Vida – o Alien 2.méh

“Tubarão no espaço”. Esse foi o argumento que convenceu os produtores a criar o primeiro de uma das maiores franquias do cinema: Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, 1979). Mesmo que 82 tenha sido marcante para os alienígenas da sétima arte, com E.T. – O Extraterrestre (E.T. the Extraterrestrial) e Enigma do Outro Mundo (The Thing), Alien é a pedra-chave para toda e qualquer história de suspense no espaço. No entanto, além de Alien: Covenant marcar mais um capítulo da série, talvez nunca tenha se escrito tanto sobre espaço como hoje. Só nos últimos anos, A Chegada (Arrival, 2016), Perdido em Marte (The Martian, 2015), Interestelar (Interstellar, 2014) e Gravidade (Gravity, 2013), sem contar o retorno de grandes franquias como Star Trek e Star Wars, tem despontado grandes bilheterias (e em alguns casos, incríveis filmes). Nesse contexto, a descoberta de uma forma de vida destrutiva de Marte que foge do controle em Vida (Life, 2017) e passa a matar os tripulantes da Estação Espacial Internacional chega no ápice de obras do gênero. Infelizmente, por mais que possua suas virtudes e um elenco de nomes como Jake Gyllenhaal e Ryan Reynolds, os problemas também se mostram incômodos.

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Passando o primeiro terço ambientando a estação e apresentando as personagens que acompanharemos adiante, o filme se preocupa em legitimar cientificamente a natureza e evolução biológica do ser (que eles batizam de Calvin). Isso, por um lado nos fascina, como também nos faz refletir sobre nossa própria condição predatória, uma vez que a existência da espécie humana se fundou na necessidade de “matar para sobreviver” – como o biólogo Hugh (Ariyon Bakare) fala de Calvin. Nesse aspecto, Vida é provavelmente muito mais técnico e “real” do que Alien. Quando passamos a observar os aspectos fílmicos, por outro lado, o mesmo já não pode ser dito.

Não há dúvida de que a impotência dos astronautas na cena em que o ser foge e o alerta em torno de seu paradeiro imprimam um suspense bastante eficaz aos ataques – que é ainda realçado pela violência gráfica das mortes. Contudo, esse senso de urgência é sabotado por um roteiro que constantemente torna os tripulantes videntes ao premeditar todos os movimentos de Calvin. Quando em determinado momento, o ser sai da nave, o piloto Sho (Hiroyuki Sanada) aponta que um possível ponto de entrada são os propulsores, impedindo então cada tentativa de ingresso. Mais tarde, Calvin engole um rastreador. O problema aqui não é a existência desses momentos, o problema é que quase sempre os astronautas saibam os movimentos futuros da criatura; perde-se um fator de dúvida muito grande.

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Esse esquematismo do roteiro também ocorre na progressão repetitiva da narrativa. Em outras palavras, Calvin surge, mata e some. Nesse respiro, as personagens relembram a infância. Calvin reaparece, mata e some. Agora Hugh chora dizendo que a culpa é dele, e assim vai. Basicamente, o filme funciona nesses dois momentos em ciclos, e mais uma vez, o problema não é que eles existam, mas que a reincidência deles torna o enredo previsível e anticlimático. Se Alien ou Aliens, O Resgate (Aliens, 1986) funcionavam era justamente por mexerem com a expectativa em nível psicológico. Nisso ainda, o diretor Daniel Espinosa ainda peca ao tomar alguns cortes do ponto de vista de Calvin, que tiram qualquer resquício de indeterminação do ofensor, eliminando mais uma vez o suspense que poderia ser gerado disso.

Vida até surpreende com o destino precoce de uma das estrelas principais que encabeça o projeto, mas frente a tantas idas e vindas, o final inesperado surge frágil. Por mais desconcertantes que algumas cenas possam se principiar, a ideia que fica é a de que os gritos no espaço já foram (antes) muito mais inaudíveis (e assombrosos).

 

Trailer legendado:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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