O que faz um sucesso teen?

 No universo cinematográfico, muitos filmes acabam criando ou conquistando um público específico. Um exemplo disso são as produções destinadas ao público adolescente. Mas com tantos títulos e uma variedade de gostos, muitos desses filmes considerados teens se tornaram apenas uma forma de arrecadar dinheiro pelas produtoras de cinema, através de enredos pouco cativantes e muitas vezes esquecidos pelo seu próprio público. Sendo assim, o que faz um sucesso teen?

O Cinéfilos resolveu ir atrás da resposta, analisando os principais filmes de sucesso entre o público adolescente e descobriu que, mesmo existindo uma variedade de títulos e sub gêneros, há elementos que garantem ou ajudam no sucesso das produções.

Conversamos também com Roberto Franco Moreira, professor doutor da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP). Segundo ele, há elementos no roteiro e produção que cativam o público-alvo, por exemplo, utilizando de referenciais de personalidade do público ou do diretor, a jornada do herói, dilemas da vida adolescente e o marketing pesado. Filmes que têm como tema central triângulos amorosos, grupo de adolescentes atacados por um monstro numa cabana no meio do mato e provas de sobrevivência já são considerados clichês, pois seu público já assistiu algum do gênero e espera algo novo ou inovador.

Temas do “cotidiano adolescente”

Como a grande maioria das produções mais famosas do gênero são estadunidenses, as escolas e faculdades são apresentadas de forma muito idealizada para o público. Cenário esse que acaba se utilizando dos estereótipos clássicos de personagens das high schools desde a década de 1980 com Clube dos 5 (The Breakfast Club,1985) e Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off,1986). Esses estereótipos utilizados, como a patricinha fútil, o atleta, a esquisita, o valentão ou a rebelde, fazem o público se identificar com algum personagem ou grupo principal, criando uma certa recepção pela empatia transmitida. Mas, ao mesmo tempo, unificando e rotulando personalidade dos personagens, como se todo adolescente tivesse que seguir um daqueles arquétipos representados.

Outro ponto muito explorado são as relações familiares, geralmente de início conflituoso, com a reconciliação ao longo do filme. Muitas vezes, a ideia e desenvolvimento desse tipo de roteirização vem de experiências que os produtores já tiveram com seus pais ou filhos, porém, nessas relações, os pais sempre são mostrados como um certo empecilho na vida do personagem principal, que no final acaba arrependido de tudo que fez a eles.

As formas das amizades existentes entre os personagens são muito amplas e acabam se transformando nos pontos altos das películas. Grupos com personagens heterogêneos são formados pelos excluídos da escola ou pelos fora dos padrões, seguindo a ideia de “a Turma do Scooby-Doo sem o cachorro”, que se estranham no início mas acabam criando um laço de amizade em prol de algum objetivo. Em contraposição, estão os grupos homogêneos, possuindo laços de amizade desde o início, passando por situações para provar quão forte esse laço é. Além disso, há a dupla de personagens que se odeiam mas, devido à algum fato importante no início ou no meio do desenvolvimento da produção, acabam aliando-se e tornando-se amigos.

Um aspecto muito utilizado em produções (de maioria da Disney) é quando ocorre a quebra do cotidiano por algum fato muito importante na vida do personagem principal, que vai servir de gatilho para o enredo. Por exemplo a garota comum que se descobre pertencer a uma família real em O Diário da Princesa (The Princess Diaries, 2001), mãe e filha que trocam de corpos em Sexta-feira Muito Louca (Freaky Friday, 2003) ou o casal que fica preso em um filme dos anos 1960 em Teen Beach Movie (2013).

Adaptação de best-sellers para os cinemas

Muitos livros de sucesso entre o público adolescente acabam sendo adaptados para as telinhas a pedidos dos fãs ou pela possibilidade de faturamento pelas produtoras. As sagas de fantasia como Harry Potter e Percy Jackson, universos distópicos (Divergente, Jogos Vorazes, Maze Runner) são as mais exploradas porque já possuem os fãs literários como uma certeza de público (mesmo com o risco de serem duramente criticadas depois por não serem fiéis à obra). Não basta só produzi-las, é preciso utilizar de recursos como atores jovens e em ascensão, bonitos para os padrões e com “idade aproximada” dos jovens, além do marketing de divulgação da película e seus produtos associados para aumentar a receita e lucratividade das editoras dos livros e distribuidoras de filmes. Por exemplo, a Paris Filmes teve um aumento de mais de 249% de sua receita após lançar filmes da série de livros Crepúsculo (Twilight, 2008-2012).

Romances

Triângulos amorosos estão muito presentes nos roteiros dos filmes do gênero, fazendo os espectadores escolherem e torcerem para o seu casal favorito. A apresentação mais recorrente é de um casal heterossexual feito por atores jovens e bonitos que apresentam características que complementam a personalidade um do outro, enquanto a terceira pessoa é o empecilho para o casal. Também são muito baseados nos estereótipos das representações femininas, desde a garota misteriosa e idealizada pelos caras até a inocente e doce princesa. Um sério problema recorrente é o equilíbrio entre o desenvolvimento da narrativa e do romance central, muitas vezes algum desses aspectos acaba prejudicando o outro (um se desenvolve enquanto o outro torna-se forçado e sem profundidade, por exemplo).

Trilha Sonora

Outra forma de cativar o público e ser sucesso é “fisgando pelo ouvido”. Musicais dançantes com melodias e letras chicletes para o público mais jovem tiveram seu início entre o final dos anos 1970 e começo de 1980 com Grease — Nos Tempos da Brilhantina (Grease, 1978) e FootlooseRitmo Louco (Footloose, 1984). A volta das produções desse tipo teve sua retomada de fôlego com o lançamento da trilogia High School Musical (2006, 2007, 2008), apresentando todos os aspectos de um clássico filme adolescente.

Quanto às trilhas sonoras, são utilizadas parcerias entre as gravadoras e distribuidoras, com músicas de artistas já queridos pelo público, em ascensão ou nas paradas do momento. Por exemplo o filme A Culpa é das Estrelas (The Fault In Our Stars, 2014) que possui nomes famosos e recentes da cena musical com Ed Sheeran, Jake Bugg, Birdy e Charli XCX. Essas parcerias não ficam restritas só aos subgêneros românticos, a série de filmes de Jogos Vorazes (The Hunger Games,2012-2015) contou com músicas feitas exclusivamente para os filmes da saga por bandas e cantores já considerados de importância no cenário musical como Coldplay, Of Monsters and Men, Imagine Dragons e Lorde.

Marketing e divulgação

As distribuidoras de cinema sempre estão em busca de uma forma de divulgação que torna seus filmes como a “febre de mercado”. Antes restritos apenas à divulgação por meio de cartazes e propagandas na televisão, cada vez menos os meios de comunicação tradicionais controlam e induzem a conversa nas redes. É preciso tentar atrair a atenção com um produto que os interesse e seja “exclusivo”: redes de lojas de vestuário lançando coleções de algum filme específico lançado naquela estação do ano, chaveiros, brindes, figuras de ação, bottons, bijuterias e tudo mais que for capaz de ser personalizado para a exclusividade do fã.

A ascensão dos youtubers e digital influencers também é utilizada como uma forma de dar visibilidade à produção e atrair o público. Além de ganhar curtidas em seus vídeos ao divulgar a estreia ou comentar sobre um filme, seus seguidores vão ter interesse e assistirão à produção, garantindo seu sucesso.

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