Toda mulher é meio Leila para sempre Diniz

por Heloísa Iaconis
helo.iaconis@hotmail.com

“Toda mulher quer ser amada
Toda mulher quer ser feliz
Toda mulher se faz de coitada
Toda mulher é meio Leila Diniz”

Em sua música Todas As Mulheres Do Mundo, Rita Lee sintetiza, em poucos vocábulos embalados de ritmo, características marcantes de Leila Diniz: o ser feliz e o ser mulher. Leila, sem bandeiras partidárias ou ideológicas, defendeu, com o seu jeito espontâneo e natural, a alegria, o amor livre, a sexualidade feminina, a vida sem hipocrisia e a liberdade. “Leila acreditava na liberdade no sentido mais amplo: todo mundo tinha o direito de viver como quisesse. Isso incluía não apenas a liberdade de chamar um homem para a cama, ter sete namorados por semana, escolher o pai de sua filha sem precisar casar com ele e ir à praia grávida e de biquíni – como também a liberdade de casar virgem, ser mulher de um homem só e fazer tudo segundo os velhos figurinos, se fosse isso o que a moça preferisse”, discorre Ruy Castro em seu livro Ela é carioca – Uma enciclopédia de Ipanema. Liberdade de ser quem se é, de escolher seguir os caminhos que acredita, de trilhar uma existência sem picuinhas repressivas, entende?

Leila nutria profundo respeito pelos sentimentos dos outros e por suas próprias convicções, cultivando habilidade ímpar e prazer em ter contato com gente. Professora, atriz, garota à frente de seu tempo, vedete, Rainha da Banda de Ipanema, Musa do Pasquim, revolucionária, Grávida do Ano, mito… Títulos e rótulos que, certamente, não findam as várias facetas da menina-mulher que, segundo Carlos Drummond de Andrade, “sem discurso nem requerimento soltou as mulheres de 20 anos presas no tronco de uma especial escravidão”. Em meio aos anos ferrenhos da ditadura, no seio de uma sociedade conservadora e repleta de preconceitos, Leila Diniz ensinou a todos “a arte de ser sem esconder o ser”, novamente nas palavras do poeta.

Personalidade marcante do Brasil das décadas de 60 e 70, peça chave envolta nas transformações ocorridas durante este efervescente período, Leila é um tesouro da História (com “h” maiúsculo sim senhor!) e da cultura brasileiras e, como tal, merece e deve ser lembrada, homenageada e contada, sempre, para as novas gerações. Janaína, filha de Leila Diniz, em um evento dedicado à sua mãe, em 1995, declarou: “(…) Quero falar uma coisa que tenho achado muito importante ultimamente: a gente tem mania de cultuar mitos de outros países e acho importante resgatar não só minha mãe, mas as pessoas importantes que a gente tem no nosso país, passar adiante a história da gente, do nosso povo”. Em uma Nação que, por vezes, amargura com a carência de memória e sofre sintomas do complexo de cachorro vira-lata apontado por Nelson Rodrigues, é essencial seguir o conselho de Janaína. Salienta-se: nada de pensar de maneira nacionalista extrema. O mundo comporta inúmeros símbolos brilhantes que, cada qual em sua área, possuem méritos mil. Apenas coloca-se aqui a necessidade da valorização dos que contribuíram (e, em muitos casos, continuam ajudando) para construir a riqueza tupiniquim. Afinal, o Brasil goza de uma “patota” de primeira linha que “é a glória” (utilizando duas das expressões eternizadas na boca de Leila). Sendo assim, aceita o convite para prosear sobre Leila Diniz?

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Leilas

1. Leila (a pequena baiana do carnaval) Diniz
2. Leila (Chebabi & Cherri) Diniz
3. Leila (“professorinha” uma porra; professora!) Diniz
4. Leila (Domingos e o início da atriz) Diniz
5. Leila (luz, câmera e diversão) Diniz
6. Leila (Todas as mulheres do mundo) Diniz
7. Leila (novelas, sim; e daí?) Diniz
8. Leila (***O Pasquim***) Diniz
9. Leila (censura e preconceito malditos!) Diniz
10. Leila (jurada, vedete… batalhadora) Diniz
11. Leila (praia, biquíni e gravidez) Diniz
12. Leila (mamãe cangurua) Diniz
13. Leila (morta de saudades) Diniz
14. Leila (cafuné do macaco e mil pérolas) Diniz
15. Leila (PARA SEMPRE!) Diniz

 

Leila

(a pequena baiana do carnaval)

Diniz

25 de março de 1945: nasce, em Niterói, Leila Roque Diniz. O pai, Newton Diniz, era bancário, amante dos livros (Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves, Olavo Bilac, Gonçalves Dias, entre outros), apaixonado pelo carnaval, pelo Flamengo e pela MPB (Noel Rosa, Marília Batista, Aracy de Almeida, Dolores Duran e Elis Regina são alguns dos que habitavam a vitrola de Diniz). Despejava emoção ao ler O navio negreiro para os filhos e, ademais, era ateu e comunista, integrante do Partido. Em 1947, inclusive, durante o governo Dutra, foi preso e apanhou pra burro no cárcere. Carioca nascido no Méier em 1914, Newton era o filho do meio, entre os irmãos Dario e Lucy, de um maranhense pobre, Dario (o qual tornou-se oficial da Marinha), e Carlota, esta fruto da relação entre uma brasileira e um português. Newton Diniz representa uma grande influência para os seus filhos: o comportamento de Leila bebeu de certa essência paterna e, ainda pequenina, recebeu, de sua irmã Eli, o apelido de Leiluska, devido à presença do comunismo e de nomes russos na infância dos rebentos de Diniz.

A mãe de Leila, Ernestina, natural de Timbuí, Espírito Santo, era a filha do meio de sete irmãos. Professora de Educação Física, conheceu Newton Diniz quando ele foi trabalhar em uma agência do Banco do Brasil em Vitória. Ainda namorados, Ernestina engravidou de seu primeiro filho, Elio, em 1938 e, por isso, o casal foi morar em Campos. Após algum tempo, Diniz pediu transferência no emprego e a família passou a residir na Cidade Maravilhosa, no bairro de Cavalcanti, na casa dos pais dele, lugar no qual veio ao mundo Eli, a segunda filha, chamada também de Baby. Do subúrbio do Rio, os conjugues e os dois filhos mudaram-se para Icaraí, em Niterói, onde ganharam Leila. Engana-se, pois, quem suspeita que as trocas de lar parariam por aí.

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Leila surgiu no bojo de um casamento em crise. Quando ela estava com sete meses, os pais se separaram. Ernestina, acometida por tuberculose, foi internada em um sanatório em Correias, distrito de Petrópolis, e lá ficou por dois longos anos. Diniz, logo, abrigou-se em uma pensão no Catete; Elio, com seis para sete anos, e Eli, com cinco para seis primaveras, foram matriculados em um colégio interno na Tijuca; Leila, ainda um bebezinho, ficou aos cuidados dos avós paternos, estabelecidos na casa de Cavalcanti. Depois de alguns meses, Newton conseguiu reunir os três filhos na residência de seus pais. Ernestina, por sua vez, teve a sua personalidade fortemente marcada pela estada no isolamento: perdida a convivência com as crias, agarrou-se na religiosidade para enfrentar o sofrimento. Ao sair do sanatório, fixou-se em Santa Teresa, prestou um concurso público e arrematou uma vaga no Ministério da Fazenda, permanecendo nesse emprego até se aposentar.

Nessa altura, Newton Diniz, sozinho, conheceu Isaura da Costa Neves, professora primária cinco anos mais velha do que ele. Isaura apaixonou-se pelo bancário ao vê-lo discursar em um comício e, ao tomar nota da real situação civil do amado, casado e com três filhos (posteriormente, Diniz e Ernestina acertaram a separação legalmente), aceitou encarar a conjuntura. Filha caçula com quatro irmãs e um irmão, Isaura perdeu a figura paterna, um comerciante português, aos dois anos. Newton e Isaura foram morar, com os três rebentos dele, em um pequeno apartamento em Copacabana. Em 1949, aos 40 anos, Isaura dá à luz à Regina e, dois anos depois, nasce Lígia. Note: maternidade considerada tardia, junção com um homem mais novo, o qual almejava o desquite do primeiro relacionamento e possuía três filhos: atitudes ousadas para o período. Na obra Toda mulher é meio Leila Diniz, da antropóloga Mirian Goldenberg, Lígia ressalta o comportamento sexual de Isaura, também considerado raro para as mulheres desse tempo: “(…) Enquanto na nossa época as famílias eram muito reprimidas, o comportamento sexual da minha mãe e meu pai era muito solto, se agarravam, se beijavam, se acariciavam, era evidente que gostavam de trepar um com o outro, que tinham tesão”. Regina acredita que as posturas de Isaura relatas nas frases anteriores influenciaram Leila. Um adendo: em 1979, passados mais de trinta anos de união, Isaura e Newton casaram-se, finalmente, no civil.

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Elio e Eli sofreram com a não aceitação de Isaura: a madrasta os tratava como “intrusos”. Diferenciação, aliás, que a senhora deixava explícita em uma “escala” entre as crianças: Regina, a preferida; Lígia; Leila, a filha do meio; Elio e, por fim, Baby. Os dois mais velhos, pois, não contando com o apoio paterno (Diniz era um tanto quanto submisso à companheira e omisso, características que, aliadas a outras, levaram-no ao suicídio em agosto de 1981), na adolescência, saíram de casa. Aos treze anos, Elio foi internado em um Colégio Militar e, aos dezessete, foi morar com a mãe biológica. Segundo ele, a gota d’água foi uma briga com Isaura por causa de uma banana que o menino comera. Um ano depois da retirada do irmão, Baby é “expulsa” do lar, devido ao clima insustentável com a madrasta, e passa a residir com Ernestina. De acordo com Eli, Isaura nutria ciúmes do laço pai e filha.

Leila, ao contrário de Elio e Baby, foi adotada por Isaura, a qual a considerava sua mãe. Quando Ernestina foi alocada no sanatório, Leila tinha sete meses apenas. Por isso, não concebera, nesse período, lembranças da mãe biológica. Em um pacto de segredo, ela foi criada pensando ser filha de Isaura. Até que, na primeira metade de sua segunda década de vida, descobriu a verdade através de uma tia. Mesmo não sofrendo semelhante rejeição que a enfrentada por seus irmãos, não foi fácil para Leila a descoberta da verdade. Em um primeiro momento, a garota ficou indignada por ter crescido em um mar de não-ditos. Aos catorze anos, partiu de casa e abrigou-se em residências de amigas, não demorando muito para retornar ao lar. Aos quinze, foi embora novamente: morou alguns meses com Ernestina e cerca de dois anos na casa de sua tia Lucy, em Vila Isabel. Meio cigana, Leila habitou um bocado de lugares. Porém, como não chegou a brigar, de fato, com Isaura, fez as pazes e voltou. Só aos dezessete anos, quando foi residir com Domingos de Oliveira, deixou o domicílio parental definitivamente. Passados os tormentos da revelação acerca de sua filiação maternal, Leila somou mães: além da biológica e Isaura, a moça era adotada, um pouco, por mães de grandes amigas, por vizinhas, por sua tia Lucy e por sua avó patena. No Dia das Mães, Leila dizia: “Puta que pariu, vou ter que dar uns dez presentes”. Sobre Ernestina e Isaura, disse certa vez: “A minha mãe de nascimento, a chamada puta que me pariu, mora em Santa Teresa. Eu fui criada por outra, minha madrasta, muito bacana também, gosto muito dela”.

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A ligação de Leila com os irmãos era forte e carinhosa. Eli guarda a memória de Leila vestida de baiana em um carnaval: “Leila sempre teve uma alegria interior muito grande, era um traço dela. Lembro-me de que no carnaval meu pai adorava tocar pandeiro. Éramos muito pequenos e ele tinha o hábito de nos levar ao centro da cidade para ver o carnaval. Uma vez, a Leila começou a dançar vestida de baiana e juntou gente em volta porque ela fazia isso com muita graça, e de forma natural”. Outro traço da alegria que nasceu com a pequena carnavalesca: ao colocar Lígia, a caçula, para dormir, por exemplo, Leila fazia graça, como era o seu costume, e as duas riam com a história de Clarabela, episódio relato por Cláudia Cavalcante no livro Leila Diniz:

 

“Estava na janela

fazendo pipi na panela

quando chegou Clarabela

e eu disse assim pra ela

Clarabela, Clarabela,

tome esse caldinho

tome, está quentinho

a tola

tomou como uma rola

num gole só,

de uma vez

nem esperou dizer três

Chorei de tanto rir

ri de tanto chorar

Pois Clarabela tomou

todo o xixi que eu fiz”.

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Leila

(Chebabi & Cherri)

Diniz

Aos dezesseis anos, Leila começou a fazer análise com o psicanalista Wilson Chebabi em uma época em que isso não era comum. Em uma busca pelo autoconhecimento, elaborando uma capacidade profunda de reflexão sobre si própria, ela levou o processo com extrema seriedade e comprometimento. Em entrevista concedida para Mirian Goldenberg, Chebabi tece comentários sobre a ex-paciente: “(…) O mergulho dentro de si mesmo para poder descobrir o que era verdadeiro e assumir as consequências de cada uma dessas descobertas. Isso é o que eu chamo de consistência, é o que eu chamo de um processo analítico consistente, seriedade consigo mesmo. Isso ela teve. Da imagem pública de Leila, eu admirava mais a coragem de rasgar o véu da hipocrisia, de falar o que todo mundo queria falar e não falava”. Leila fez análise em dois momentos: dos 16 aos 19 anos, de 1961 a 1964, atendida no Instituto de Psiquiatria, no qual Chebabi só cobrava uma taxa simbólica; retornou em 1970, aos 25 anos, quando foi acompanhada por mais um ano. Ressalta-se que Leila, involuntariamente, quebra o estigma, o qual ronda a cabeça de alguns até hoje, de que “análise é coisa de louco” (sendo esta uma afirmação infeliz e errônea).

leila-diniz-05A partir dos treze anos, Leila deu o pontapé inicial em um hábito que manteria para o resto de sua vida: escrever em seus diários, mais uma maneira de viajar ao centro de si e procurar o entendimento do eu. Em um dos locais que morou, na Anita Garibaldi, 80, havia uma janela que dava para um morro, o qual Leila dizia que parecia um urso sentado. Apelidou o urso de Cherri e, em seus escritos, conversava com ele. A garota encontrou um espaço para desabafar e organizar as próprias ideias. “Leila escrevia todo dia e assinava com um desenho (um círculo com um ponto no meio). Isso simbolizava sua busca pela essência de si mesma”, revelou a atriz Marieta Severo em entrevista à revista Cláudia, em junho de 1982.
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Leila

(“professorinha” uma porra; professora!)

Diniz

Quando tinha quinze anos, Leila foi trabalhar na escola maternal Ciro Meirelles, uma espécie de jardim da infância. Certa vez, um aluno disparou para ela: “Sua bunda!”. As outras crianças ficaram apreensivas, esperando a reação da professora. Leila riu e devolveu: “Bunda é você, seu cocô!”. Diante do menino, adaptou os seus palavrões para a semântica infantil. Ao tratar, com naturalidade, termos como “bunda”, “cocô” e “xixi” (Leila cantava a música da Clarabela para os pequenos), tais palavras deixavam de ser exóticas, mostrando um acerto na didática da jovem educadora. Leila acreditava em uma educação que dessa liberdade para as crianças e, nesse âmbito, escancarar a língua era intuitivo para ela. Importante lembrar que, em 1959, Paulo Freire desenvolvera um método de educação popular, o qual rogava por uma “alfabetização pela conscientização”. Iracema Meirelles, dona da escola, imbuída desses pensamentos, criou uma técnica denominada “Casinha Feliz”, a qual enfatizava um processo fonético de alfabetização, rompendo com o modelo tradicional e, por vezes, robotizado. Dentro dessa esfera, Leila procurava encaixar o novo método através de teatros e outras atividades lúdicas, de forma viva e animada, sempre priorizando a liberdade dos educandos mirins.

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Leila fez um curso de aperfeiçoamento no Ministério da Educação e, no lugar da formação em pedagogia que lhe faltava, priorizava o binômio vontade de ensinar e personalidade. Em sua sala, por exemplo, não havia a mesa da professora. Leitora do educador escocês Alexander Sutherland Neill, Leila concordava com ele que sem liberdade não se criam pessoas felizes. Aliás, uma edição de Liberdade sem medo, obra na qual consta as propostas de Neill, foi toda anotada por Diniz (peça esta que se encontra, hoje, em poder da família dela). A. S. Neill, em Summerhill, na Inglaterra, utilizou o rock como ferramenta pedagógica e estimulou a liberdade de escolha e a responsabilidade dos estudantes. Leila, assim como Neill, apostava na emoção como uma excelente maneira de obter conhecimento e, em Vila Isabel, aplicou também a sua educação libertária no jardim de infância Papai Noel. Ela instituiu a troca de merendas na turma e dava Coca-Cola para as crianças, já que estas não gostavam do leite que carregavam em suas lancheiras. De acordo com Eli, a irmã sonhava com uma escola que desse amor para os pequenos, sem regras paranoicas. Leila foi, pois, uma professora de fato e, não, uma “professorinha”.

Todavleila-diniz-07ia, a dinâmica educacional de Leila causava temores na direção da escola Papai Noel. A gota d’água, aponta Joaquim Ferreira dos Santos em Perfis brasileiros – Leila Diniz, deu-se quando Leila aceitou uma menina com síndrome de Down em sua turma. A diretora, alegando pressão por parte de pais de outros alunos, pediu para que a garota não fizesse parte do grupo. Leila argumentou que os coleguinhas tinham aceito a nova integrante e, além disso, no contexto do método aplicado, a menina se desenvolveria pedagogicamente. Mas, a garotinha saiu do colégio recreativo e, solidária e indignada, Leila também foi embora. Em seu último dia, a professora presentou os alunos com brinquedinhos.

 

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Leila

(Domingos e o início da atriz)

Diniz

Em uma de suas famosas festas, no Natal, Domingos de Oliveira recebeu uma convidada inesperada: uma moça de dezesseis para dezessete anos. Era Leila Diniz, de maria-chiquinha, que batia na porta. Como a sua família não comemorava a data, a garota estava livre e resolveu ancorar no apartamento de Domingos. Ela já tinha visto o rapaz no teatro (o seu então namorado, Luís Eduardo, atuava em uma peça de Domingos intitulada Somos todos do jardim de infância). Quando a menina chegou, ele estava de saída e a festa só começaria mais tarde. Leila, então, ficou embrulhando presentes.

Durante a comemoração, Leila e Domingos mal se viram. Após a agitação, quando o dia já estava amanhecendo, ele levou amigos de volta para Copacabana e, ao voltar, em meio à residência destruída pela bagunça do festejo, percebeu que Leila ainda estava lá. Ambos cansados e querendo dormir… por que não cochilarem juntos? Formou-se, assim, o casal Leila Diniz e Domingos de Oliveira, uma espécie de Brigitte Bardot e Roger Vadim brasileiros. Aos dezessetes anos, Leila residia sob o mesmo teto de Domingos, saindo da casa paterna definitivamente.

No primeiro um ano e meio de relacionamento, Leila exercia o ofício de professora, estudava à noite e, para ajudar na parca renda doméstica, trabalhou em uma agência de modelos, participando de anúncios publicitários e figurações em filmes. Através da agência, fez pontas televisivas no Grande Teatro Tupi, Teatrinho Trol e outros. Frequentando o Colégio Souza Aguiar, em Vila Isabel, no período noturno, entretanto, abandonou no segundo ano clássico, já que trocava as aulas por barzinhos, amigos e poesia.

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O vínculo de Leila com as crianças faz-se presente em seus primeiros contatos com o mundo artístico: em 1962, ela estreou no teatro com Em busca do tesouro, peça infantil dirigida por Domingos de Oliveira, no papel de uma onça boazinha. No longa Mitt hem är Copacabana (Fábula… Minha casa em Copacabana, 1965), o qual o sueco Arne Sucksdorff gravava no Rio de Janeiro, Leila também entrou em contato com os guris: a moça ficou responsável por cuidar dos pimpolhos do elenco. A película em questão retrata “a vida de quatro crianças faveladas que circulam entre o morro e a praia de Copacabana e sobrevivem através de biscates”. Os pequeninos foram alojados em um apartamento e Leila cuidava deles, brincava, fazia jogral, levava-os à praia e ao cinema. Cosme dos Santos, ator que compunha o time de crianças, relembrou, em depoimento para o livro Leila Diniz (compilação elaborada devido à Mostra Leila Diniz, homenagem feita pelo Centro Cultural Banco do Brasil em 2002), o contato que teve com Leila na infância: “A Leila era muito engraçada, era uma criança, sentava no chão junto com a gente e fazia brincadeiras que nunca tínhamos visto. Nos apegamos muito a ela e quando ela saiu fizemos quase um motim, dizendo que só ficávamos com a Leila”. Tida como uma amiga-mãe, Leila retirou-se do convívio com os mocinhos para dedicar-se a outros projetos de sua carreira.

Em 1963, a protagonista deste texto foi corista no teatro rebolado de Carlos Machado. No ano de 1964, ela fez um papel no teatro considerado sério, ao lado da atriz Cacilda Becker, no espetáculo O preço de um homem. Pertinente destacar a análise feita pela antropóloga Mirian Goldenberg acerca dos estilos de atuação de Leila e de Cacilda. A Dama do Teatro interiorizou padrões de excelência europeus, investindo muito tempo e esforço na construção de sua carreira como atriz. Já Leila utilizava bastante de sua intuição e de sua personalidade na construção de seus personagens. Goldenberg considera Leila uma atriz “autobiográfica”: “Leila Diniz lembra o trabalho como diversão, prazer, irreverência; Cacilda, o teatro como devoção, autodoação, imolação, sofrimento”, escreve a antropóloga. Para muitos, o principal papel de Leila foi na vida.

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Leila

(luz, câmera e diversão)

Diniz

Leila amava trabalhar no cinema. A película Todas as mulheres do mundo (1967), obra de Domingos de Oliveira, ex-marido da atriz, é considerada o seu grande sucesso nas telonas. Por isso, o filme citado possui, logo abaixo, um tópico dedicado só a ele. Em uma entrevista concedida ao Jornal do Brasil, em 07/02/1968, Leila chegou a declarar que estava pensando em deixar de fazer novelas e dedicar-se, exclusivamente, ao universo cinematográfico. “O cinema para mim, atualmente, é o que conta”, ponderou. Tal fala corrobora a primeira frase deste parágrafo.

Engana-se quem pensa que a personagem Maria Alice foi o primeiro papel de Leila no cinema. Antes do estouro da poesia-declaração de Domingos em formato de fita, ela participou de O mundo alegre de Helô (1966) e um dos episódios de Jogo perigoso (Juego peligroso, 1966). Leila atuou em catorze filmes e passou por terrenos diferentes: dialogou com diretores consagrados do Cinema Novo e fez um filme de cangaço; teve pequenas participações e, em outros casos, destacou-se como protagonista. O que ela levava em conta quando aceitava um papel? A “patota” (os colegas que estariam com ela em determinada empreitada), a convivência humana que ela poderia ganhar em certo trabalho. Em alguns longas, por exemplo, não cobrou cachê por sua participação: sabia que o diretor não tinha dinheiro e, devido ao grupo que estava envolvido na obra, trabalhava de graça, privilegiando, sempre, a experiência humana e a diversão. Conheça, pois, um pouquinho da trajetória cinematográfica de Leila Diniz:

O mundo alegre de Helô (1966): “No ambiente da alta burguesia, o jovem estudante de arquitetura Nando conhece Helô numa festa, eles começam a namorar. As intrigas de Freddy, um amigo que está interessado em Helô, e as decepções com o comportamento sexual da mãe levam Nando a ter ciúmes da namorada. Tudo se complica mais quando Helô descobre estar grávida”. Fita de Carlos Alberto de Souza Barros, Leila tem um papel diminuto. No entanto, como conta Luís Pellegrini, protagonista da película, a presença dela era total. “Ela era irrequieta e se movia sem parar, na conversa com todo mundo, do diretor ao mais humilde maquinista”. Segundo Pellegrini, a produção inteira se apaixonou pela atriz, inclusive ele. “Como não se apaixonar por Leila? Num dia particularmente cansativo e difícil, resolvi dar uma de estrela e fui sentar emburrado num canto escondido no fundo do estúdio. Frustração. Ninguém tomou o menor conhecimento, salvo Leila. Ela foi se aproximando por trás, como quem não quer nada. Senti duas mãos que se puseram a passear macias por entre meus cabelos e sua voz me perguntava: “Luizito, você tá dodói?”. Me desmanchei como um gato e só consegui responder: “Leila, eu adoro cafuné”. E ela então me presenteou com um dos seus refrãos preferidos: “Cafuné? Até de macaco!”, recorda Luís Pellegrini.

– Jogo perigoso (Juego peligroso, 1966): “Longa-metragem composto por dois episódios, “HO” e “Divertimento”. Este último narra a história de uma mulher que mata a esposa de seu amante, um playboy, e todos aqueles que se intrometerem na relação de ambos”. Co-produção México-Brasil, Leila participou do episódio Divertimento, dirigido por Luiz Alcoriza, no papel de uma servente.

– Mineirinho, vivo ou morto (1967): “A trama inspira-se em notícias da crônica policial sobre a vida de José Rosa de Miranda. Após matar acidentalmente o bandido Arubinha, José, que mora num morro carioca, é transformado pela imprensa sensacionalista em perigoso bandido, apelidado Mineirinho. Procurado pela polícia e por marginais ligados a Arubinha, ele acaba por efetivamente entrar na vida do crime participando de assaltos”. No contexto da obra dirigida por Aurélio Teixeira, Braz Chediak, o qual colaborou com Teixeira no roteiro do filme, lembra de Leila dormindo em uma escadaria na estação de Mangueira. O cansaço era resultado do fato de Leila, além de atuar, ajudar a equipe de muitas formas, como preparando sanduíches de mortadela para todos. “Quase da mesma idade que ela e trabalhando no mesmo meio, era natural que nos encontrássemos sempre. E várias vezes eu a vi aconselhando jovens atrizes e atores. Mostrando caminhos e incentivando-os a batalhar, batalhar, batalhar. Leila era uma batalhadora”, destacada Chediak. Para ele, a paixão de Leila foi o cinema e acredita que ela foi correspondida.

– O homem nu (1967): “O professor Sílvio Proença prepara-se para ir do Rio a São Paulo, mas fica preso no aeroporto devido às condições meteorológicas. Eis que encontra um grupo de sambistas e junta-se a ele numa farra. No dia seguinte, após acordar no apartamento da bela cantora do grupo, ele vai pegar o leite e fica do lado de fora nu, começando suas desventuras pela cidade”. Dirigido por Roberto Santos, o longa é baseado em uma crônica de Fernando Sabino. Hélio Silva, fotógrafo do filme, enfatizou, em um depoimento, a presença marcante e a seriedade de Leila enquanto ela estava exercendo a sua profissão.

– Edu coração de ouro (1967): “O dia a dia de um jovem carioca de classe média e do seu grupo de amigos. Edu, que reside em Ipanema, não tem compromisso com a vida. Passa os dias flanando pelas ruas atrás das mulheres e buscando aproveitar todos os instantes da forma mais prazerosa possível”. Na película de Domingos de Oliveira, Leila é Tatiana, par de Edu (Paulo José).

 

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Tatina (Leila Diniz) e Edu (Paulo José).

 

– A Madona de Cedro (1968): “Delfino, instigado pelo amigo Adriano, colabora com uma quadrilha no roubo da Madona de Cedro em Congonhas do Campo. Após cometer o crime Delfino sente muito medo, sentimento que foge ao seu controle quando o grupo descobre ter roubado a cópia da relíquia e resolve devolvê-la, levando a população a acreditar de que se trata de um milagre”. Na fita de Carlos Coimbra, Leila faz Marta. Leonardo Villar, o qual atuou com Leila nesta obra, ressaltou: “Era uma profissional maravilhosa, uma atriz seríssima, pensávamos da mesma maneira. Ela só tinha a coragem para romper com certas coisas que nós não tivemos”. De acordo com Villar, no hotel em que a turma ficou hospedada era ponto de encontro das mocinhas da cidade. Porém, quando a Leila chegou, as meninas desapareceram, incluindo a filha do dono do local. O preconceito contra Leila, recorda o ator, era evidente. Todavia, as garotas tinham curiosidade em conhecer Leila Diniz. Durante uma filmagem, Leila trocou umas palavras com as mocinhas e, depois de três dias, todas estavam amigas da atriz. Leila, como fez muito durante a sua vida, venceu o preconceito.

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– Os paqueras (1968): “Nonô, jovem conquistador de Copacabana, vive paquerando as garotas. Seu único amigo é o quarentão descasado Toledo, também um conquistador. Após várias confusões, devido ao seu hábito de dar em cima de mulheres casadas, Nonô começa a namorar Margareth, a filha de Toledo. Este, quando descobre, quer proibir o namoro e rompe com o antigo amigo”. Leila fez uma participação como ela mesma que, apesar de pequena, foi suficiente para que ela roubasse a cena em sua sequência em uma loja. Reginaldo Faria, diretor e ator do longa, discorre sobre a colega: “Chegou, encantou, criou a mística da poesia e depois desapareceu deixando saudades. Muitas saudades”.

– Fome de amor (1968): “Os recém-casados Felipe – um pintor oportunista – e Mariana – burguesa com pretensões políticas revolucionárias – voltam de Nova Iorque para o Brasil indo viver em Angra dos Reis, junto ao casal Ula e Alfredo, este último cego, surdo e mudo. Enquanto Mariana afasta-se progressivamente do mundo, Felipe e Ula tornam-se amantes. Filme de forte teor alegórico sobre o momento político e social então vivido pelo país”. Na película de Nelson Pereira dos Santos, Leila interpretou Ula. Dib Lufti, fotógrafo da obra, realça três aspectos de Leila: ela dizia com os olhos (“vivos, presentes, sensuais”), demonstrava todo o seu prazer com a vida nas menores coisas e sempre estava com um sorriso estampado no rosto.

– Corisco, o diabo loiro (1969): “Cristino é obrigado a matar um homem, tendo então de fugir para longe a fim de não ser preso. Perseguido por um delegado, Cristino torna-se cangaceiro entrando para o bando de Lampião e adota a alcunha de Corisco. Já integrado ao bando ele rapta Dadá, que o odeia muito tempo, mas ela acaba se apaixonando e vivendo no sertão com o cangaceiro por doze anos”. O ponto curioso da atuação de Leila neste filme de Carlos Coimbra é o fato dela ter convivido com Dadá para retratá-las nas telonas. “Leila inculcou na personagem cinematográfica uma veracidade humana tão intensa que a própria biografada reconheceu e aplaudiu entusiasticamente”, rememora Coimbra. O diretor completa: “Com indomável determinação de independência, obstinada dedicação a sua carreira, lealdade e transparência de comportamento, tornou-se espontaneamente um símbolo da mulher brasileira de vanguarda para o seu tempo de avanço e pioneirismo. Leila prenunciava um futuro glorioso e consagrador, como artista e como mulher. Infelizmente foi-nos arrebatada muito precocemente, interrompendo uma carreira em plena fase de crescimento e maturidade. Serei imensamente feliz se Corisco, o diabo loiro puder contribuir – pouco que seja – para consolidar mais ainda, entre nós e a nova geração, a perpetuação da personalidade adoravelmente humana e autêntica que foi a nossa inesquecível Leila Diniz”.

– Azyllo muito louco (1969): “No século XIX Simão Bacamarte vai para a cidadezinha de Serafim, onde interna grande parte dos moradores no hospício denominado Casa Grande, exercendo um poder aterrorizante sobre a população. O boticário Crispim, o fazendeiro Porfírio e o capitão da guarda revoltam-se contra os métodos do alienista, um juiz de paz é chamado para dirimir o caso e resolve pela soltura dos “loucos” e prisão dos nobres. Ao cabo de novas crises apenas Simão Bacamarte é internado como louco”. Com direção de Nelson Pereira dos Santos, a fita inspirada no conto O alienista, de Machado de Assis, presenteou Leila com o papel de Eudóxia. “Minha saúde mental é perfeita, eu não evito o amor nunca”, repete a personagem.

– Mãos vazias (1971): “No interior de Minas Gerais, uma mulher de origem burguesa que vive à sombra do marido perde o filho e se revolta contra os costumes tradicionais da sua pequena cidade. Neste processo de libertação, ela acaba se defrontando com uma tragédia”. Para que o seu amigo de longa data, Luiz Carlos Lacerda, realizasse o seu filme, Leila conseguiu com Jece Valadão o pagamento do laboratório e a edição, vendeu um fusca e aceitou um papel em uma novela em São Paulo.

– O donzelo (1971): “Nestor vive numa pequena cidade do interior e ainda é virgem, seu pai então resolve iniciá-lo sexualmente com a prostituta da localidade. Entretanto, ele fracassa quando do encontro, envergonhando a família que resolve expulsá-lo de casa. Nestor muda-se para o Rio de Janeiro onde busca desvirginar, mas suas várias tentativas sempre esbarram nas mais diferentes dificuldades”. Em um primeiro momento, o papel que Stefan Wohl (diretor e roteirista) e Flávio Migliaccio (roteirista e ator) ofereceram para Leila não a agradou. Os dois, pois, remodelaram a proposta: por que não filmar o dia a dia de Leila? A atriz, por sua vez, sorriu ao saber que seria ela mesma.

– Amor, carnaval e sonhos (1972): “Na véspera do carnaval Leila pede um milagre: arranjar um homem. Eis que acontece o milagre, na figura do malandro que entra pela janela e começa o carnaval. Seguem-se diferentes situações ficcionais tendo como pano de fundo o carnaval seja na rua – por exemplo, o desfile do bloco do Cacique de Ramos – seja no tradicional baile do Teatro Municipal”. Última película na qual Leila se envolveu, possui direção de Paulo César Saraceni. O diretor guarda boas lembranças: “No carnaval de 1972, tive a honra de filmar Leila Diniz. Leila vestida de pirata Rum Merino, amamentando Janaína. Enquanto Marco Bottino preparava a luz, eu ensaiava a fala dela com a imagem da santa”.

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Leila

(novelas, sim; e daí?)

Diniz

 

Leila não tinha preconceito contra a televisão: pelo contrário, divertia-se, muitas vezes, fazendo novelas. Interpretava textos de Glória Magadan (notável novelista da época) e de Shakespeare com semelhante disposição. “Ela fazia novela sem nenhum problema. Nem passava pela cabeça dela deixar de fazer alguma coisa porque ia ser criticada por A, B ou C. Ela não deixava de fazer uma coisa que estava com vontade por causa de pressões externas, de qualquer natureza. Ela tinha uma personalidade admirável sob esse aspecto”, expõe Eli no livro Toda mulher é meio Leila Diniz.

Entre todos os papéis que Leila fez em novelas, destaca-se Madelon, personagem de O sheik de Agadir (1966), enorme sucesso de Glória Magadan na TV Globo. No elenco, Henrique Martins, com quem Leila viveu um romance na vida real, e Marieta Severo, a qual tornou-se sua grande amiga. “A Madelon era um personagem simpaticíssimo, de que todo mundo gostava. Era uma guerra, e ela era simpatizante dos aliados e ajudava as pessoas. O personagem dela mais amado foi a Madelon, todo mundo ficava encantado com a Madelon”, reavive Lígia em conversa com Mirian Goldenberg. A atriz Irene Ravache, também em declarações publicadas por Goldenberg, coloca que Leila ensinou aos atores como ter uma boa relação com toda a equipe técnica.

A seguir, uma lista com as produções televisivas nas quais Leila participou (as datas foram extraídas da obra Leila Diniz, da coleção “Biblioteca Época – Personagens que marcaram época): Ilusões perdidas (1965, TV Globo); Paixão de outono (1965, TV Globo); Um rosto de mulher (1966, TV Globo); Eu compro essa mulher (1966, TV Globo); O sheik de Agadir (1966, TV Globo); Anastácia, a mulher sem destino (1967, TV Globo); A rainha louca (1967, TV Globo); O direito dos filhos (1968, TV Excelsior); Acorrentados (1969, TV Rio); Vidas em conflito (1969, TV Excelsior); Dez vidas (1969, TV Excelsior); E nós, aonde vamos? (1970, TV Tupi).

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Leila

(***O Pasquim***)

Diniz

Certa vez, em 1969, no meio de uma conversa, o ator Paulo César Pereio disse que a publicação dirigida por Tarso de Castro, O Pasquim, tinha se transformado em um “Clube do Bolinha”. Isso porque, dos vinte e um números publicados até então, as únicas mulheres entrevistadas tinham sido Maysa, Norma Bengell, Florinda Bolkan, Danuza Leão e Maria Bethânia. O resto, tudo homem. Tem-se, pois, a ideia de conversar com Leila Diniz. Outros nomes tinham sido cogitados para serem abordados antes da atriz, mas, como ela aceitou prontamente o convite, a entrevista foi marcada. Surge, assim, um marco na vida de Leila, na história das mulheres brasileiras e no jornalismo.

“Leila Diniz morava sozinha na avenida Ataulfo de Paiva, no edifício My Rose, no Leblon. Percorreu a pé meia dúzia de quadras para chegar, por volta das quatro da tarde daquele sábado, à casa de Tarso, na Paul Redfern, em Ipanema, onde seria feita a entrevista do Pasquim“, relata Joaquim Ferreira dos Santos em seu livro Perfis brasileiros: Leila Diniz. Leila foi, simplesmente, Leila: sem meias palavras, direta, sincera, com palavrões (que, proferidos por ela, não eram nada vulgares), defendeu, através de suas respostas destemidas, o que acreditava: o amor livre, a felicidade, a busca do prazer, a liberdade, sem pudores ou amarras sociais. Um ato de plena coragem em meio a um cenário envolvido pelos anos de chumbo ditatoriais e pela prisão feminina fantasiada de ” uma mulher direita não faz isso, não diz isso, não é isso”. Na capa da edição, que bateu recordes de vendas com 117 mil exemplares, Leila aparece de toalha enrolada na cabeça, exalando naturalidade.

Tarso sabia, porém, que não seria possível transcrever os palavrões de Leila na íntegra com o AI-5 em vigor. Ele já tinha tido problemas com a censura devido a um “tesão” dito por Maria Bethânia e estampado, na terceira edição do periódico, com as cinco letras e o til. Esperto, encontrou uma maneira de não publicar os palavrões e, ao mesmo tempo, aumentar ainda mais a carga expressiva das frases de Leila: no lugar de cada palavrão, foi colocado um asterisco. 72 estrelinhas formaram uma Via Láctea comportamental repleta de ideias avançadas para a época, um universo que desestabilizou a sociedade patriarcal, machista e de morais duvidosas. “Seu depoimento é o de uma moça de 23 anos que sabe o que quer e que conquistou a independência na hora em que decidiu fazer isso. Leila é a imagem da alegria e da liberdade, coisa que só é possível quando o falso moralismo é posto de lado”, alerta a introdução da entrevista.

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Abaixo, algumas das respostas dadas por Leila acerca de alguns dos tópicos abordados pela “patota” d’OPasquim.

A união com Domingos de Oliveira e o começo da carreira de atriz:”Todo mundo pensa que, de repente, o Domingos botou essa mulherzinha lá pra trabalhar e foi a glória da vida. E realmente o Domingos foi a glória da vida, foi porreta paca eu fazer o filme. Mas antes eu fiz dois filmes: aquele alucinante O Mundo Alegre de Helô e um da Sílvia Piñal, do Alcoriza”. Leila coloca que, em sua opinião, a separação de Domingos foi a melhor decisão, pois desmembrados estariam “salvando um amor”.

Cinema, televisão e teatro: Para ela, “cinema é a glória”. “Eu gosto pra (*) de fazer novela e de fazer cinema”, afirmou. Já sobre teatro, disparou: “Acho que teatro é um saco. Mas não posso dizer isso porque nunca fiz um troço porreta em teatro”. Leila não adorava “aquela coisa de faz toda noite aquela coisa”. “O que acho bacana em cinema e televisão é isso: eu me divirto muito trabalhando. Geralmente, faço uma zona incrível onde eu trabalho, e trabalho sempre com gente que eu gosto. O meu critério de escolha é esse: eu não escolho por peça, autor, diretor ou papel. Escolho pela patota e pelo que eu gosto. Por exemplo: fiz um filme de cangaceiro agora e muita gente disse: que é isso Leila, filme de cangaço, troço cafona, você é louca. Pois foi a glória da vida. Eu tinha a maior (*) de fazer um filme de cangaço. Achei sensacional”, completou.

Casos e casamento: Envolta por vários questionamentos acerca de seu relacionamento com Domingos de Oliveira, Leila, inevitavelmente, também respondeu sobre um possível novo casamento e os seus casos após a separação do diretor. Para uma pergunta esperada, uma resposta curta e extremamente ousada para o período: “Casos, mil; casadinha nenhuma. Na minha caminha, dorme algumas noites, mais nada. Nada de estabilidade”.

Assédio sexual no mundo televisivo: Leila reclamou de haver poucas emissoras disponíveis para o trabalho em novelas (imagina se ela visse como está a situação hoje em dia?). “O mercado de trabalho é muito pequeno. Se você vai à TV Globo, eles dizem isso pra você: tem vinte atores pra fazer o teu papel. Se você não aceitar por x, (*-se), porque sempre tem um que está morrendo de fome e vai aceitar. E aí tem de falar do Brasil, não é? E daí é (*), não pode, não é?”, falou. Sobre o assédio sexual no âmbito da televisão, expôs sem panos quentes, como sempre, o quadro: “Pra entrar lá, você tem de (*) pra todo mundo. Ou então você tem de ser muito inteligente de arranjar um jeito, sei lá”. Ponderou que, anteriormente, a situação era pior: “Não está tanto mais assim, não. Já esteve muito. A mim, nunca quiseram, porque eu mando logo tomar no (*). Quando eu quero, eu vou com o cara”. Ainda pontuou o quanto destetava a paparicação e o “fazer social” que andavam tão em voga no meio.

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Professora e crianças: Leila deixou claro o seu amor por crianças: “Gostaria de ter uns vinte filhos pra fazer minha escolinha em casa”. Fez questão de corrigir ao ser chamada, três ou quatro vezes, de “professorinha”: “professorinha uma (*). Fui professora”. Apesar do seu amor por crianças e pelo ensino, declarou que seria difícil voltar a ser educadora: “Eu deixei de ser professora por covardia porque eu tinha que brigar muito com os pais e com os diretores do colégio. Porque eu não estava em Summerhill, não, mas em minha sala cada um fazia o que queria”.

Censura: Perguntada se admitia censura a uma obra de arte, Leila foi categórica: “Pô, Tarso: de jeito nenhum. Foi o que eu perguntei aos censores: que tipo de preparo tem uma pessoa que vai julgar e censurar uma obra de arte? Eu não teria coragem de ser censor. Se eu fosse julgar uma obra de arte, eu teria que ser uma pessoa inteligentérrima, cultérrima, muito humana e muito por dentro das coisas. Censura é ridículo, não tem sentido nenhum. Do jeito que é feita, inclusive, não tem nenhuma noção de justiça, cultura, nem nada. Foi julgada e censurada uma peça de Sófocles, lá no Teatro do Rio, não foi? É um absurdo. Procuraram até o Sófocles. Aí é fogo. Acaba qualquer papo”.

Instituto Nacional de Cinema (INC): Leila afirmou que o INC não fazia nada pelo cinema brasileiro e tinha, por exemplo, preconceito contra o Cinema Novo. “A gente está lutando por essa lei para aumentar as semanas de filme nacional e os caras (*) e andam, nem querem saber. Só isso já dá pra eu saber que os caras não estão interessados em que nosso cinema se desenvolva. Eles só estão a fim de que sejam vendidos, vistos e apreciados os filmes estrangeiros. Logo, eles são uns filhos da (*)”, problematizou. (Ainda hoje, quantos filhos da (*) dessa espécie continuam existindo, não é mesmo?).

Psicanálise e palavrão: Sobre a análise que fez, Leila não quis dá muita corda na entrevista. Disse que adiantou bastante para ela e que, talvez, a psicanálise a tenha dado mais segurança. Sobre os palavrões, disse que, para ela, era algo normal e gostoso. “Quando ouvi um pedaço dessa gravação, fiquei até um pouco chocada, mas quando eu falo eu não sinto que estou dizendo palavrão”, admitiu. “Mas o palavrão virou verdade em mim, e quando as coisas são verdade, as pessoas aceitam”, arrematou Leila.

Virgindade, leila-diniz-16sexo, amor e fidelidade: Leila revelou que deixou de ser virgem “de quinze pra dezesseis anos”. Em sua opinião, não há idade certa para ter a primeira relação sexual: “Você deixa de ser virgem quando está com vontade. Eu estava. Não deixei antes porque meu namoradinho não quis, ficou com medo”. O primeiro homem, entretanto, não foi o namorado desse período: o primeiro foi, apenas, o primeiro. Leila declarou que esperava amar muitos homens ainda. “Vou amar sempre”, enfatizou. “Eu acho bacana ir pra cama. Eu gosto muito, desde que dê aquela coisa de olho e pele que já falei. Agora, sobre o amor, eu não acredito nesse amor possessivo e acho chato. Você pode amar muito uma pessoa e ir pra cama com outra. Isso já aconteceu comigo”, pontuou Leila. Ela disse não ser contra a fidelidade: “Quando o negócio está bacana, geralmente sou fiel. Quando eu estou com uma pessoa, eu fico muito ocupada com ela”. Quase no fim da conversa, sintetizou: “No fundo, eu sou uma mulher meiga, adoro amar, não quero brigar nunca, e queria mesmo é fazer amor sem parar”.

 

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Leila

(censura e preconceito malditos!)

Diniz

Após a entrevista ao O Pasquim, Leila sofreu ainda mais com o preconceito vindo de pessoas que constituem uma parcela da sociedade disposta, sempre, a apontar o dedo para os outros. Vários são os exemplos de ocorrências preconceituosas para com a atriz, episódios que mostram o conservadorismo exacerbado enraizado no meio social de então e, concomitantemente, a força de Leila para enfrentar tudo isso. Muitos da direita a achavam uma “ameaça à sociedade”; uns tantos da esquerda, por sua vez, a rotulavam de “alienada”; as feministas mais exaltadas, nesse período, acreditavam que Leila fazia “o jogo dos homens”. Poucos, é certo, compreendiam a sua essência.

A escritora de novelas Janete Clair, depois do diretor da produção, Daniel Filho, ter chamado Leila para integrar a equipe de Véu de noiva (1969), vetou o nome da atriz. A justificativa? Segundo a novelista, em sua obra não havia papel de puta e, portanto, não tinha lugar para Leila. Outro triste acontecimento: devido aos poucos recursos financeiros, Leila aceitou participar do programa Quem tem medo da verdade?, famoso por apresentar uma bancada que julgava os convidados em um “tribunal pautado pela moral e os bons costumes”. Leila foi massacrada ao vivo, condenada no juri-circo televisivo, o qual, de tanto pisotear a estrela, fez com que ela chorasse em frente às câmeras. A que ponto os produtores midiáticos chegam para conseguirem um resultado melhor no Ibope, não é? Audiência conquistada em cima de um falso moralismo hipócrita e que encontrou em Leila um alvo perfeito. O ápice do absurdo nesse programa ocorreu quando Leila foi questionada sobre o seu maior sonho: “ser mãe”, ela respondeu sem titubear. Os jurados, contudo, argumentaram que Leila, dotada de um espírito livre, com as suas ideias acerca de temas como amor e sexo e o seu comportamento natural, não poderia ser mãe (figura associada a uma “áurea santa”). ‘Como alguém “depravado” poderia exercer a função materna?’, pensavam os preconceituosos. Tal colocação foi um tiro em Leila, já que a moça tanto nutria o desejo de ser mãe.

Chegou, pois, a vez da censura oficial, estabelecida pela ditadura, dar a sua contribuição contra Leila: em 26 de janeiro de 1970, entrou em vigor o decreto-lei número 1077, do presidente-general Garrastazu Médici e do ministro da Justiça Alfredo Buzaid, o qual declarava querer, por exemplo, impedir o avanço do amor livre. A lei ficou conhecida como “Decreto Leila Diniz”. Em outra ocasião, o inspetor Senna obrigou Leila a assinar um documento no qual ela se comprometia a não falar mais palavrão. Ademais, as autoridades ditatoriais proibiram que a imagem e o nome de Leila fossem veiculados nas emissoras de televisão. Dessa forma, Leila foi sendo cortada de um dos universos que gostava: a TV. O que, infelizmente, os preconceituosos não enxergavam (cegos como estavam pela ignorância conservadora) é que Leila, na verdade, era uma fonte de alegria em um contexto de repressão e tolhimento de direitos.

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Leila

(jurada, vedete… batalhadora)

Diniz

Leila queria trabalhar, sempre quis. Nunca teve preguiça de “colocar a mão na massa”, “pegar no batente” ou seja lá qual expressão for utilizada para designar o seu jeito trabalhador. Desde de cedo, buscou a sua independência e, nessa ótica, o trabalho constitui-se como uma de suas armas. Todavia, após a colocação, por parte dos censores, de que Leila deveria ser retirada da televisão, ela encontrou dificuldades para conseguir emprego. Por isso, desempregada e precisando de dinheiro, Leila aceitou o convite para compor a bancada de jurados no programa de Flávio Cavalcante. O apresentador (que era, curiosamente, conservador), foi o único a oferecer uma oportunidade para Leila, a qual ficou muito grata. Leila, basicamente, tinha que, ao lado de Danuza Leão, Márcia de Windsor e outros, atribuir notas para calouros. Certo dia, para cumprir um aposta realizada no programa de Cavalcante, Leila desfilou de duas peças e paetês, em um carro, pela Avenida Rio Branco, acompanhada por um coro que gritava “eu quero mocotó” (expressão que, em uma época na qual as academias e os corpos, milimetricamente, sarados não eram moda, designava as coxas femininas). Leila permaneceu no posto até o dia em que policiais apareceram no estúdio de gravação. Por sorte, o esperto Flávio Cavalcante percebeu o que poderia acontecer (os fardados queriam prender Leila), armou um plano: a jurada, no meio da atração, pede para ir ao banheiro (fato que provocou o riso de muitos que ali estavam). Foi fazer xixi, porém não voltou mais. O que ocorreu foi: Leila trocou de roupas com sua secretária Nenê e seguiu para Petrópolis, onde ficou refugiada na casa da família de Flávio por um mês.

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Leila não gostava de artificialismo: cancelou, depois de uma apresentação, um show que fez com Betty Faria na boate Sucata. O motivo? Notou que os seus palavrões, falados de modo natural, estavam sendo comercializados, forçados. Ela detestou o resultado e desmantelou o espetáculo. Voltando ao bojo teatral, Leila fez renascer, em dois momentos distintos, o teatro de revista com os espetáculos Tem banana na banda e Vem de ré que eu estou de primeira. O primeiro, em cartaz em 1970, no teatro Poeira, em Ipanema, dirigido por Kleber Santos, contava com esquetes escritos por Millôr Fernandes Nestor de Montemar, Ary Fontoura, Luís Carlos Maciel, entre outros. O segundo, em 1972, dois meses após o nascimento de Janaína, tinha Tarso de Castro na direção e era embalado pelo canto de Dalva de Oliveira. Um dos cacos que Leila mais utilizava era que precisava sair de cena para amamentar Janaína. Pura verdade: a vedete amamentou a filha em público, nos bastidores do teatro. Aliás, poder levar Janaína para o local de trabalho e dar de mamar para a bebê foi um dos pontos que Leila levou em consideração para aceitar a proposta de emprego. “Saio aqui do show e vou dar de mamar, e é tão bacana isso. Me acho uma mulher normal, e é bom demais”, declarou na época.

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Demonstrando a sua versatilidade, Leila também se aventurou como empresária, abrindo uma loja de roupas femininas com estilo oriental, a Doze, em parceria com a modelo Vera Barreto Leite. A boutique fez sucesso, angariando clientes como Elis Regina. O carisma e a gravidez de Leila eram atrativos para a loja. Entretanto, em dada hora, Leila percebeu que não levava tanto jeito nessa profissão: ela era, isso sim, atriz.

Leila Diniz, 1971David Drew ZinggRealidade 61

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Leila

(praia, biquíni e gravidez)

Diniz

 

Na primeira aparição de Leila Diniz em Todas as mulheres do mundo, ela está no mar. Mar, sol, praia: trio essencial para Leila. Sendo uma garota solar, não abria mão de ir à praia e lá encontrava o seu lugar. Musa de Ipanema, Leila foi a personificação do espírito de uma mulher, genuinamente, carioca. “Praia, praia, praia!”, ela nutria uma empolgação sem igual pelo beira-mar. Então, por que ela se privaria do prazer de ir às areias justamente em um momento tão feliz?

Ser mãe era um desejo arraigado em Leila e, ao ficar grávida do namorado Ruy Guerra, em 1971, foi estampar a sua imensa alegria em seu local preferido: a praia. Consultou-se com o seu ginecologista e perguntou se o sol era bom para o bebê. Embasada com uma resposta afirmativa do médico, a futura mamãe vestiu um biquíni e foi à praia esbanjando beleza e felicidade. No início da década de 70, contudo, o padrão era que as gestantes usassem maiô com uma “cortininha”, escondendo, ao máximo, a barriga. Leila, porém, era livre demais e estava em um estado de plena alegria: por que esconder o que o seu corpo e a sua alma estavam vivendo? Por que ter vergonha de uma gravidez que ela tanto almejou? Colocou a cara, a barriga e o seu ser inteiro no sol. De modo esperto, um fotógrafo registrou o momento. A foto é considerada, hoje, um símbolo da revolução gerada, involuntariamente, por Leila, uma expressão da luta das mulheres, a pintura mais realista de uma mulher independente, sexual, livre e, também, feliz com o seu estado de graça. Uma fotografia que, sem dúvidas, faz parte da História brasileira; uma obra de arte tão natural quanto a própria Leila. 

leila-diniz-20Contrariando, mais uma vez, quem a considerava uma porra-louca, a Grávida do Ano (título ganho no programa do Chacrinha), tomou todos os cuidados necessários durante a gravidez: largou o cigarro, deu um tempo no álcool, parou de tomar pílula na época certa. Uma gravidez desejada e planejada; uma decisão de Leila e Ruy em conjunto, mesmo que eles não fossem casados legalmente. Como já era de se esperar, ela teve que lidar com o preconceito novamente: Jorge Faria, dono do bar Garota de Ipanema, contou que, um dia, Leila entrou no estabelecimento chorando muito, pois uma senhora, na praia, a tinha visto e disparado: “Sua vagabunda!”. Sensível pela gravidez, desafogou o nó na garganta em forma de lágrimas. Leila, porém, não se abateu: fez do seu ventre um panfleto e nutria orgulho dele. “Ao exibir na praia sua barriga grávida, Leila demonstrou que a maternidade sem o casamento não era vivida como um estigma a ser escondido, mas como uma escolha livre e consciente. (…) A barriga grávida de Leila Diniz materializou, corporificou, seus comportamentos transgressores. (…) Leila fez uma verdadeira “revolução simbólica” ao revelar o oculto (a sexualidade feminina fora do controle masculino) em sua barriga grávida ao sol. Leila “inventou” uma nova forma de ser mãe”, escreve a antropóloga Mirian Goldenberg.

 

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Leila

(mamãe cangurua)

Diniz

 

Janaína Diniz Guerra nasceu às 4h da manhã do dia 19 de novembro de 1971. “Cuidado aí com os pontos que eu sou vedete”, teria dito Leila para o médico que realizou a cesárea. A mamãe teve abscesso, os pontos inflamaram e, por isso, ficou quinze dias no hospital. “Pensou que ia morrer. De três em três horas, porém, chegava Janaína (cujo nome é uma das variações de Iemanjá, a rainha do mar, este que Leila tanto amava) para mamar – e as forças se recuperavam”, conta Joaquim Ferreira dos Santos. Nos primeiros dias em casa, sentia dores, Janaína chorava bastante e precisou da ajuda de Ruy Guerra, o pai da criança. Apesar dos percalços, Leila agarrou a emoção de ter uma filha e registrou, em seu diário, o toque das mãozinhas da bebê, os olhinhos, o cabelinho e a boca do seu “bichinho fofo, macio, tão frágil, tão surpreendente”. Janaína tornou-se, pois, prioridade na vida de Leila.

No ano de 1993, em entrevista para a TV Educativa, Janaína fala da mãe que, por descuido do destino, não acompanhou a sua vida: “A imagem que eu tenho dela é, é claro, uma imagem muito forte e muito bonita. Eu tenho muito orgulho. Ela é uma pessoa muito conhecida e muito amada, muito querida, as pessoas me devolvem isso e eu fico muito feliz com isso. Sabe o que é legal? É que as pessoas me tratam com um carinho sem me conhecer. As pessoas devolvem o carinho que a minha mãe passou pra aquelas pessoas, então eu acho isso supergostoso”. Mesmo tendo ficado pouquíssimo tempo com a filha, Leila a ensina com a sua história, os seus diários e o seu legado, assim como continua a aconselhar muitas garotas e mulheres Brasil afora.

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Leila

(morta de saudades)

Diniz

Leila titubeou ao aceitar o convite do amigo Luiz Carlos Lacerdo, apelidado de Bigode, para viajar até a Austrália. A jornada teve como objetivo a promoção do filme Mãos vazias (1971), o qual contava com a atuação de Leila e a direção de Bigode. Consentiu em partir para o outro lado do mundo por conta da carência financeira e de trabalhos. Leila, então, foi, mas com o coração apertado por se separar, pela primeira vez, de Janaína. Participou do Festival de Adelaide, mas, por saudades de sua menina, antecipou a sua volta.

Ela estava a bordo do DC-8 da Japan Airlines quando o avião, explodiu a 25 quilômetros de Nova Déli, na Índia. Teorias surgiram para tentar explicar o estouro: uma tempestade de areia aliada ao calor insano de 45 graus ou uma bomba? Fato é que a rota que Leila pegou – passaria por locais como Hong Kong, Bangcoc, Nova Déli, Teerã, Cairo e Roma – era considerada de alto risco. O sonho, finalmente realizado, de ser mãe foi cortado brutamente. Um dia antes, 13 de junho de 1972, cheia de saudades, Leila escreveu um cartão-postal à filha, no qual expunha o seu desejo de que elas viajassem juntas, em um futuro próximo, deixava clara as saudades que sentia e anunciava o seu retorno. Assinou como “mamãe cangurua”.

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Aos 27 anos, entrando para o rol de artistas que faleceram nessa idade (a “maldição dos 27”, que também afetou, entre outros, Amy Winehouse, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Kurt Cobain), no dia 14 de junho de 1972, Leila deixou a Terra para ir para o céu, afinal, como disse Rita Lee, é entre as nuvens o lugar dos grandes artistas. No Brasil, a notícia golpeou a todos. Ruy Guerra, em um primeiro momento, não acreditou. O consumo de álcool, dizem, aumentou exponencialmente em Ipanema a partir do momento que a notícia foi divulgada aos sete ventos. Há quem chegou a pensar que Leila não estava no avião: como ela sempre chegava atrasada, ela poderia ter perdido o voo. Dessa vez, porém, a pontualidade se fez presente. Muitos dos periódicos que, outrora, tanto condenaram Leila, divulgaram notícias e notas aos montes. Algumas publicações até evitaram fechar as portas devido às vendas das matérias sobre Leila. O aspecto abominável chamado insensibilidade também quis um espaço na multidão: o padre Emir Calluf, de Curitiba, escreveu um artigo caracterizando Leila de “meretriz e rebotalho humano” (o estômago torce ao ler tamanha atrocidade, ainda mais de um religioso que, teoricamente, defende, no mínimo, o respeito ao próximo. Que “excelente” padre, não é?). Marcelo Cerqueira ficou responsável por ir ao encontro dos restos de Leila, fazer o reconhecimento, trazê-la ao Brasil. As suas cinzas foram depositadas no Cemitério São João Batista e a sua memória abraçada e homenageada por inúmeras pessoas.

Cerqueira encontrou, entre os destroços do acidente, o diário de Leila, no qual pode-se ler as suas últimas anotações: “As saudades de Janaína são muitas. Será que estou sendo a mãe que ela merece? A babá tem ficado mais tempo com ela do que eu. Desse jeito, a mãe acabará babá, e a babá, mãe. Estamos chegando em Nova Déli. Segundo anunciam, a temperatura local é quase a do inferno. Quente paca. Agora está acontecendo uma coisa es…”. Marieta Severo, em depoimento gravado em 2002, desabafa: “Nesses trinta anos, a maior dor de todas é ver a falta que Leila faz para ela [Janaína]. Leila não foi criada pela mãe, então, tudo o que ela não queria era que sua filha passasse essa falta, não queria ter uma filha e ela não estar. Então isso é muito terrível, muito cruel”.

AJB/RIO - 28/06/08LEILA DINIZ.FOTO PRODUZIDA EM 24/02/67FOTO: RONALDO THEOBALD/CPDOC JB

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Leila

(cafuné do macaco e mil pérolas)

Diniz

“Cafuné, na cabeça, malandro, eu quero até do macaco”: a frase é uma marca de Leila, um bordão que ela proferia em várias oportunidades. Um poema que escreveu sobre a briga entre Espanha e Holanda foi musicado por seu amigo Milton Nascimento, virando uma música-homenagem bela. A seguir, algumas das memoráveis colocações de Leila Diniz:

– “Não represento, não canto, não sou a mulher maravilhosa, não danço. O negócio é que eu faço as coisas gostando, e eu acho que isso passa para as pessoas e elas acabam gostando. Quando o negócio é muito verdade dentro de você, acaba passando”.

– “(…) Sou plenamente pelo amor livre, inclusive acho absurdo esse negócio de moça se casar virgem. Pense bem: a mulher ter data marcada para perder a virgindade… Quando a mulher ama de verdade, ela tem de amar de verdade, um amor total, sem compromissos com datas ou falso moralismo (…)”.

 

– “Se eu soubesse que morreria amanhã, não sei nem o que faria. Uma hipótese seria amar, amar, até morrer. Anteciparia o dia marcado, só de raiva. Não sei, não. A ideia é muito confusa. Talvez eu nem fizesse nada. Era possível, até, que eu me matasse antes”.

– “Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, amar, achar a verdade nas coisas que faz. Detesto o desespero e a fossa. Não morreria por nada neste mundo porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo é de viver de amores”.

– “Meio inconsciente, me tornei mito e ídolo, ou mulher símbolo da liberdade, pregadora-mor do amor livre. Muita gente não entende o que é isso. Só quero que o amor seja simples, honesto, sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão”.

– “Todo mundo neste país é ator, sobreviver na zorra deste país é uma puta arte”.

– “Sim, eu dou para todo mundo. Mas não para qualquer um” (defendendo-se de uma “cantada” grosseira de um político à saída do espetáculo Tem banana na banda).

 

– “Porra, será que isso tudo é que é amar? Será que isso é que é dar? Porra, eu queria berrar ao mundo que nós estamos todos errados, que não é nada disso. Que somos criados como umas bestas, que nossos sentimentos são de tal forma deturpados e moldados por conceitos e preconceitos que viram farrapos, viram zona, que nós somos um poço de insegurança e egoísmo, que lutamos e nos debatemos em nós mesmos, e como não temos coragem de enxergar isso, de enfrentar isso, matamos os outros. Eu queria saber dizer a todo mundo que nós estamos nos destruindo uns aos outros e nos derrotando a nós mesmos” (Trecho de um de seus diários, 21 de outubro de 1969).

 

“Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, Milton Nascimento.

 

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Leila

(PARA SEMPRE!)

Diniz

Leila Diniz – sobre as convenções esfarinhadas mas recalcitrantes, sobre as hipocrisias seculares e medulares: o riso aberto, a linguagem desimpedida, a festa matinal do corpo, a revelação da vida.

Leila Diniz – o nome acetinado de cartão-postal, o sobrenome de cristal tinindo e partindo-se, como se parte, mil estilhas cintilantes, o avião no espaço – para sempre.

Para sempre – o ritmo da alegria, samba carioca, no imprevisto da professorinha ensinando a crianças, a adultos, ao povo todo, a arte de ser sem esconder o ser.

Leila para sempre Diniz, feliz na lembrança gravada: moça que sem discurso nem requerimento soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão”.

Carlos Drummond de Andrade.

Diante dos vocábulos empregados pelo poeta, nada que se teça parece bom o suficiente para descrever a grandiosidade de Leila Diniz. Resta-se, pois, deixar registrado sinceros agradecimentos à Leila por tudo que ela foi, lutou (sem se atrelar a estereótipos, bandeiras, partidos ou ideologias), representou e continua significando, sempre em prol da liberdade: não só a liberdade feminina, como também a liberdade de todos serem o que quiserem. Faz uma revolução da alegria e do prazer. Obrigada, Leila, por ter enfrentado a hipocrisia e não ter dado ouvidos a maldade de quem nada sabia. Obrigada, Leila, por seus papeis e por acreditar no cinema brasileiro. Obrigada, Leila, por ser o exemplo mais verdadeiro do verbo ser. Obrigada, Leila, por ser, ainda hoje, tão Leila na memória de quem a admira e viva dentro de quem acredita na liberdade. “Esta é a “revolução” de Leila: trazer à luz do dia comportamentos femininos já existentes, mas que eram vividos como estigmas, proibidos, ocultos, recalcados”, conclui Mirian Goldenberg. Regina, em afirmação captada por Goldenberg, diz: “Nós todos aprendemos muito com a Leila. Aprendemos a ser verdadeiros, inteiros, coerentes conosco mesmo e não com o que a sociedade quer”. Obrigada, Leila Diniz, por ter sido a glória da vida!

 

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“Sou uma pessoa livre e em paz com o mundo. Conquistei a minha liberdade a duras penas, rompendo com as convenções que tolhiam os meus passos. Por isso, fui muitas vezes censurada, mas nunca vacilei, sempre fui em frente. Tudo o que fiz me garantiu a paz e a tranquilidade que tenho hoje. Sou Leila Diniz, qual é o problema?“.

 

Produções audiovisuais nas quais Leila é homenageada:

Leila Diniz, de Luiz Carlos Lacerda (1987);

Leila para sempre Diniz, de Sérgio Rezende e Marisa Leão (1974);

Já que ninguém me tira para dançar, de Ana Maria Magalhães (1982).

Para a realização da presente matéria, foram utilizados como fonte os seguintes livros:

Toda mulher é meio Leila Diniz, de Mirian Goldenberg (Edição BestBolso, 2008);

Leila Diniz, coleção Aplauso Cinema Brasil, (Imprensa Oficial, 2010);

Leila Diniz (uma história de amor), de Cláudia Cavalcanti (Brasiliense, 1983);

Leila Diniz (Filmes – Homenagens – Histórias), Centro Cultural Banco do Brasil (2002).

Perfis Brasileiros: Leila Diniz, de Joaquim Ferreira dos Santos (Companhia das Letras, 2008).

Leila Diniz, coleção Biblioteca Época: Personagens que marcaram Época (Editora Globo, 2006).

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