A supersimetria de Spike Jonze e Arcade Fire

Quando se discute filmes, a primeira figura que vem à cabeça para ocupar o papel de autor é o diretor (ou diretora). Isso porque, em boa parte dos casos, o diretor é quem tem mais autoridade para decidir sobre o aspecto artístico da obra, e, muitas vezes, é também a pessoa responsável pela criação da história que será contada na tela. Mas levando em consideração a quantidade de profissionais necessários para a produção de um filme, é difícil afirmar que o resultado final é fruto do esforço de uma única pessoa.

Na verdade, o cinema é feito de grandes parcerias e depende delas para dar certo ou não. Em alguns casos, o diretor constrói uma química tão forte com os profissionais que escolhe para trabalhar que essas parcerias se tornam recorrentes e resultam em filmes extremamente singulares, que não poderiam ser feitos caso não fossem as mesmas pessoas envolvidas. Foi o que aconteceu entre o diretor Spike Jonze e a banda canadense Arcade Fire.

Spike Jonze e Arcade Fire

Spike Jonze com os atores durante a gravação do curta Scenes From the Suburbs. Imagem: reprodução

Segundo o diretor explicou em entrevista ao site Digital Spy , ele conheceu a banda ainda em seu primeiro disco, Funeral, de 2004, e após o lançamento do disco seguinte, Neon Bible, filmou alguns de seus shows. Já os conhecendo melhor, Jonze pediu permissão à banda para usar uma de suas músicas no trailer de Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009).

O filme é sobre o pequeno Max, garoto um tanto problemático que um dia foge de casa após se desentender com a mãe. Em sua mente infantil viaja para um lugar imaginário onde encontra criaturas na mesma medida fofas e assustadoras. Max é uma criança que tem medo de encarar o mundo como ele é e não consegue aceitar o fato de não ter todas as coisas sob seu controle. A história acompanha seu lento processo de amadurecimento e tem tudo a ver com a música escolhida, Wake Up, uma lamentação a respeito de como a vida adulta é amarga quando comparada às doces alegrias da infância.

Pouco tempo depois, em 2011, foi a vez do Arcade Fire pedir a colaboração de Spike Jonze em um novo projeto. Eles haviam acabado de lançar o álbum The Suburbs, que rendeu o Grammy de melhor do ano e os colocou de vez no radar da crítica musical como uma das melhores bandas em atividade. Jonze foi convidado a dirigir e corroteirizar o curta Scenes From the Suburbs (2011), uma síntese visual e narrativa das ideias que permeiam o álbum.

O filme se passa em uma espécie de realidade distópica em que a presença de tropas militares, vigilância constante e doses de violência são comuns à vida de moradores de um bairro suburbano dos Estados Unidos. Não fica claro o que exatamente causou os conflitos armados, nem a lógica sob a qual aquelas cidades funcionam o que não faz falta alguma, já que esse é apenas o plano de fundo. O que importa é a história de dois jovens amigos que vão, aos poucos, tornando-se estranhos um ao outro por causa dos problemas do ambiente hostil que os cerca.

Com cerca de 30 minutos de duração, Scenes From The Suburbs funciona como um longo videoclipe. Não que os diálogos sejam dispensáveis (no geral eles são ótimos), mas são a música e as imagens que falam mais alto e atingem diretamente o espectador. Trata-se de um filme sobre memórias, e ele é feito como tal: à medida que o protagonista/narrador conta sua história, ela vai sendo reproduzida por meio de imagens um tanto confusas, conversas nas quais é difícil compreender o que é dito, como em lembranças entrecortadas.

Sombrio e pessimista, a produção consegue despertar os sentimentos do espectador ainda que não entregue detalhes sobre o enredo ou os personagens, algo difícil de ser feito. Com tom nostálgico, fala sobre a morte metafórica de pessoas e lugares, o momento em que se tornam paisagens distantes mesmo que fisicamente próximos. De certa forma, aborda de maneira mais adulta temas já presentes em Onde Vivem os Monstros.

Spike Jonze e Arcade Fire

Cena do curta-metragem Scenes From the Suburbs. Imagem: Reprodução

Após terem recebido ajuda de Jonze num projeto próprio, foi a vez de a banda novamente retribuir o favor, e a próxima colaboração entre ambos foi um trabalho feito em conjunto para compor a trilha sonora do filme Ela (Her, 2013). Assim, a história melancólica de Theodore (Joaquin Phoenix), que se apaixona pela inteligência artificial Samantha (Scarlett Johansson), ganhou um plano de fundo musical à base de pianos e sintetizadores, na medida certa entre o orgânico e o digital.

Foi a primeira vez que o Arcade Fire se aventurou fazendo trilha sonora de cinema. Segundo o integrante William Butler, em entrevista ao jornal The New York Times, a experiência serviu como uma lição sobre compaixão e empatia, uma vez que para compor músicas para o filme era necessário um esforço de enxergar tanto do ponto de vista do diretor quanto dos personagens. O resultado foi tão bem recebido que Butler foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original no ano seguinte, embora ele afirme que a indicação deveria ter sido em nome de toda a banda e do também músico Owen Pallet, que contribuiu com as composições.

Ao mesmo tempo que o Arcade Fire preparava a trilha sonora de Ela, eles se dedicavam também à composição do álbum Reflektor. Neste ponto fica ainda mais interessante observar o que pode acontecer quando artistas trabalham juntos e permitem intersecções no processo criativo um do outro.

Spike Jonze e Arcade Fire

Em Ela, Theodore (Joaquin Phoenix) se apaixona por um sistema operacional. Imagem: reprodução

Embora pareçam bastante diferentes num primeiro momento, ao pensar sobre Ela e Reflektor com um olhar atento para a história que contam, é possível fazer algumas aproximações entre filme e disco. Dependendo da interpretação que se tem de ambos, pode-se dizer até que funcionam como obras complementares. Reflektor tem como uma das inspirações o mito grego de Orfeu, que vai até o mundo dos mortos para resgatar sua falecida amada. Indo um pouco mais além, o álbum também provoca reflexões sobre a relação atual do homem com a tecnologia (o clipe interativo da faixa-título até convida o espectador a brincar com o tablet ou smartphone para causar esse efeito). Por outro lado, em Ela, o protagonista Theodore projeta o amor perfeito na tela de seu computador e acaba apaixonado por seu sistema operacional (!) justamente enquanto tenta superar o fim de um relacionamento que lhe deixou marcado.

Portanto, não surpreende que uma das músicas compostas para Ela tenha inclusive se tornado parte também de Reflektor. Os versos iniciais da faixa Supersymmetry, que encerra o álbum, poderiam perfeitamente ser uma declaração de Theodore para sua amada Samantha: I know you’re living in my mind / It’s not the same as being alive (Eu sei que você está vivendo na minha mente / Não é o mesmo que estar vivo).

E não para por aí. Também em 2013, Jonze dirigiu uma versão ao vivo  para o clipe da música Afterlife, que foi apresentado na edição daquele ano do YouTube Music Awards. O vídeo traz, mais uma vez, uma personagem — interpretada pela atriz Greta Gerwig, de Frances Ha (2012) — que passa pelo fim de um relacionamento.

Spike Jonze começou a carreira fazendo videoclipes ― dentre os mais conhecidos, ele dirigiu Buddy Holly, do Weezer, e Sabotage, dos Beastie Boys  ―, e por isso a influência da música esteve sempre presente em seus filmes. Mesmo assim, é na parceria com o Arcade Fire que essa relação se torna mais evidente, a ponto de transcender as divisões entre uma coisa e outra, criando algo original. Ainda não existem previsões de novos projetos deles juntos, mas é bom estar atento às atualizações, afinal, uma coisa que já provaram é que são capazes de surpreender positivamente.

por Matheus Souza
souzamatheusmss@gmail.com

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