TRILHA SONORA: “Once”: quando os compositores da trilha sonora puderam protagonizar o filme

Um cara que trabalha na loja de seu pai consertando aspiradores de pó, e se apresenta com seu violão nas ruas de Dublin nas horas vagas. Uma mãe solteira, imigrante tcheca, e entusiasta de piano que se sustenta fazendo vários bicos como faxinas ou vender rosas na rua. Apenas Uma Vez (Once, 2007) tinha todos os elementos possíveis para ser apenas mais um drama romântico pseudocult, mas logo no primeiro acorde de violão na primeira cena já sentimos que existe algo singular nesse filme.

(Imagem: Reprodução)

A produção do filme começou na verdade 2 anos antes da estreia. O diretor John Carney era baixista na banda irlandesa The Frames, e havia pedido ao vocalista – Glen Hansard – para que compusesse a trilha sonora deste seu novo projeto. Com a ajuda de Markéta Irglová, os dois não apenas criaram todas as canções do filme como também foram chamados para protagonizar a obra, e isto com certeza fez toda a diferença.

Não importa quão bom fossem outros atores profissionais que o diretor escolhesse, ninguém consegue transpassar melhor a intenção das canções do que quem as criou. O protagonismo do filme não é o casal em si, mas o elo criado entre eles a partir da música, e o fato dos personagens de ambos nem sequer ganharem nomes talvez seja o que mais escancare isso.

(Imagem: Reprodução)

Para fortalecer ainda mais a verossimilhança, o diretor tratou de colocar nos personagens ligações com a vida real dos músicos. Glen largou seus estudos ainda aos 13 anos de idade para se tornar músico de rua, Marketa realmente é uma imigrante da república tcheca apaixonada por pianos. Essas ligações não apenas facilitaram a atuação deles, mas também depositaram uma carga de realidade que torna o filme quase que uma exibição documental sutil do nascimento de uma relação amorosa, na qual o amor se manifesta majoritariamente através da trilha sonora.

A cena que pode resumir toda a concepção do filme é o momento em que o casal apresenta “Falling Slowly”. Esta é a primeira música que eles tocam juntos, e o começo é exatamente uma metáfora para a forma tímida que se conheceram (durante uma apresentação na rua do personagem de Glen), e como aos poucos foi se construindo uma relação de confiança. Ao passo que os acordes e as notas do piano vão se entendendo, o casal vai entrando em sintonia e se completa. Conforme a canção avança, o quadro da câmera também fecha, traduzindo a aproximação dos dois.

A autenticidade da conexão entre os dois torna-se quase palpável, e não é à toa que “Falling Slowly” conquistou até mesmo o Oscar de Melhor Canção Original em 2008.

A beleza que se cria da simplicidade na trilha sonora de Apenas Uma Vez surpreende muito para um filme independente irlandês de baixo orçamento. Se não pretende assisti-lo, o álbum que agrupa todas as canções da trilha sonora definitivamente vale o seu play.

Este texto faz parte do especial de 10 anos do Cinéfilos. Para ver mais da antiga editoria Trilha Sonora, clique aqui.

Por Léo Lopes
leo.lopes@usp.br

 

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