Horror Picture Sow: Let’s Do The Time Warp Again’, com Laverne Cox (Foto: Reprodução/Fox)

Desde seu lançamento, na década de 1970, até hoje, muitos críticos de cinema, fãs e cinéfilos tentam explicar por que um filme com um orçamento tão baixo e feito basicamente para ser ruim fez tanto sucesso e se tornou um clássico cult, algo que muitas grandes produções não conseguem alcançar. Talvez uma resposta para isso seja que as características bizarras do longa são justamente o que o torna tão querido. Às vezes o que queremos é assistir a um filme que nos faça esquecer da realidade. Um pouco diferente, despretensioso e descomplicado, com diálogos sarcásticos, trilha sonora divertida e que ensine coreografias malucas. E isso é exatamente o que The Rocky Horror Picture Show nos oferece.

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por Mariana Rudzinski
marianarudzinski71@gmail.com

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