Precisamos falar sobre Zuzu Angel

por Mirella Cordeiro
milucordeiro94@gmail.com

Uma mulher independente, mas alienada. Assim foi parte da vida de Zuleika Angel Jones, a famosa estilista brasileira Zuzu Angel, quando seu filho mais velho, Stuart Edgart Angel Jones, ainda era vivo.
O filme biográfico Zuzu Angel (2006) começa com a carta que a estilista escreveu a alguns amigos deixando-os alertados para o risco de vida que ela corria.
“Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta,
por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido
obra dos mesmos assassinos do meu amado filho.”
Zuleika Angel Jones,
Rio de Janeiro, 23 de abril de 1975.

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Luta

Zuzu Angel tinha uma vida profissional de sucesso no Brasil e no exterior em 1971, durante o governo militar brasileiro. Acabava de conseguir um financiamento para sua próxima coleção de roupas quando foi surpreendida por um telefonema contando que seu filho, Stuart Jones, conhecido como Paulo pelos colegas, havia sido preso.

Na mesma noite, a mãe, preocupada, saiu com as filhas em busca de Stuart na Polícia do Exército, onde foi tratada com descaso e nada conseguiu além de desconfiança por parte de oficiais, que estranharam o fato de que seu filho atendia por dois nomes.

A estilista começa uma busca incansável por todos os órgãos militares, porém sem sucesso. Em uma visita na Base Aérea, Zuzu conversa com um padre, cuja fala choca qualquer pessoa que não viveu nos anos da ditadura militar, por se mostrar conformado com a mesma, dizendo que as torturas não eram tão agressivas quanto comentavam os comunistas.

O filme usa memórias da mãe sobre seu filho para juntar suas características e construir a imagem dele, uma forma interessante de apresentar um personagem carinhoso com a família, militante político e apaixonado pela namorada.

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Tortura

Ao receber uma carta, o chão de Zuzu Angel cai. Qualquer mãe é capaz de beirar a loucura depois de descobrir que o filho morreu, ainda mais sob cruéis torturas, mas foi desse mesmo documento que a estilista conseguiu forças para tentar responder uma nova questão: onde estaria o corpo de Stuart?

Também foi mencionado na carta o motivo da tortura. Ele não quis revelar o endereço de Carlos Lamarca, seu companheiro de militância. Mas, mesmo morto, a agonia não acabou. Ela se estendia até sua mãe cada vez que recebia um “não”. “Não” dos militares que negavam a responsabilidade da morte de seu filho. “Não” dos jornais que recusavam publicar sua denúncia. “Não” da alienação das pessoas, pois agora que conhecia o gosto amargo da morte, ela sentia que não tinha mais o que perder, deixou o medo de lado e abriu os olhos para as injustiças.

Interpretando tantas dores, Patrícia Pillar e Daniel de Oliveira, Zuzu Angel e Stuart Angel, respectivamente, foram os destaques do filme, chegando a receber prêmios nacionais pelas atuações.

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Vida real

Quando um tenente se revolta contra o governo, Zuzu ganha um aliado poderoso e se torna ainda mais incômoda aos militares. Por isso a vida real bate à porta dela. A estilista descobre que há empresários e banqueiros financiando a repressão. Sua amiga foi morta em uma acidente de carro. O tenente que estava lhe auxiliando foi pego. E ela mesma seguiu sendo ameaçada.

Zuleika Angel Jones morreu no dia 14 de abril de 1976. Mesmo que não tenha conseguido provar o assassinato de seu filho pelos militares, ela agitou o Brasil o suficiente para não ser ignorada. Os fatos ainda hoje são muito obscuros. Um ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e atual pastor, Cláudio Guerra, afirma que teme ser assassinado após a publicação do livro “Memórias de Uma Guerra Suja” que conta com seu depoimento sobre a época da ditadura. Além disso, na Comissão da Verdade, Guerra conectou Freddie Perdigão com a morte de Zuzu ao apresentar uma foto do incidente na qual o coronel do Exército, morto em 1997, estava presente.

Apesar de ainda dar medo às pessoas pelas informações que contém, o filme precisa ser visto, pois, mesmo com quaisquer defeitos que essa mãe pudesse ter, ela lutou não só para encontrar o corpo de seu filho, mas também tomou as dores de todos que sofreram com as injustiças do período sombrio que foi a ditadura militar brasileira, e histórias de lutas não devem cair no esquecimento, pelo contrário, devem ser debatidas. Precisamos falar sobre Zuzu Angel.

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