Um Tio Quase Perfeito: a renovação do óbvio em family film brasileiro

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    O Cinéfilos participou também da coletiva de imprensa do longa, que aconteceu no último dia 12, em São Paulo, e reuniu o elenco, diretor e produtora de Um Tio Quase Perfeito. Foto: Laura Molinari

Estreia de Marcus Majella como protagonista no cinema nacional, Um Tio Quase Perfeito (2017) é um típico filme do gênero family film. Este, ainda não muito explorado em solo nacional, costuma retratar o universo familiar de forma a cativar pessoas de todas as idades. Como afirma o próprio diretor, Pedro Antonio, em coletiva de imprensa, o longa procura atender aos gostos tanto do público infantil quanto do adulto de forma leve, divertida e de fácil compreensão.

O longa traz a história de Tony (Marcus Majella), um charlatão que sobrevive de pequenos trabalhos informais pelas ruas do Rio de Janeiro junto de sua mãe, Cecília (Ana Lúcia Torre). Após serem despejados do modesto apartamento onde viviam, os dois buscam abrigo na casa de Ângela (Letícia Isnard), a filha certinha e bem sucedida de Cecília. A confusão tem seu início quando Ângela parte para uma viagem de 15 dias e encarrega o cuidado de seus três filhos aos recém-chegados, que não têm experiência alguma com a agitada rotina das crianças.

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Imagem: reprodução

Trazendo uma proposta diferente do que se é apresentado na maioria da comédias nacionais, o filme foge do humor escrachado e da baixaria, inovando com a leveza e inocência comuns ao público que se quer atingir. Majella, inclusive, que já é conhecido por suas inúmeras atuações voltadas a um público mais velho, surpreende ao não arrancar tantas gargalhadas do público, mas, mesmo assim, divertir e cativar emocionalmente o espectador.

No entanto, essa surpresa pode vir a ser negativa quando as expectativas do público se moldam em torno do trailer lançado, pois ele induz a uma ideia completamente diferente da que é transmitida pelo filme. Enquanto o primeiro sugere uma produção que garantirá boas risadas, o que acaba se vendo são piadas simplórias e esparsas, que não provocam reações na fração do público mais madura, deixando-a até desconfortável em alguns momentos. Além disso, todos os picos de humor já são explicitados nas cenas divulgadas previamente, e isso corrobora com a perda da “magia” do script. Ademais, o espectador ainda consegue ter uma grande noção de toda a trama antes mesmo de assisti-la. Com um roteiro pouco inovador e com personagens que não saem do óbvio, o enredo desenvolve-se exatamente como se espera, com transformações e diálogos muito previsíveis.

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Imagem: reprodução

Como o próprio diretor afirma, o filme tem como inspiração vários family films estrangeiros – ele cita o francês O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas, 2010) como um deles – e obtém sucesso ao adaptar o gênero para uma realidade brasileira: “Fazer um family film no Brasil é tentar entender o que une a família brasileira, de onde surge essa família e como se pode dialogar com ela”, explica Pedro Antonio. Pequenos detalhes enriquecem a identidade do filme, como a ambientação em uma casa com a qual o público facilmente se identifica e as várias alusões a ícones de nossa cultura e sociedade. A própria personalidade do protagonista carrega muitos aspectos comumente associados ao perfil brasileiro, como a preguiça, a irresponsabilidade e a malandragem, mas também o carisma e a alegria.

Entre deslizes e acertos, Um Tio Quase Perfeito não falha ao trazer à tona uma grande lição de superação. Não somente Tony aprende a querer bem aos seus sobrinhos, a conviver com eles e a protegê-los, mas o inverso também ocorre. As crianças, que de início mantêm certo distanciamento e agem com desconfiança diante do tio, acabam tendo suas pré-concepções derrubadas e entendem que a união é possível mesmo ante as diferenças. Júlia Svacinna, que atua no papel de Patrícia, a irmã mais velha, confirma: “Esta história passa a lição de que nunca é tarde para mudar.” E quando se fala de superação e de união, não se pode negar que, por trás disso tudo, está presente um amor que sustenta a narrativa do início ao fim. Ana Lúcia Torre, que é avó na narrativa e na vida real, entende que o filme “não é uma comédia que se perde na comédia. Ela fala de família, das relações entre as pessoas. Quando a família tem laços de amor, ela pode brigar e se desentender por um tempo, mas o amor estará ali segurando tudo”.

O filme estreia dia 15 de junho nos cinemas. Assista (ou não) ao trailer abaixo:

por Giovanna Jarandilha e Laura Teixeira Molinari
giovannajarandilha@gmail.com | lauratmolinari@gmail.com

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