Utopia e Barbárie, relatos históricos

por Jullyanna Salles
salles.candido@gmail.com

Utopias são as responsáveis por mover a sociedade. A procura constante pela melhora, seja ela política, sistêmica ou econômica, é decorrente da busca pelo ideal. Com isso, existem inevitáveis choques de ideologia que podem resultar na quebra de expectativa. A barbárie é inseparável da utopia. Se apresenta no aniquilamento de projetos e ideias. Quando uma utopia se dissolve, por qualquer motivo que seja, aqueles que acreditavam nela se vêem obrigados a enfrentar a barbárie, ou seja, um modo de viver retrógrado, em desalinho com o desenvolvimento que acreditam possível. Silvio Tendler trata, no documentário Utopia e Barbárie (2009), da sua visão do mundo pós Segunda Guerra Mundial.

O cineasta

Silvio Tendler é um cineasta carioca conhecido por sua produção ligada à história brasileira. Sua filmografia contém obras biográficas como Jango (1984), Os Anos JK (1980), Glauber o Filme (2003) e Tancredo, A Travessia (2011). É um dos criadores da Fundação do Novo Cinema Latino Americano. Sua posição política é bastante forte em seus filmes, demonstrando seu engajamento com a luta social. Como seus trabalhos geralmente levam anos para serem finalizados, costuma realizar vários simultaneamente. Em Utopia e Barbárie, Tendler insere trechos de sua própria história. Suas experiências no Chile de Salvador Allende e na França agregam conteúdo ao roteiro, aproximando o espectador dos acontecimentos e quebrando o marasmo que seria comum em um documentário com duas horas de duração.

Técnica e produção

Utopia e Barbárie levou aproximadamente 19 anos até o lançamento. Nele, diversos depoimentos são intercalados com um arquivo gigantesco de fotografias e vídeos sobre o assunto discutido. O primeiro deles, o ataque nuclear à Hiroshima, conta com imagens bastante chocantes que inserem um tom de representação da brutalidade que acompanha o longa até o fim. Enquanto isso, uma sobrevivente dos bombardeamentos conta sua história, garantindo a realidade dos acontecimentos com menos crueldade visual, mas com o sofrimento indissociável da voz. O tema é, como o nome sugere, utopias. Baseando-se nisso, Silvio Tendler se estende para as diferentes idealizações presentes no mundo, sobretudo no período pós Segunda Guerra Mundial. As sequências são curtas, muitas vezes as narrativas e depoimentos se sobrepoem às imagens. O ritmo do documentário é bastante agitado e entre uma cena e outra, são colocados títulos que indicam um novo tema, como capítulos de um livro.

Conflitos

São várias as situações que Tendler coloca em seu documentário, inclusive as grandes tragédias como o holocausto, as bombas em Hiroshima e a guerra do Vietnã. O grande destaque da produção, no entanto, são os acontecimentos na América. A representação da revolução cubana é realizada através de imagens históricas da luta armada e de pequenos discursos de Fidel Castro e Che Guevara.

 

A eleição de Salvador Allende, no Chile, também é um dos pontos altos do longa. Toda a história do país e de como ele elegeu democraticamente um governante que era simpatizante ao socialismo é retratada com a propriedade de quem viveu aquela realidade. As ações americanas de apoio ditatorial também são inseridas, assim como as imagens do ataque ao Palacio de La Moneda que culminou na morte do presidente.

Fazem parte do conteúdo brasileiro vários momentos dos 21 anos de ditadura militar. O golpe, em 1964, passando por um tenebroso 1968 com a aprovação do Ato Institucional 5. Além disso, arquivos emocionantes do reingresso dos então exilados políticos em 1979 e, por fim, a luta do movimento Diretas Já. É possível conferir, inclusive, uma entrevista da atual presidenta brasileira, Dilma Rousseff, falando sobre seu envolvimento com a luta pela democracia.

Em geral, o documentário aborda ainda outros movimentos como a Primavera de Praga, a queda do muro de Berlim e a disseminação do neoliberalismo e da globalização pelo mundo. Todo o material audiovisual histórico acoplado à produção enriquece Utopia e Barbárie a ponto de acabar o transformando também em um documento de importância para a história. Silvio Tendler retrata, como diz, “os orgasmos da história” e encerra justificando que sua obra é inacabada, alegando que “essa história não tem ponto final, termina com reticências”.

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