Séries e Filmes: Dois universos, mesmos personagens

por Luis Henrique Franco
luligot17@gmail.com

O cinema faz parte da história do mundo há mais de um século e, durante boa parte do tempo, foi o principal expoente do entretenimento. Por volta das décadas de 1950 e 1960, a disseminação da televisão mudou tal cenário, levando inúmeros programas e novas personagens a casa de seus usuários. Tendo convivido por pelo menos 60 anos, um dia o mundo da televisão e do cinema entrariam em choque.

Com o surgimento da internet e serviços de stream, os seriados têm sido cada vez mais acompanhadas pelo público em geral e cresceram tanto em número, como em qualidade, o que chamou a atenção de atores e produtores do cinema. Assim, o universo dos filmes e das séries rapidamente se chocou, e muitas personagens passaram ser representados em ambos os meios midiáticos.

Uma das formas como as personagens do cinema entraram no mundo dos seriados foi através de prequels – histórias que se passam antes dos filmes e mostram as origens da personagem até que se atinja o ponto em que primeiro as conhecemos. É o caso de Hannibal, série que conta as origens do relacionamento entre o agente do FBI Will Graham (Hugh Dancy) e o doutor Hannibal Lecter (Mads Mikkelsen), um psicanalista e serial-killer com o hábito de praticar canibalismo com suas vítimas. Lecter é famoso pelo filme O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991), em que é interpretado por Anthony Hopkins. O ator voltou a encarnar a personagem em Dragão Vermelho (Red Dragon, 2002), no qual auxilia Will Graham (Edward Norton) na resolução de uma série de crimes doentios. A série mostra o início da relação entre Hannibal e Will, desde antes da prisão do doutor e seus primeiros crimes, investigados pelo próprio Graham.

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As duas versões mais conhecidas de Hannibal Lecter: a interpretação de Anthony Hopkins (acima) em O Silêncio dos Inocentes e a de Mads Mikkelsen na série Hannibal (abaixo)

Outra famosa prequel é Bates Motel, que retoma a icônica história do longa de Alfred Hitchcock, Psicose (Psycho, 1960). Ambientado nos dias atuais, a série traz para o público um Norman Bates jovem (Freddie Highmore) e conta o desenrolar de sua relação com a mãe obcecada, Norma (Vera Farmiga).

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Freddie Highmore (a direita) traz nova vida ao personagem Norman Bates, interpretado por Anthony Perkins (a esquerda) em 1960. Foto: Reprodução

Uma fonte inesgotável de inspiração para filmes e séries são os quadrinhos de super-heróis. Este é o local onde o confronto entre os dois meios é mais acirrado, pois se por um lado o cinema cria franquias milionárias para as personagens mais conhecidas, por outro é a televisão quem nos introduz à história de membros menos famosos desse universo, que não foram bem retratados ou não tiveram a mesma importância nos filmes.

Demolidor, por exemplo, conseguiu atrair maior atenção do público, se comparado ao filme da mesma personagem feito em 2003,  considerado um fracasso de público. A série conseguiu retratar melhor o herói, sua história, dilemas e relações, por possuir um tempo maior de duração.

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Outra série de super-heróis muito famosa atualmente é Flash, que conta a história do famoso velocista da DC Comics desde o acidente que lhe concedeu seus poderes, mostrando a luta contra outros velocistas e as demais pessoas afetadas pela explosão de um laboratório. Um filme sobre o herói – protagonizado por Ezra Miller, não Grant Gustin, como na série – está sendo realizado, com a previsão de estrear em 2018, quatro anos após o começo da série.

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Ezra Miller em uma das primeiras imagens como The Flash. Foto: Divulgação

Séries como Flash e Demolidor fazem parte de uma nova estratégia empregada tanto pela Marvel quanto pela DC Comics. Ambas as empresas já se consolidaram no universo cinematográfico com suas franquias sobre os heróis mais populares, como Os Vingadores, Batman e Superman, e agora se voltam para a mídia televisiva, como uma forma de expandir ainda mais seu universo, incorporando alguns heróis que, apesar de conhecidos, não tinham tanto destaque antes de seus seriados. Do lado da DC, sucessos como Arrow, Supergirl e Legends of Tomorrow abrem espaço para grandes expectativas sobre o universo cinematográfico, que se aproxima com produções como Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017) e Liga da Justiça (Justice League, 2017).

Mas então nos deparamos com o maior problema das séries e filmes sobre o mesmo personagem ou o mesmo universo: como atrair o público para assistir a dois projetos diferentes, mas que contam exatamente os mesmos acontecimentos? Nos últimos anos, quando o advento dos seriados se tornou mais notável, ficou clara a influência que o cinema pode ter nesse tipo de produção. Mas o uso de materiais já produzidos como fontes de inspiração pode se mostrar prejudicial, porque quando as histórias começam a se tornar por demais repetitivas, o público perde o interesse.

Conhecer a história de personagens como Norman Bates e Hannibal Lecter é muito interessante, mas quando estas personagens se tornam extremamente comuns em todos os universos de entretenimento, acabamos por nos perguntar aonde foi parar a inspiração dos produtores. Já é difícil gostar de franquias iguais, que tratam temáticas da mesma maneira e possuem roteiros idênticos. Mas quando esse problema começa a ser transportado para as séries, o mundo do entretenimento perde muito seu poder sobre o público.

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