Yonlu – O Filme e a difícil necessidade de falar da saúde mental adolescente

Existem temáticas que não vêm com um manual de “como fazer”, que não têm uma maneira segura e infalível de serem abordadas. Yonlu – O Filme (2017) corajosamente mergulha de cabeça em duas das mais controversas delas: a saúde mental e o suicídio.

Yonlu

(TW: menções de distúrbios mentais e suicídio. A repórter que vos fala tem a depressão como um velha conhecida, e se permitiu salpicar esta matéria com algumas experiências pessoais.) Imagem: divulgação

O longa, de direção e roteiro de Hique Montanari e estrelado pelo músico e ator Thalles Cabral, é uma representação de fidelidade notável do jovem artista Vinícius Gageiro Marques, que nunca teve a chance de ver a grande repercussão da sua obra nacional e internacionalmente devido ao seu suicídio em 2006.

Ele deixou um acervo de canções, desenhos, fotografias e textos que são a melhor porta de entrada para sua mente, e é por meio deles que a direção conduz a história.

Os desenhos de Vinícius ganham vida por animações maravilhosamente excêntricas, denotando uma criatividade e um desejo de comunicação muito fortes do adolescente. Eles preenchem a tela enquanto suas músicas, peças de uma delicadeza melancólica e envolvente, enchem nossos ouvidos (seus nomes aparecem no canto da tela, para a pequena – imagino – parcela dos espectadores que não as conhecem).

Também vemos suas fotografias, enquanto Thalles Cabral, extremamente bem imerso na mente do garoto, perambula ruas de Porto Alegre simulando o momento em que foram capturadas – neste momento, ao mesmo tempo em que o vemos caminhar observando atentamente seus arredores estranhamente vazio de gente, percebemos o quanto a criatividade de Yoñlu é intrinsecamente ligada a uma corrosiva solidão.

O complexo de “artista louco”

Uma correlação biológica entre a criatividade e tendência a distúrbios mentais já é explorada há muitos anos pela ciência, sendo este alvo de muitos estudos e já popularizado vulgarmente na forma dos clichês do mad genius (gênio louco), brooding artist (artista infeliz, numa tradução livre), entre outros. Um artigo de Ian Sample, editor de ciência do The Guardian em 2015, abordou a questão, apontando argumentos e evidências favoráveis e também opiniões contrárias a esta relação; uma leitura muito recomendada.

Além disso, múltiplas universidades francesas conduziram uma pesquisa com cem crianças consideradas “de alto potencial intelectual” para buscar traços de tendências psicopatológicas. Foi encontrada uma vulnerabilidade atípica a traumas, o que é chamado de traumatofilia, geralmente provocada por uma exposição repetida a situações que os provocaram. Isso tem sua origem traçada a tendências de artistas e pessoas consideradas criativas a reviver mentalmente momentos e cenas de sobrecarga emocional e grande impacto, a fim de superá-los por meio de simbolismos e elaborações artísticas.

Não foram descobertas evidências suficientes para afirmar tal relação, mas muitas pesquisas apontam que há uma grande incidência de doenças mentais e de personalidade como depressão, esquizofrenia e bipolaridade em pessoas envolvidas em atividades artísticas, de grande potencial criativo, ou fortemente atraídas pelas artes.

Não se sabe, no entanto, a cronologia desta relação – se um alto desenvolvimento da criatividade e intelectualidade pode provocar quadros mentais atípicos, ou se a existência destes, na busca por entendimento e identificação, causam uma maior atração pelas atividades criativas.

Uma das várias ilustrações que aparecem em Yonlu, baseada nos desenhos de Vinícius. Imagem: divulgação

Olhando para Vinícius e sua persona Yoñlu, nos vemos fortemente inclinados a acreditar nesta relação. É como se ele pudesse ser a própria razão destes estudos.

Ele nasce em Porto Alegre, mas aos três anos, muda-se para a França e começa a aprender francês. De volta ao Brasil, aprende inglês, galês e espanhol, bem como aos 4 anos aprende a tocar bateria, e logo, piano e guitarra. A música, acompanhada do desenho, da fotografia lomo e da palavra escrita, tornam-se um refúgio e sua maneira preferida de comunicação – já que não se achava adequado em nenhuma outra.

Sua prematuridade em aprendizado e desenvolvimento artístico também foram acompanhadas do início precoce das sessões de psicanálise, aos 8 anos. Sua mãe, Ana Maria Gageiro, com a bagagem de doutora em psicologia formada em Paris, conta que “desde cedo, percebia que a antena sensível do Vinícius para o mundo também era fragilidade dele”, em entrevista para uma extraordinária matéria de 2008 da Rolling Stone, por Marcelo Ferla (hoje não disponível no site, mas em reproduções pela web).

Vinícius logo encontrará outro refúgio, o mesmo de incontáveis jovens de sua eterna idade: a internet.

Sua persona virtual, Yoñlu, é extremamente ativa em um fórum chamado RLLMUK. Seu perfil ainda está lá; indica sua primeira visita em 26 de julho de 2004 (exatamente dois anos antes de seu último dia na Terra), e a última em 18 de outubro de 2006 (um mês e alguns dias depois). Hoje, ele exibe algumas mensagens póstumas, elogios às suas canções, e alguns de seus comentários, sempre com toques de um humor cinzento.

Não é incomum a adolescentes recorrerem a fóruns e, mais atualmente, grupos de redes sociais para contarem suas preocupações, tristezas, traumas, e ouvirem outros. Com a segurança do anonimato e do contato com pessoas de histórias e sentimentos parecidos, o jovem sente que sua melancolia é permitida – um quadro extremamente oposto à vida offline, na qual é fortemente pressionado para reprimir suas emoções.

O comum bloqueio em se abrir para os pais é o primeiro que inicia o enclausuramento do adolescente deprimido em sua própria mente. Ele não quer que os pais se sintam culpados, não quer que se preocupem, não quer que sua liberdade seja limitada caso seu estado seja revelado.

Por receio de estranhamento, chacota ou abandono, o adolescente também não o revela para amigos. O convívio social pode lhe afetar negativamente – não se identificar com os colegas, sentir-se inferior a eles, senti-los gradativamente o abandonando; todos estes sentimentos apenas contribuem para o autoisolamento do indivíduo.

Esse isolamento é escancarado no longa. Raramente vemos cenas em que Vinícius está com outro alguém. Uma sensação profunda de desconexão permeia suas interações com seus pais, todas elas envolvendo algum tipo de atuação da parte dele. Ele se abre parcialmente e de maneira poeticamente enigmática em sessões de análise com seu psicanalista. Anseia por falar com Luana, a garota de quem gosta (e que, como é revelado na mesma reportagem da Rolling Stone, tinha com ele uma relação muito mais frequente e profunda do que se passa no longa), e que é tema e destinatária de mais de uma de suas músicas – uma noite em que ambos madrugam envoltos numa conversa é um dos pontos de maior felicidade que o protagonista demonstra em todo o filme, imediatamente posterior e anterior à intensa melancolia.

Além destas, no entanto, o longa é quase um one man show de Thalles, que, sendo ator, músico, falante de um ótimo inglês fortemente carregado de sotaque brasileiro e pouco mais que 5 anos mais velho que era Yoñlu, é realmente um encaixe perfeito no papel. É evidente seu esforço e seu sentimento de responsabilidade nessa empreitada, assim como o do restante da produção.

O diretor Montanari, na primeira exibição de Yonlu no Frei Caneca, São Paulo, comentou a decisão de focar o enredo somente em Vinícius, deixando em um segundo, terceiro, quarto plano outros personagens de sua vida: “Esse filme nunca se propôs a ir além do que se encontra na internet sobre o Vinícius”.

Dificuldades de comunicação

Yonlu

Uma das cenas que narra episódios de Vinícius na internet. Imagem: divulgação

O papel da internet como canal de comunicação de Vinícius e, também, de relativa vilã, é retratado com muita poeticidade e de forma quase mística, repleta de simbologias. No longa ela é uma ampla câmara em arquitetura clássica, preenchida asfixiantemente de uma luminosidade fumacenta de cor verde. Os outros usuários seguram junto a seus rostos máscaras idênticas, analogias ao anonimato que os escondem e encorajam na plataforma on-line.

As cenas que envolvem este meio são em inglês. Isto porque Yoñlu se comunicava desta forma – os fóruns em que falava de suas músicas, de sua vida e de sua morte eram nesta linguagem. Ele também escrevia boa parte das canções nesta língua. E, talvez, ela tenha um papel crucial na história – tanto na construção do filme, quanto na vida de Vinícius.

Tal como a relação entre criatividade e depressão, a expressão de emoções em pessoas poliglotas também é motivo de pesquisas.

O doutor em psicolinguística, François Grosjean, publicou um artigo no site Psychology Today que compila resultados de diversos estudos sobre como pessoas bilíngues podem ter comportamentos diferentes ao expressar suas emoções quando utiliza sua linguagem nativa ou sua segunda língua. Ele explica que pessoas que aprenderam a segunda língua numa idade mais avançada (seu exemplo é 14 anos) podem ter laços emocionais muito mais fortes com sua língua-mãe e reverter a ela em situações em que sintam a necessidade de se expressar.

Pesquisadores da Universidade de Chicago tiveram resultados complementares ao estudar o processo de bilíngues e poliglotas de tomar decisões quando confrontados com cenários na sua língua-mãe e uma segunda. Chegaram à conclusão que, quando expostos a um conflito em sua segunda língua, abordavam-no de maneira mais racional e distanciada do que fariam com o mesmo conflito em sua língua nativa.

Com o distanciamento trazido pela língua aprendida tardiamente na infância, expor e pensar em conflitos trazidos pela depressão pode ser mais fácil do que na língua nativa. Vinícius, como Yoñlu, pode não ter encontrado na internet um canal de mais fácil comunicação apenas pelo menor julgamento, mas também porque seus pensamentos parecessem menos reais e dolorosos quando não expressos em sua língua usual. Isso se reflete também em suas músicas – a sua última, Suicide Song, é em inglês.

Quando os métodos de suicídio e os pensamentos mais desesperadores são expostos em inglês no filme, o teor de choque e emoção pode ser diminuído. A naturalidade com que Yoñlu descreve como planeja conduzir o ato, as sugestões dos outros internautas, a narração de seus sentimentos, seriam, sem dúvida, muito mais difíceis de ouvir em português.

Yonlu

O simbolismo mais frequente do longa – Vinícius como um astronauta, vagando solitário. Imagem: divulgação

Não é só a Internet que é retratada simbolicamente.

Yonlu é repleto de metáforas que o tornam mais pessoal, excêntrico e internalizado, no quesito de colocar a mente de Vinícius em primeiro lugar indisputado.

Suas cenas na sala de aula não mostram aluno algum além dele. Os sons, as vozes, todas estão lá, mas em cena ele está sozinho. O trajeto de seu quarto até a sala de jantar, com seus pais, é atravessado por ele como um ator que entra em cena em outro cenário. A narrativa é muito fragmentada, intercalada com cenas de Yoñlu em traje de astronauta, vagando por um campo que, de tão solitário, parece alienígena; as animações com seus desenhos em destaque tomam grande parte do longa, hipnotizando o espectador e, juntamente à sua música, tomam para si a supremacia que frequentemente seria da fala.

Montanari tinha a visão de se limitar ao máximo ao conteúdo que o próprio Yoñlu, durante a sua curta vida, havia fornecido. Os textos, os comentários, as canções, músicas e fotos falam por si próprios, e, muito diferente de grande parte das cinebiografias, não existem incrementações à história para embelezar o enredo. Elas não são necessárias. A genialidade e a tragicidade da vida, obra e mente de Vinícius são mais que suficientes para produzir um bom filme.

Não há, novamente, uma maneira correta e segura de falar de saúde mental e suicídio. Mas há uma maneira correta de tentar: com todo o cuidado, respeito e sensibilidade que tiveram a equipe de Yonlu.

Trailer:

por Juliana Santos
jusantosgolcaves@gmail.com

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