Uma visita à Vanguarda no Cinusp

Os movimentos de vanguarda do cinema americano romperam com a narrativa dramática, estética realista e espetáculo polido dos grandes estúdios, atravessando décadas para manifestar sua influência visual e temática até o presente. Mas no meio de sua intensa produção, dos escritos históricos e da mitologização dos autores e das obras, algumas narrativas se perderam, como é o caso da verdadeira dimensão do papel feminino no movimento.

Para jogar nova luz no assunto, o Cinusp Paulo Emílio abriu suas portas em nova mostra, Mulheres de Vanguarda, que expõe filmes de cineastas como Maya Deren, Marie Menken, Carolee Schneeman, entre outros nomes importantes do movimento alternativo. Ao todo, são doze diretoras, com obras produzidas desde a década de 40.

Imagem de divulgação da mostra

No dia em que três filmes da pintora e cineasta Marie Menken foram exibidos, o público compareceu em número razoável para a sessão que começou pontualmente às 19 horas. Apesar da significação oblíqua do cinema avant-garde, ele parece exercer um fascínio sútil no público, através do visual lavado de película antiga, cortes secos e estética fragmentada.

O primeiro dos três filmes exibidos, Visual Variations on Noguchi (1945), possui trilha sonora dissonante e movimentos de câmera trabalhados, que ressaltam as formas e a materialidade das esculturas do artista Isamu Noguchi. Diante da experiência sensorial hipnótica, o que mais surpreende é a semelhança estética da película com qualquer videoclipe de banda indie atual.   

Andy Warhol (1965), com 22 minutos não sonorizados de duração, registra a montagem de uma exposição do artista. A câmera busca seu assunto com olhar afiado e curioso. O trabalho de Warhol divide espaço com outros elementos, como um gato andando pela oficina, sem muita distinção de importância. O uso da técnica single-frame, que acelera o movimento do filme projetado, nos impele através de borrões de movimento e a edição ágil nos transporta de espaço, tempo e velocidade.

O último filme da noite, Go Go Go (1964), é uma espécie de diário visual urbano. Não se limitando a imitar o olhar humano, a técnica de aceleração se repete, e a artista transita pela cidade à procura de elementos visuais que valham a pena. Uma viagem de carro a mil por hora, enormes barcos que parecem brinquedos na banheira quando vistos de longe, um canteiro de obras que, de cima, parece um formigueiro. Não seriam os vídeo-diários que vemos com frequência no YouTube filhos bastardos desse tipo de experimento?

Quadros dos filmes exibidos – Visual Variations on Noguchi, Andy Warhol e Go Go Go, respectivamente

Ao final da sessão, a convidada Patrícia Mourão, doutorada pela USP e especialista no cinema americano de vanguarda, apresentou uma contextualização do papel das diretoras no movimento, indo além dos filmes exibidos. Foi abordada a narrativa construída ao seu redor, bem como o papel secundário que a perspectiva dominante tentou impor às artistas daquele período.

Integrar a vanguarda significa estar à frente de seu tempo, à parte de seus pares, afastado das convenções contemporâneas. A vanguarda apresentada na mostra trata tanto dos experimentos plásticos e tópicos das diretoras, como sua atuação em uma área com muitos pontos cegos em relação ao papel igualitário das mulheres. Está claro que estamos assistindo ao trabalho de artistas transgressoras. A mostra, Mulheres de Vanguarda, cria uma nova dimensão para os visitantes, enriquecendo a experiência das obras, e deixando as portas do cinema alternativo abertas ao público.

por Hugo Reis
hugo.vaz.reis@gmail.com

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