A vingança no cinema sul-coreano

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

Quem nunca ouviu falar em Kill Bill (Kill Bill, 2003), Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) ou Busca Implacável (Taken, 2008)? A vingança sempre foi um tema de apelo artístico (e comercial), e Hollywood soube muito bem aproveitar, bombardeando-nos constantemente com novas e glamourosas estórias de redenção. Mas será mesmo tão nobre o revanchismo da ação? Ou tudo isso não passa de um olhar ingênuo e romântico do cinema americano? Talvez uma boa resposta esteja do outro lado do Pacífico, mais precisamente na Coreia do Sul.

Coreia_1Mesmo com um sistema de cotas datado da década de 60, o audiovisual sul-coreano só foi deslanchar nos anos 2000 com o incentivo governamental. Desde então, nomes como Chan-wook Park, Joon-ho Bong, Ki-duk Kim e Chang-dong Lee surgiram em diversos festivais internacionais como expoentes desse pulsante cinema. Enquanto os dois últimos, com seus Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom, 2003) e Poesia (Shi, 2010), apresentavam uma faceta mais lírica e intimista, seria principalmente Park e seu Oldboy (Oldeuboi, 2003), o responsável por despertar o interesse do Ocidente pelas fábulas de vingança da ilha. Mas de onde será que surgiu essa tradição?

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Uma possível explicação remete ao passado histórico do país. Tendo se desenvolvido sob o domínio de potências estrangeiras – como a China, o Japão e, indiretamente, os EUA –, passado por diversos momentos ditatoriais e sofrido grandes perdas durante a Guerra das Coreias, os sul-coreanos ainda tiveram que enfrentar uma forte crise econômica pouco tempo depois que a democracia havia sido instalada. Com anos de sofrimento internalizado, não é surpresa que tristeza, raiva e vingança venham todas ao mesmo tempo. E se socialmente os ânimos ainda tenham que ser contidos, na arte não há amarra que os segure.

Primeiro na trilogia da vingança de Park (da qual Oldboy também faz parte), Mr. Vingança (Boksuneun Naui Geot, 2000) traz os esforços de Ryu por um transplante de rim para a irmã. Não obtendo sucesso por meios convencionais, ele recorre ao mercado negro e acaba tendo o seu próprio rim retirado. Sem dinheiro, ele decide por fim sequestrar e pedir o resgate de uma garota que, por uma infelicidade de eventos, acaba morrendo. Em resumo (spoilers), Ryu quer se vingar dos vendedores de órgão, assim como o pai da garota de Ryu. O pai mata então uma amiga de Ryu, que desperto em fúria, acaba também morto pelo mesmo. No fim de tudo, descobrimos ainda que essa amiga pertencia a um grupo terrorista que acaba assassinando o pai. (spoilers)

Mesmo não sendo um dos mais impactantes, Mr. Vingança ilustra perfeitamente a forma com que a vingança se manifesta no cinema sul-coreano: em mais vingança. Diferentemente de Hollywood, o maniqueísmo de mocinho se dar bem e vilão se dar mal não existe. Todos são ou acabam se tornando monstros. (spoilers) O protagonista de Eu Vi o Diabo (Ang-ma-reul Bo-at-da, 2010), de Jee-woon Kim, por exemplo, perpetra sua vingança através de uma série de torturantes capturas e solturas. Já a de Bedevilled (Kim Bok-nam Salinsageonui Jeonmal, 2010), de Cheol-soo Jang, vinga-se matando toda sua família e conhecidos. (spoilers) Uma vez terminado o trabalho, cada um perceberá ter sido consumido por algo que antes não fazia parte de seu ser. A redenção que tanto procuravam se mostrará inatingível. Afinal, nenhuma violência traz de volta o que fora perdido. Violência só gera mais violência. Como diria seu Madruga, “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.

A situação fica, no entanto, ainda pior, quando o que deveria vir como catarse ao trauma sofrido, surge como um vazio. (spoilers) Após concluir o plano de vingança de 13 anos, a protagonista de Lady Vingança (Chinjeolhan Geumjassi, 2005), último filme da trilogia de Park, percebe que mesmo vencendo, perdeu todo o desenvolvimento da filha, acabando então desolada por não ter conseguido prover a tão bonita maternidade. Em Eu Vi o Diabo, findada sua vingança, o protagonista aparece na última cena em prantos. Compare agora o sofrimento deste com a da satisfação do protagonista de Django Livre (Django Unchained, 2012), ambos após concluída a vingança. (spoilers) A crueza do primeiro torna o arco narrativo muito mais real.

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Se por si só, a frustração das personagens já não emociona, é interessante perceber como ela ainda diz algo mais profundo: inicialmente, a vingança pode até ser uma luta por justiça, mas no fim, ela se mostra simplesmente como uma forma de compensação de poder. E é aqui que percebemos o egoísmo da ação, uma vez que ‘justiça’ prevê o que é justo, correto, e ‘poder’, o mais potente, capaz.

Coreia_5Tratando-se de conflito de poderes, é preciso mencionar que a estética sul-coreana é extremamente violenta: é canibalismo, extração forçada de dentes, perfuração corporal com os mais diversos objetos pontiagudos (faca, martelo, machado, vidro), estupro, violência doméstica, tortura, escravidão e violência infantil, genocídio, decapitação, esquartejamento. Enfim, é sangue, muito sangue. Felizmente, essa violência não vem de forma gratuita, servindo na verdade para melhor retratar a insanidade das personagens. Artisticamente, muitas das cenas são bonitas. Oldboy tem, por exemplo, uma cena de luta num corredor em plano-sequência muito bem coreografada. Já O Caçador (Chugyeogja, 2008), de Hong-jin Na, investe em longas e tensas cenas de perseguição pelas vielas de Seul. Em contrapartida, diferentemente de James Bond ou Ethan Hunt, as personagens desses filmes são pessoas comuns. Nessa mesma cena de Oldboy, por exemplo, após tomar algumas facadas, o protagonista continua sua ofensiva meio trôpego. Assim como sem forças e ofegante, o perseguido dessa cena de O Caçador se deixa ser pego. Pessoas comuns, mas com algumas neuroses que as fazem cometer certas atrocidades.

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Uma dessas neuroses é a sexual. Por terem sido rejeitados ao prazer da carne, muitas das personagens descontam suas angústias violando a intimidade de outras. Tanto o protagonista de Eu Vi o Diabo, quanto o de O Caçador não foram, na juventude, correspondidos por mulheres, fazendo então com que suas inerentes psicoses fossem
deflagradas contra elas. (spoiler) Já em Oldboy, por ter sido flagrado pelo protagonista tendo relações sexuais com a irmã, o antagonista vinga-se fazendo o primeiro se apaixonar sem saber pela própria filha. (spoiler) Ao mesmo tempo, é possível relacionar esses sentinelas sexuais com o receio em torno do sexo. Em Hollywood, a expressão máxima disso vem com os slashers dos filmes de terror das décadas de 70 e 80. Mike Coreia_8Myers, Leatherface, Freddy Krueger e Jason Voorhees representam o juízo moral que, personificado de forma assombrosa e onipresente, denota o medo de adentrar a vida adulta. No cinema coreano, mesmo que ainda de forma excêntrica, as figuras humanas tornam a metáfora mais crua e real, podendo assim ocorrer tanto em Seul, como em qualquer outra metrópole mundial.

Se por um lado os crimes são motivados pela não-correspondência feminina, algumas dessas narrativas de vingança darão, em meio a um universo machista, voz às mulheres. A vingança da protagonista de Bedevilled terá motivação nas constantes violências domésticas, estupros e encobrimento às ações dos homens da vila. Já a de Lady Vingança se vingará do ex-namorado, por tê-la culpado de um crime que ele havia cometido e, posteriormente, abandonado a filha que eles haviam gerado. Como qualquer outro personagem masculino, após concluir suas revanches, as mulheres estarão tão frágeis quanto estavam quando começaram; não mais pelo domínio do homem, mas sim pelo despropósito do espírito.

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Bedevilled

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Lady Vingança

E não é de se espantar que esse despropósito traga uma instabilidade aos laços mais primordiais de cada uma dessas personagens: a família. (spoiler) Por ter tido sua família assassinada, o protagonista de O Homem de Lugar Nenhum (Ajeossi, 2010), de Jeong-beom Lee, sentirá empatia pela criança vizinha, enfrentando uma máfia inteira para que ela não sofra o mesmo que ele passou. Em determinado momento de Eu Vi o Diabo, protagonista e antagonista já se tornaram tão monstruosos em suas ações, que nenhum deles tem mais nada a perder, a não ser a família. Quando um deles percebe isto, matando toda a família do outro, este planeja a vingança final, executando o primeiro em frente à sua família. (spoiler) Por ser a última expressão de humanidade das personagens, para que a monstruosidade seja enfim plena, o amor da família acabará sendo consumido pela raiva da vingança, deixando somente, mais uma vez, o vazio.

Com uma filmografia muito rica (que ainda tem títulos como O Gosto da Vingança (Dalkomhan Insaeng, 2005), O Hospedeiro (Gwoemul, 2006), Mother – A Busca Pela Verdade (Madeo, 2009) e Pieta (Pieta, 2012)), os sul-coreanos vêm cada vez mais conquistando o Ocidente com suas pérolas de vingança. E as tentativas frustradas de refilmagem, como Oldboy: Dias de Vingança (Oldboy, 2013), de Spike Lee, provam que Hollywood ainda tem muito o que a aprender com a península; por que não até mesmo com os próprios, como a boa repercussão do filme americano Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), dirigido por Joon-ho Bong, comprovou. Quem sabe a falta de originalidade de Hollywood de que tantos reclamam não venha justamente dessa falta de perspectivas de mundo diferente, e consequentemente, de estórias diferentes? Não à toa, alguns dos filmes que mais abocanharam premiações americanas nesses últimos tempos foram dirigidos por franceses, taiwaneses, canadenses, australianos, alemães e mexicanos – inclusive O Regresso (The Revenant, 2015), de Alejandro González Iñarritu, também aborda a vingança de maneira muito semelhante. Que venham então os sul-coreanos (porque se não, a retaliação será cruel, bastante cruel)!

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