Traffik, um final feliz que não existe

Traffik — Liberdade Roubada (Traffik, 2018) é um filme que, a primeira vista, parece girar em torno da vida de uma mulher e seus dramas pessoais, porém em certo ponto percebemos que se trata de algo muito maior e mais sério.

A primeira cena do filme uma garota sequestrada e violentada gera uma certa confusão e chega até a ser esquecida enquanto os personagens principais são apresentados: Brea (Paula Patton) e John (Omar Epps) decidem passar o final de semana em uma casa de campo, onde ele planeja pedi-la em casamento. A caminho do local, no entanto, a tranquilidade do final de semana romântico começa a se perder.

O casal para em um posto de gasolina para abastecer, e desde o momento em que eles descem do carro é possível perceber que tem algo estranho acontecendo ali. Uma gangue de motoqueiros, um cara que passa de bravo a gentil em segundos, uma mulher perturbada no banheiro. A cena, que normalmente duraria alguns poucos minutos, se estende de forma tão longa e arrastada que causa uma certa aflição, como se o espectador também estivesse presenciando tudo aquilo e mal pudesse esperar para sair de lá.

Quando os dois chegam na casa, finalmente, conseguem aproveitar um momento de romance, porém há um certo clima de calmaria antes da tempestade. Parece que o diretor se prolonga demais em cenas de pouca importância e pouca ação. No posto de gasolina, isso contribui para absorvermos cada detalhe do que há de errado no local, porém nas cenas de romance e de conversa do casal acaba criando um certo tédio, já que esperamos e esperamos em vão que algo aconteça.

Brea e John são surpreendidos pela chegada de seus amigos, Malia (Roselyn Sánchez) e Darren (Laz Alonso), e os quatro ficam intrigados quando um telefone estranho começa a tocar dentro da bolsa de Brea. Ao conseguirem desbloquear o telefone, ficam perturbados com seu conteúdo e a cena logo no início do filme começa a fazer sentido. Eles acabaram de se envolver em um esquema de tráfico humano.

Antes que consigam contatar a polícia sobre o que encontraram, a gangue que comanda o tráfico aparece na porta da casa. A partir daí cabe a eles correrem por suas vidas, já que os criminosos farão de tudo para manter seu negócio em segredo. As cenas de ação e perseguição se seguem no restante do filme. Brea começa irritar o espectador quando toma decisões que priorizam sua carreira como jornalista acima de sua própria vida e de seu namorado. Ela perde tempo tentando provar para o seu chefe que tem uma grande reportagem em mãos, enquanto John luta para sobreviver. Esperamos tantas vezes que pelo menos a garota consiga se salvar e acabamos sempre frustrados, até que chega um momento no qual apenas aceitamos que a situação vai piorar ainda mais. O esquema de tráfico sobrevive alimentado pela corrupção das autoridades locais, que passam a ser mais uma ameaça.

O filme acaba com a clássica volta por cima da protagonista, que consegue finalmente acionar o FBI e libertar as garotas que seriam vendidas, mas está longe de ser um final feliz. Logo quando a história termina, os dados sobre pessoas que são vítimas do tráfico humano na vida real aparecem na tela, mostrando que este negócio movimenta milhões de dólares por ano.

O filme não é o melhor thriller, mas suscita uma reflexão sobre um problema pouco abordado. O tráfico humano só perde para o tráfico de drogas em tamanho e não recebe a atenção necessária. A maior parte das pessoas que desaparecem e tem o cruel destino de serem vendidas como objetos não possuem a sorte de cruzar com Brea no meio do caminho. Não é a toa que os créditos finais aparecem junto a cenas gravadas de ponta de cabeça: o mundo está mesmo ao contrário.

Traffik estreia no Brasil dia 20 de setembro, mas já é possível conferir o trailer cheio de suspense aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=oz-XiYNCo7o

por Fernanda Pinotti
fsilvapinotti@usp.br

 

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