Silêncio – eis o mistério da fé

Em 1979, Francis Ford Coppola lançava o estrondoso Apocalypse Now, obra que acompanhava Willard (Michael Sheen) em busca do comandante renegado Kurtz (Marlon Brando) no meio da Guerra do Vietnã. Conforme Willard adentrava mais pelas veredas do país asiático, mais ele se questionava sobre patriotismo e militarismo, deixando pouco a pouco aquilo que antes acreditava. Já em 2016, baseado no romance homônimo de Shusaku Endo, Martin Scorsese dirige Silêncio (Silence, 2016), filme que segue uma dupla de jesuítas portugueses (Rodrigues, Andrew Garfield; e Garupe, Adam Driver), à procura de seu antigo mentor e agora padre renegado (Ferreira, Liam Neeson) dentro do Japão imperial. Da mesma forma, enquanto avança em território estrangeiro catequizando os japoneses, mais ambos se questionam sobre o catolicismo e o propósito de Deus a seus seguidores, perdidos assim em sua própria missão jesuítica na ilha. Se lá o teor bombástico e apocalíptico expresso no título espelhava a insanidade da obra, aqui a sobriedade e silêncio figuram tão repressivos quanto.

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Por conta disso, é importante ressaltar logo de cara o uso (ou ausência) do som. Mesmo que uma sutil trilha sonora às vezes dê as caras, o som é diegético (o mesmo que as personagens ouvem). No começo, os barulhos se dão em torno da natureza (do crispar de um gafanhoto a água do rio), que é pouco a pouco substituído pelos cânticos de ode e pelos gritos de sofrimento. Basicamente, o que o mixador de som Tom Fleischmann faz é expor sonoramente as consequências de uma interferência ocidental no Japão, que transforma serenidade em dor, e traz o espectador para mais perto dos dilemas do protagonista (em determinado momento, Garupe se separa, e seguiremos então com Rodrigues).

Dilema este que impera desde as primeiras falas da dupla. É claro que a motivação da ida ao Japão revolve ao resgate do mentor, mas por trás disso, há também todo o questionamento em volta da legitimidade da catequização. A mensagem missionária e universal é uma das bases do sucesso do catolicismo, e por mais bela que elas sejam, as consequências do etnocentrismo podem ser – como muitas vezes e aqui também foi – devastadoras: a rejeição leva a guerras. E se por um lado, por tomarmos o ponto de vista dos ocidentais, temos dó da censura imposta pelo Império Japonês – personificado na figura de Inoue (Issei Ogata) –, por outro, esquecemos que a motivação inicial dos jesuítas também esconde semelhanças – de maneira logisticamente menos violenta, mas tão, se não mais, socialmente falando.

Não à toa, é relevante perceber como os japoneses ganham nomes ocidentais quando são batizados, assim como os jesuítas recebem outros japoneses, quando renegam à religião – pequenas marcas do silenciamento do outro. Mas o impasse se complexifica ainda mais quando uma das personagens diz que os japoneses não creem em Deus, mas em uma ideia daquilo que eles tomavam por religião antes, e pior, que o que eles adoram também não é a Ele, mas sim aos próprios padres. Crendo ou não nisso, os dilemas suscitados tornam a perseguição e martírios sofridos pelos japoneses mais doloridos. Como Inoue pontua a Rodrigues em uma de suas frases, “o preço da sua glória é o do sofrimento deles”.

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Quanto a isso, a composição de Rodrigues é ainda primorosa em assemelhá-lo cada vez mais, e sem exageros, a Jesus Cristo. Com seu cabelo longo, e rosto machucado e esquelético, o dilema em torno do foco da adoração é posto ainda mais à prova, uma vez que o ouvimos repetidas vezes dizer como a experiência é boa a ele – mas será tão boa aos japoneses também?

Essa pergunta planta sementes especialmente na figura de um dos japoneses cristãos, Kichijiro (Yosuke Kubozuka). Tendo perdido a família numa prova de fidelidade a Deus, ele constantemente acata os pedidos do Império, renunciando a fé, para salvar sua pele. Embora sinta culpa e remorsos, e busque sempre a confissão de seus pecados, ele só parece descansar quando obtém o perdão do padre. No entanto, além de representar a dor e o medo de todos os cristãos japoneses (“porque eu não nasci alguns anos atrás, eu poderia ser cristão num tempo que não havia perseguição”), ele é justamente o personagem mais próximo de demonstrar humanidade. De como humanos, erramos, carregamos pecados, e tentamos ao máximo saná-los por uma vida de mais harmonia. Humanos, como os próprios padres.

E aqui percebemos a sagacidade do roteiro, que se por um lado aproxima Rodrigues de Deus, de outro o torna tão falível quanto qualquer ser humano – observe como na cena em que após serem acolhidos, Garupe e ele devoram famintos o peixe, só lembrando de agradecê-lo quando os anfitriões começam a rezar. Por outro lado, essa mesma falibilidade os faz desobedecer uma ordem que felizmente os permite abraçar mais fiéis. Essa mistura de ingenuidade, medo, inexperiência e humanidade tornam os padres muito mais empáticos e seus arcos mais complexos e cheios de significado. Se o mistério da fé reside nessa multiplicidade de sentimentos, é então inteligente que os vemos julgarem, e serem julgados. Se a missão é levar a Palavra de Deus a outras terras, a provação de fato é ver se a Palavra está impregnada neles.

E nisso, ainda é essencial destacar o trabalho do diretor de fotografia Rodrigo Prieto (indicado ao Oscar) na composição de quadros que constantemente parecem simular um olhar divino sobre as personagens – como naquele em que os padres descem uma escadaria enquadrados por uma câmera distante e de cima. Além disso, Prieto ainda confere visualmente o desamparo de Rodrigues, que é ora visto dentre as barras de uma prisão, ora abandonado pela câmera que apenas se afasta e o deixa diminuto em tela.

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Embora mais contido na violência que recheia filmes como Touro Indomável (Raging Bull, 1980) ou Taxi Driver (1976), Scorsese ainda assim tortura o espectador com cenas angustiantes. E se a pergunta que assola os protagonistas durante toda a projeção não for suficiente – é justo que eles se escondam, e causem a morte dos japoneses, ou eles precisam ser poupados para continuar semeando a mensagem? –, Silêncio nos oferece outra muito mais simples em sua formulação, mas complexa em sua resposta: “o que move a fé?”

 

Trailer legendado:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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