Os múltiplos significados de Saudade em um documentário poético

“Saudade é ser, depois de ter”, a frase de Guimarães Rosa é o que finaliza o longa Saudade (2018), do diretor brasileiro Paulo Caldas. O documentário se propõe a mostrar os múltiplos significados da palavra saudade em países falantes da língua portuguesa como Portugal, Brasil e Cabo Verde.

No início do longa temos a visão teórica a respeito do significado desse sentimento através da fala de um filósofo e um historiador que se baseiam naquilo que já foi dito por teóricos antigos e contemporâneos. Já no seu desenvolvimento, temos a perspectivas de diversas pessoas conhecidas no Brasil, como Arnaldo Antunes, Johnny Hooker, Milton Hatoum e Alex Flemming. O elenco também conta com a presença de pessoas nativas dos outros países, que dão sua visão individual a respeito do sentimento de saudade.

(Imagem: Divulgação)

Se engana aquele que acredita que o longa se reduzirá a abordar apenas a questão da morte, que, apesar de ser intimamente ligada à palavra, é abordada de forma mais rápida no contexto do filme. Apesar dessa rapidez na abordagem da morte, é um momento que deixa o espectador sem saber reagir. Há relatos de pessoas que perderam seu pai, seu filho mais velho e o caso de um aborto.

De forma poética, Paulo Caldas consegue mostrar as diferentes formas e possibilidades existentes de entender ou mesmo sentir a saudade. Com uma delicadeza notável, há relatos que nos tocam e nos fazem refletir sobre como vemos, entendemos e vivenciamos esse sentimento. De forma encadeada temos a visão de artistas plásticos, teóricos, escritores, dramaturgos, entre outros, sobre a sua visão pessoal e artística sobre como entendem a questão da saudade em sua vida e obra.

Saudade não se limita a abordar apenas uma perspectiva do significado da palavra. Ele vai fundo para demonstrar as numerosas oportunidades em que ela  pode se inserir, a partir das diferentes vivências e experiências de pessoas de lugares diferentes. Além de mostrar as várias possibilidades de significados, o roteiro também trabalha com a relação que a história pode ter com a palavra saudade, ao demonstrar a questão no contexto da história portuguesa.

A saudade é algo muito presente na história de Portugal por conta das navegações que faziam com que as pessoas que embarcavam ficassem muito tempo fora de casa, acarretando esse sentimento que até hoje é muito presente na vida dos portugueses, que acabam tendo essa melancolia com relação ao termo. Por essa relação da palavra com a saudade de quem viajou de navio, o mar acaba sendo uma cena bastante frequente no filme.  

(Imagem: Divulgação)

A fotografia dá a sensação de proximidade, com a presença de planos fechados nas pessoas que estão falando os seus relatos provocando um sentimento intimista entre o falante e o espectador, como se fosse uma conversa informal. Também há a presença de muitas cenas rápidas que demonstram um pouco da cultura de cada país que é representado na filmagem, demonstrando que, mesmo sendo países diferentes, eles possuem muitas características em comum, entre elas, a saudade. O longa também conta com cenas de danças contemporâneas e encenações artísticas que, em conjunto com a narrativa dita durante a passagem dessas imagens, trazem um encanto e um viés ainda mais poético à obra. Ainda nesse quesito, o filme possui cores mais frias que dão a sensação de melancolia e,  em alguns momentos, de angústia para o espectador.

(Imagem: Divulgação)

Outro ponto que chama a atenção é a questão da qualidade da trilha sonora presente no longa. As canções selecionadas são todas de língua portuguesa, e são mais uma forma de apresentar, por meio da música, a cultura existente nos países retratados, mostrando alguns pontos culturais e únicos de cada lugar, gerando uma identificação.

O documentário Saudade é um longa que faz, mesmo que por um breve momento, com que o espectador pense em sua forma de ver a palavra que dá nome ao filme. Ele traz, por meio das mais diversas linguagens, de pessoas comuns e uma visão artística transmitida por meio da fala de músicos, escritores, dramaturgos, pintores, artistas plásticos, suas imensas possibilidades de significado. Faz com que nós que estamos vendo o filme pensemos sobre como é a saudade sobre nossa perspectiva e, até mesmo nos acontecimentos da nossa vida que provocam esse sentimento.

Sem qualquer tipo de redução da palavra, Saudade vai provocar melancolia mas, ao mesmo tempo, a sensação de liberdade, pois Paulo Caldas deixa mais que visível que não é possível reduzir um sentimento tão grande, muitas vezes sem uma definição por aquele que sente, em apenas um significado. O longa consegue, de forma primorosa, juntar a individualidade e significado que diferentes pessoas em diferentes situações e contextos, em um filme de linguagem tão poética. Mostra que a saudade pode nos causar dor, mas também pode ser um sentimento de uma lembrança que, mesmo doendo, pode provocar um riso sincero de alegria por bons momentos vividos.

O filme chega aos cinemas no dia 18 de janeiro. Confira o trailer:

por Beatriz Gomes
beatrizgomesf9@gmail.com

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