Não conhece o nome Wachowski? Tudo sobre Lana e Lilly, as irmãs que arrebentam em Hollywood

(Imagem: Maria Laura López/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

“Eu só posso te mostrar a porta. Você tem que atravessá-la”, disse Morfeu (Laurence Fishburne) no incrível Matrix (The Matrix, 1999) que veio, na época, para questionar toda a realidade que vivemos. E claro que, a partir desse filme, todo mundo passou a conhecer o nome Wachowski.

E não foi por pouco: as irmãs reinventaram Hollywood com a trilogia Matrix, colocando em outros níveis o gênero ficção-científica. Mas nem só dessa trilogia que as irmãs podem ter orgulho: entre trabalhos como V de Vingança, Speed Racer e Sense8, as Wachowski caminharam e trabalharam duro para chegar aonde estão. Para se ter um pouco de noção disso, aqui está a história das duas:

(Fotos: Frederick M. Brown/Getty Images / Mike Coppola/Getty Images)

 

Lana Wachowski nasceu no dia 21 de junho de 1965 e cresceu sob o nome de Laurence (Larry) Wachowski, ao passo que Lilly nasceu em 29 de dezembro de 1967, crescendo como Andrew (Andy) Paul Wachowski. As duas moravam com seus pais, Lynne e Ron, em Chicago, Illinois.

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Ambas as irmãs estudaram na Whiney M. Young Magnet High School, mas se separaram quando entraram na faculdade. Lana foi para a Bard College enquanto Lilly estudou na Emerson College, porém, as duas saíram antes de se formarem, e começaram a trabalhar juntas com carpintaria enquanto escreviam para a Marvel Comics, na série Ectokid.

Mesmo sendo biologicamente identificada como pertencente ao sexo masculino, Lana cresceu dividida entre os dois gêneros — “Me disseram para entrar na fila depois que tocou o sinal da manhã, meninas em uma fila, meninos em outra. Eu passei pelas meninas sentindo esse estranho, poderoso sentimento de associação, mas uma parte de mim sabia que era para eu continuar andando. Mas assim que eu olhei para a outra fila, eu senti algo que me confundiu. Eu também não pertencia ali. Parei entre as duas [filas]. A enfermeira, eu percebi, estava me encarando e gritando comigo. Eu não sabia o que fazer. Ela me pegou, gritando. Eu não estava tentando desobedecer, só estava tentando me encaixar. Meu silêncio começou a deixar ela com raiva, e ela começa a me bater”, disse em seu discurso pelo prêmio de Visibilidade no jantar de arrecadação de fundos para a Campanha dos Direitos Humanos em São Francisco, em 2012. Porém se identificava melhor como menina e, mais tarde, sofreu com depressão e tendências suicidas pela pressão por não se encaixar.

Foi somente em 2002 (durante as gravações das sequências de Matrix, na Austrália) que Lana começou a matutar a ideia de se aceitar transgênero e contou para seus pais. Desde então ela responde como Lana Wachowski. A irmã mais velha também já se casou duas vezes. A primeira foi com a ex-colega de trabalho, Thea Bloom, que durou de 1993 até 2002. A esposa atual de Lana não tem nome revelado por questões de privacidade.

Lilly, por sua vez, não dá depoimentos sobre sua vida passada, visto que se assumiu uma mulher transgênero recentemente, em 2016, mais precisamente no Dia Internacional da Mulher. Tanto que, após tornar o assunto público, optou por se retirar de produções que estava envolvida para poder focar em sua vida pessoal. Mas, mesmo com todo esse processo, Lilly ainda está com Alisa Blasingame, com quem casou em 1991.

As irmãs sempre trabalharam juntas, por isso ficaram conhecidas como As Wachowskis, indo desde produtoras e roteiristas até diretoras e — por que não? — os três ao mesmo tempo. Aqui está a filmografia dessa dupla incontestável (por ordem cronológica).

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Assassinos (1995)

Estrelado por Antonio Banderas (Miguel Bain) e Sylvester Stallone (Robert Rath), Assassinos (Assassins, 1995) conta a história de Robert, assassino de aluguel que quer terminar os últimos contratos antes de se aposentar, mas um outro assassino ambicioso — Miguel — está matando os alvos de Robert. Foi com esse filme que as irmãs estrearam no cinema, mas não foram recebidas muito bem: com críticas negativas e, atualmente, 15% de aprovação no Rotten Tomatoes, não foi de primeira que as Wachowskis acertaram. Ambas foram somente roteiristas do longa, deixando a direção para Richard Donner.

 

 

 

 

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Ligadas Pelo Desejo (1996)

Aqui, as irmãs já começavam a satisfazer a crítica. Agora elas trabalham nesse projeto como produtoras, roteiristas e diretoras. Com elogios consideráveis, as Wachowskis já caminhavam para deixar seus nomes gravados na mente de todos, além do sucesso ter dado às irmãs a oportunidade para dirigir seu próximo projeto (Matrix). Ligadas Pelo Desejo (Bound, 1996) é sobre duas lésbicas Corky (Gina Gershon) e Violet (Jennifer Tilly) que planejam um esquema para roubar dinheiro da máfia. Hoje em dia o longa está com uma porcentagem de 92% de aprovação da crítica.

 

 

 

 

Matrix (1999)

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E é com esse filme que quem não conhecia o nome Wachowski, passou a conhecer. Matrix (The Matrix, 1999) simplesmente revolucionou o gênero ficção-científica. Considerados por muitos uma obra de arte para a época, o longa que conta com nomes como Keanu Reeves (Neo), Laurence Fishburne (Morfeu) e Carrie-Anne Moss (Trinity) custou US$65 milhões e arrecadou US$456 milhões. Esse sucesso muito se deve à história inovadora, além de tecnologias novas usadas como nunca antes se tinha imaginado. As Wachowski criaram o “bullet-time”, que é constituído em exibir a cena em câmera lenta ao mesmo tempo que mostra por diferentes ângulos os elementos se movendo em velocidade reduzida (Exemplo: a cena do Neo desviando dos tiros).

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Matrix Reloaded (2003)

Após o sucesso de Matrix, era óbvio que haveria uma sequência. Três anos depois, Matrix Reloaded (The Matrix Reloaded, 2003) chegava aos cinemas e trazia de volta os mesmos personagens, inclusive Neo já está acostumado com a Matrix e consegue circular entre os dois mundos do longa. Também foi bem na bilheteria, porque custou US$127 milhões e lucrou US$742 milhões.

 

 

 

 

 

 

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Matrix Revolutions (2003)

O desfecho dessa trilogia veio no mesmo ano, com Matrix Revolutions (The Matrix Revolutions, 2003). O longa é focado na luta final entre Neo e Smith, tudo roteirizado, produzido e dirigido pelas Wachowski, com o orçamento de US$110 milhões e o lucro de US$427 milhões. Muitos consideram que a trilogia foi decaindo de qualidade da trama, mas ainda é indiscutível a importância da trilogia para o cinema mundial e como decolou a carreira das irmãs.

 

 

 

 

 

 

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Animatrix (2003)

Produtoras e roteirista de Animatrix (The Animatrix, 2003), Lilly e Lana trazem ao público nove contos de curta-metragem que se passam no universo de Matrix. Foram usados computação gráfica e anime japonês tradicional, mas infelizmente só fez sucesso entre os fãs da trilogia, não atingindo o público geral.

 

 

 

 

 

 

 

 

V de Vingança (2005)

(Foto: Divulgação)

Depois do sucesso da trilogia Matrix, V de Vingança (V for Vendetta, 2005) foi o longa que fez mais sucesso comercialmente para as irmãs. A trama é situada em uma futurística tirania britânica, onde Evey (Natalie Portman) é salva por um homem mascarado conhecido como “V”, que se rebela contra a tirania e provoca uma revolução. Evey então descobre seu papel no plano de “V” para trazer liberdade para seu país. A história é uma adaptação dos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd.

(Imagem: Divulgação)

Invasores (2007)

Embora as irmãs Wachowski tenham sido roteiristas em Invasores (The Invasion, 2007), elas não foram creditadas no longa. No elenco, estavam nomes como Nicole Kidman e Daniel Craig e a trama é uma adaptação de um livro de 1955, que conta a história de uma infecção alienígena que se espalha pelo planeta. Os sintomas deixam as pessoas sem traços de humanidade e insensíveis.

 

 

 

 

 

 

Speed Racer (2008)

(Imagem: Divulgação)

Depois de cinco anos desde Matrix Revolutions, de novo as Wachowski iriam produzir, roteirizar e dirigir mais um filme, e dessa vez era Speed Racer (2008). O longa é um live-action do mangá e do desenho animado criado nos anos 60, conhecido no Japão como Mach Go Go Go. A trama foi recebida bem pelo público, porém não foi um sucesso de bilheteria, arrecadando apenas US$93 milhões, quando gastaram US$120 milhões.

Ninja Assassino (2009)

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Na décima produção audiovisual das irmãs, elas participaram somente como produtoras, tendo James McTeigue como diretor. A trama conta a história de um assassino de aluguel de uma sociedade secreta, que acaba fugindo dela e tem que salvar uma mulher ameaçada pela mesma sociedade secreta.

(Imagem: Divulgação)

A Viagem (2012)

Depois de Matrix, A Viagem (Cloud Atlas, 2012) foi o próximo projeto grande das irmãs. Nesse elas também fizeram o papel de produtoras, roteiristas e diretoras. O longa é ambicioso, com quase três horas de duração e um elenco que conta com Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Susan Sarandon e Doona Bae — que viria a trabalhar com as irmãs mais uma vez em Sense8 (2015-2018). Apesar da grande produção, só arrecadou US$130,5 milhões, apenas 2 milhões a mais do que custou.

 

 

 

 

(Imagem: Divulgação)

O Destino de Júpiter (2015)

Esse novo longa conta sobre Júpiter Jones (Mila Kunis), que mora nos EUA quando alienígenas tentam matá-la. Caine (Channing Tatum), soldado de outro planeta, salva Júpiter. Ela então descobre que é uma reencarnação de uma rainha, então tem que enfrentar seu destino e proteger o planeta Terra. Assim como trabalhos anteriores, O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015) explora muito os efeitos visuais.

 

 

 

 

 

 

 

Sense8 (2015-2018)

(Foto: Divulgação)

Depois de 16 anos desde o estouro do nome Wachowski, as irmãs continuavam a fazer trabalhos memoráveis. Em 2015, trabalhando para a Netflix, Lana e Lilly entregaram para o público a série Sense8. Com autoria, produção e direção totalmente próprias, as irmãs conseguiram conquistar um público novo e diferente dos que já tinha atingido. A série conta a história de um grupo de oito pessoas ao redor do mundo que, de repente, são conectadas mentalmente e se veem em uma situação onde precisam achar um jeito de sobreviver daqueles que acham que eles são uma ameaça para a ordem mundial.

Infelizmente, houveram alguns problemas durante a produção da segunda temporada da série, com a substituição do ator Aml Ameen pelo ator Toby Onwumere e a saída de Lilly Wachowski em 2016, devido sua decisão de focar em sua vida pessoal. Assim, Lana seguiu com a produção sozinha: era a primeira vez que as irmãs não trabalhavam juntas.

Em 2017 foi entregue a segunda temporada e, logo depois o anúncio do cancelamento da série. Graças aos fãs que pediram muito o retorno —  e a própria Lana, que se mostrou disposta a continuar com a série —, a Netflix voltou com sua palavra e prometeu um episódio especial de duas horas para a série. No ano seguinte, o especial foi lançado.

O nome Wachowski pode ser bem conhecido, dado os projetos audiovisuais que deram fama às duas, mas com certeza sua história e todo os seus trabalhos cinematográficos não são tão conhecidos assim. Após todas essas informações, dá para ver a importância de Lana e Lilly no cinema e o quanto ambas trabalharam para chegar aonde estão. Sense8 pode ter sido o trabalho mais recente da dupla, mas com certeza não será o último, e é no aguardo que nós ficamos para possíveis projetos futuros das Irmãs Wachowski, que estão acostumadas a fazer história.

 

Nota da autora sobre a escolha de palavras: Mesmo que Lana tenha se assumido uma mulher transgênero em 2002 e Lilly em 2016, é importante ressaltar que a escolha por tratar ambas com o nome atual escolhido por elas é em sinal de respeito com a decisão das irmãs, pois houve tempos, na mídia, em que ambas eram referidas como Irmãos Wachowski ou mesmo Os Wachowski por ainda não terem se assumido publicamente. Assim, para não haver desentendimento, Lana respondia como Larry até 2002, e Lilly como Andy até 2016. Porém, no texto, elas sempre são referidas pelos nomes atuais.

por Gabrielle Yumi
gabrielleyumif@gmail.com

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